domingo, 17 de fevereiro de 2019

Uma noite com Bukowisk




“(...) as mulheres são muito quentes, elas me lembram a torrada amanteigada com a manteiga derretida nela.”
C. Bukowisk



As janelas escancaradas emolduram o céu cheio de estrelas deixando uma brisa fresca entrar no quarto para refrescar a noite quente. Ela veste somente uma camiseta velha, branca e larga, mas a calcinha é de renda delicada.

Sentada sobre a cama entre os lençóis brancos e bagunçados, os cabelos presos em desalinho, numa das mãos ela segura um livro e, na outra, um lápis cuja ponta ela mordisca devagar enquanto lê.   


Ela vira mais uma página e seus olhos correm pelo papel, mas há algo diferente naquelas linhas que ela lê agora, algo que desperta um envolvimento entre ela e as palavras que abandonam o papel para tocar sua pele como um beijo suave que faz os pelos de seu corpo eriçarem-se.

“(...) a menos que saia sem perguntar do teu coração, da tua cabeça, da tua boca, das tuas entranhas, não o faças”... É a primeira vez que ela lê aquelas frases  e elas dançam sob seus olhos em uma coreografia perfeita e sensual, fazendo seu peito palpitar.

Ela abandona o lápis de lado e leva a ponta dos dedos até o ventre... “(...) se o fazes para teres mulheres em tua cama, não o faças”... Seus dedos brincam em meio à penugem rala e loira que se forma ali bem abaixo do umbigo. Sentir o próprio toque faz seu corpo vibrar numa onda de prazer ainda desconhecido.

“(...) se tem que esperar que saia de ti a gritar, então espera pacientemente, se não sair de ti a gritar, faz outra coisa”... Ela sente intensamente a melodia das palavras e instintivamente sua mão desce devagar até a coxa que ela massageia sabendo que aquele ponto lhe é especial.

Os músculos de suas pernas se contraem no mesmo ritmo em que as palavras vão surgindo... “não sejas mais um, não o faças, a menos que saia da tua alma como um míssil”... Ela não sabe exatamente porque está fazendo aquilo, mas sabe que aquelas palavras cantadas a fazem querer assim como todo o seu corpo ordena que faça.

Ainda tímida, ela desliza a ponta dos dedos para a intimidade entre suas pernas. Poder e liberdade a dominam por completo enquanto ela murmura baixinho... “a menos que o estar parado te leve à loucura ou ao suicídio ou ao homicídio...”.

Seu corpo se contrai ao som das palavras sussurradas acompanhadas por seu toque... “ao menos que o sol dentro de ti te queime as tripas, não o faças”... Sua fala agora é cadenciada e entrecortada pela respiração ofegante... “e se foste escolhido, vai acontecer, por si só e continuará a acontecer... até que tu morras ou morram em ti”.

Sentindo-se dona de si, ela abandona o livro ao seu lado na cama e se concentra em mover o quadril no mesmo compasso dos dedos que deslizam com facilidade até sentir-se esvair em resposta àquilo que seu corpo deseja.
Suavemente ela se estende na cama e pega novamente o livro nas mãos. Sorrindo, lê para si mesma e também para o mundo a última frase... “não há outra alternativa, e nunca houve”...  



- fernanda rodrigues -





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O Sorriso do Lobo




O aroma adocicado e sensual das laranjeiras preenchia a noite morna enquanto ela caminhava distraída ao som das batidas do pequeno salto sobre o caminho de lajotas que cortava o parque completamente vazio àquela hora.

Estava cansada após um longo dia de trabalho e só pensava no moço de olhos meigos e braços fortes que havia conhecido no início daquela noite e em como ele havia sido gentil e demonstrado interesse por ela. Falara pouco e passara a maior parte do tempo ouvindo-a falar sobre seus sonhos e sobre sua vida com uma atenção à que ela não estava acostumada.

Não desviara os olhos dela nem por um minuto, como se algo nela o enfeitiçasse e, além de bonito e bem-educado, ela havia notado os trajes finos que ele vestia, o que a fez imaginar que ele poderia ser um bom partido para uma garota como ela.

Estava perdida em seus devaneios quando foi tomada pela nítida sensação de que alguém se aproximava por suas costas. Sentiu o sopro como de alguém respirando ao pé da sua nuca fazendo seus cabelos se moverem. Assustada, olhou para trás, mas não havia ninguém ali. Era somente ela e as centenas de árvores que margeavam seu caminho para casa.

Riu daquele medo bobo e voltou a caminhar perdida nas lembranças do dia, mas seus pensamentos foram interrompidos pelo uivo alto, lamentoso e solitário que ecoou por toda a extensão do parque, fazendo um forte tremor percorrer todo o seu corpo.

Pôs-se em alerta sentindo como se algo em seu íntimo a avisásse que ela estava em perigo.

- É apenas um cão - disse para si mesma tentando se acalmar e, temendo olhar para trás, acelerou o passo invadida pela certeza de que aquele lugar que lhe era tão familiar e que sempre lhe transmitira paz de repente se tornara hostil.

Jurou que não aceitaria mais o turno da noite. Aquele era o caminho que ela percorria há anos, sem nunca ter tido motivos para temer, porém, acabara de perceber que aquele lugar iluminado apenas pela lua e onde não se via viv'alma não era seguro para uma menina sozinha como ela durante a noite.

Diante daquele pensamento, mais uma vez lamentou sua sina de menina pobre, órfã de pai e mãe e condenada a viver com sua avó, a quem cabia sustentar com seu parco salário, no pequeno casebre no bairro distante de tudo.

Refletia sobre sua má sorte quando um farfalhar de assas batendo acima de sua cabeça a fez estancar novamente. Olhou em direção a lua gorda e prateada que reinava absoluta na noite sem identificar de onde vinha aquele som que anunciava medo e apesar do calor abafado que fazia, sentiu frio.

Um princípio de pânico começou a apoderar-se dela que instintivamente apertou a capa vermelha envolta do corpo frágil como se aquilo pudesse protegê-la de tudo, então, se deu conta de que um silêncio absoluto e perturbador pairava ao seu redor. Nada se ouvia, nem o constante som da brisa movendo as folhas das árvores, nem o onipresente som dos pássaros que se abrigavam em seus ninhos.

O parque ao seu redor emudecera.

Naquele momento ela soube que estava sendo observada. Perscrutou a vastidão de bétulas e faias que ladeavam o caminho e teve plena certeza de que havia olhos no meio da noite que a seguiam.

Aterrorizada, percebeu que em meio à densa vegetação a respiração daquilo que a espreitava formava uma nuvem de vapor e, antes que ele pudesse ataca-la, ela correu e o que quer que estivesse escondido entre as folhagens pôs-se a correr também.

Agora ela podia ouvir os passos ágeis e velozes entre as árvores e galhos que se quebravam para dar passagem àquilo que vinha em seu encalço. Não olhou para trás. Apenas correu sem descanso e não parou nem mesmo quando teve certeza de que seu peito explodiria, porém, após tanto esforço, suas pernas de menina traíram-na e quando não teve mais forças para continuar correndo tombou no chão pedregoso derrubando a sacola que trazia nas mãos e espalhando por todo lado os alimentos que levava para alimentar sua velha avó.

Paralisada, sentiu a ardência no joelho ferido de onde sangue escorria abundantemente. Com os olhos embaçados pelas lágrimas que o medo e a dor faziam cair, ouviu passos que se aproximavam com calma vindos não do interior da floresta, mas sim da direção contrária àquela que ela antes percorria.

Sem que tivesse tempo para se levantar, percebeu alguém ao seu lado e sentiu uma mão tocando seu ombro de forma tranquilizadora. Quando, enfim, teve coragem, olhou para cima e reconheceu os olhos meigos que a haviam admirado durante horas naquela mesma noite.

- Não tenha medo, agora você está a salvo – ele disse com sua voz aveludada e com seu sorriso muito branco enquanto a ajudava a colocar-se em pé.

Mas por algum motivo, ela não se sentiu segura.


(...)


As sombras alongavam-se e encolhiam-se preguiçosamente à medida que a brisa quente embalava o candeeiro no interior da cabana de caça perdida em um canto remoto do parque.

A
luz amarelada da chama deslizava sobre o corpo esguio e pálido da jovem ainda coberto por uma fina camada de tecido ordinário. A capa vermelha  estava caída no chão aos seus pés.

Ali, onde nem mesmo os olhos de Deus chegavam, ele se deleitava com o prazer que aquela visão lhe proporcionava. Há horas observava sua presa paralisada como se envolta por uma teia invisível.

Havia sido uma boa escolha. Encontrara aquela menina simples e pueril quase que por acaso, enquanto caminhava pela região boêmia da cidade no início da noite. A pobre garota que trabalhava em um dos muitos cafés que se espalhavam por aquele lugar o olhara com interesse e fascinação convidando-o a se aproximar.

Enquanto ela lhe servia o café e tagarelava sobre sua vida sem graça, ele salivava sentindo o cheiro adocicado de seu sangue. Planejou segui-la mais tarde. Seria fácil atacá-la em qualquer lugar e se alimentar em um canto escuro, mas ele queria mais. Há muito tempo havia aprendido a desfrutar da caça muito mais do que da caçada, não queria simplesmente se empanturrar de sangue e abandonar o corpo frio em um beco sujo. Aquele não era seu estilo e ele acreditava que a morte exige elegância, afinal, ele não era um animal. Era um predador e ocupava o topo da cadeia alimentar.

Ele desejara tudo que aquela menina que exalava o frescor da inocência podia lhe oferecer, mas sua caçada quase havia sido atrapalhada naquela noite de lua cheia em que as transformações que ela provocava traziam ao mundo aqueles seres ordinários que não conseguiam manter qualquer traço de civilização ou dignidade enquanto corriam por aí insaciáveis, comendo e se acasalando como bestas selvagens.

Não esperava encontrar um deles tão perto da cidade, habitat natural  dos de sua estirpe, porém, conseguira despistá-lo e agora estava ali, a observá-la quase que em adoração, com um desejo que os humanos nunca poderiam compreender. Um desejo de carne e sangue, nascido da necessidade de saciar a fome, mas também da lascívia que o dominava por completo.


Naquele momento de intensa excitação, nem o mais tímido movimento da presa lhe escapava, nem mesmo o tênue tremor do seio esquerdo que pulsava sob o tecido fino impulsionado pelos batimentos cardíacos acelerados, fazendo-o questionar-se se ela sentia apenas medo ou se também o desejava?

Com um simples menear de cabeça ordenou que ela se despisse e, apesar do medo que aqueles olhos grandes e negros denunciavam, ela obedeceu. Com movimentos lentos desatou as fitas que prendiam o vestido fino às costas. O pano leve escorregou pelo corpo de menina deixando à mostra o ombro delicado, os seios pequenos e as clavículas acentuadas.

Após se libertar do vestido, ele ordenou que ela se aproximasse até que estivesse bem à sua frente. Com seus longos dedos frios, ele prendeu uma grossa mecha de cabelo atrás da orelha pequena, fazendo-a arfar. Antes de saborear o sangue que o alimentaria, ele se deleitaria naquele corpo que parecia esculpido em mármore.

Obediente aos desejos que ele sequer precisava expressar, ela inclinou a cabeça para o lado, deixando à mostra o pescoço nu. Ele aspirou o cheiro suave e adocicado do sangue que corria pelas veias azuladas e naquele momento quase perdeu o controle. Foi com grande esforço que se conteve.

Um manto de negra escuridão cobriu sua face enquanto ele sussurrava obscenidades junto ao ouvido da menina que estremecia a cada palavra indizível que saia de sua boca acompanhada pelo bafo gélido da morte, aumentando o prazer que ele sentia.

Ele era, antes de tudo, um caçador e desejou vê-la sangrar. Sentia um prazer doentio quando o liquido vermelho escorria pela pele branca, então, com a unha do dedo anular traçou um corte reto e fino no pescoço liso.

Gotas de sangue brotaram da incisão perfeita e percorreram todo o corpo chegando até o ventre que ele lambeu com desejo e, ao perceber que a pele da menina se arrepiava respondendo ao toque de sua língua úmida, gargalhou com escarnio.

Não havia castidade nela e seu recato era mentira. Então, dominado pela bestialidade, tomou-a com força e a possui ao mesmo tempo em que cravou os dentes no pescoço branco para sugar cada gota de sangue daquele corpo frágil.

Perdido naquele momento de êxtase, único em que se tornava vulnerável, foi surpreendido pelo golpe que o derrubou no chão. Sem tempo para se defender, sentiu o inimigo ancestral de sua raça cravar os dentes em seu dorso e rasgar sua carne branca e fria expondo as vísceras que se derramaram para fora do corpo.

Com as patas fortes de garras afiadas, o animal tomado pelo ódio e pela fúria feriu seu rosto pálido, fazendo-o perder o discernimento por alguns instantes, porém, apesar da dor transcendente, aquilo não era uma estaca de madeira em seu peito, portanto, não seria suficiente para matá-lo.

Mesmo com o corpo estraçalhado, concentrou-se para retomar o controle de si. Num golpe rápido, agarrou o pescoço do monstro com suas mãos e com sua força sobre humana estrangulou a fera fazendo sua força arrefecer. Por um breve momento, o lobo-homem afastou sua enorme boca de sua presa dando-lhe tempo suficiente para escapar e alcançar a arma sempre preparada que trazia em seu casaco.

Com as mãos firmes e a destreza de quem nunca deixava de praticar, disparou um tiro certeiro entre os dois grandes olhos de pupilas dilatadas, perfurando o crânio do lobo-homem. Um uivo de dor cruzou a noite fazendo os pássaros que já dormitavam em seus ninhos levantar voo num farfalhar apavorante que ecoou pelo parque, antes da fera tombar inerte.

O homem pálido e banhado em seu próprio sangue, arfando pela dor, aproximou-se do animal, tocou-o com as pontas dos pés e após certificar-se de tê-lo abatido, sem sequer se lembrar da frágil menina que jazia no chão frio, caminhou em direção à floresta até ser engolido pela noite que nunca teria fim.

(...)

Alba foi encontrada após alguns dias, vagando por entre a mata densa do parque, tiritando de frio e enrolada em sua capa vermelha. A pobre menina parecia ter perdido a razão e delirava em sua febre falando sobre um caçador que havia tentado matá-la e sobre um lobo que havia salvado sua vida.


(...)


Conto escrito para o CLTS - Concurso Literário de Terror e Suspense 06 do Recanto das Letras, com o tema Contos de Fadas.



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

- A Defunta -





Soube que ela havia falecido durante a noite, em sua cama, na antiga casa de portas altas e janelas de madeira pintadas de azul. Fora encontrada pelo senhorio que estranhou o silêncio matutino naquela casa onde a vida começava com as primeiras luzes do dia.

Desejei me despedir, em nome dos bons tempos passados e quando cheguei ao velório público já no fim da tarde, deparei-me com rostos fechados. Os homens em seus ternos escuros apesar do calor abafado da tarde que fora ensolarada exibiam enormes manchas de suor sob os braços. As mulheres fervorosas, com seus cabelos que caiam abaixo das nádegas e seus vestidos pesados e bem fechados. 

Não deixavam nada à mostra, exceto os rostos sisudos e a cara de poucos amigos.

Filhos, netos e bisnetos. Todos ali cumprindo seu dever. Uma família inteira que destoava completamente daquela mulher deitada ali, no meio de tudo.

Vestindo minhas melhores roupas de domingo em homenagem à mulher que tinha me feito sorrir e chorar, passei a noite toda ali, sentado desconfortavelmente numa das cadeiras, sentindo-me um incomodo. 

Ninguém me dirigiu a palavra. Não havia choro nem tristeza aparente, mas pude ouvir quando os genros e filhos discutiam o destino dos parcos bens da defunta.

Senti certa revolta por aquele descaso e pela ausência de choros histéricos e lamentos de despedida, então, minutos antes do ataúde ser fechado, num gesto de ousadia, levantei-me e caminhei até caixão sob o olhar inquisitivo dos puritanos ao redor. Após contemplar aquele rosto sereno por alguns instantes, curvei o corpo e beijei seus lábios demoradamente.

Elsa, minha Elsa que nunca aceitara regras nem limites, que havia vivido a vida de forma tão plena e completa, não poderia descer ao túmulo sem um último ato de rebeldia e, para minha alegria, tive a certeza de ver um sorriso zombeteiro formar-se em sua boca carnuda para, em seguida, ser eternizado pela rigidez post mortem.

Eu sabia que naquele momento ela não ria daquele meu gesto de paixão derradeiro. 

Não! Ela ria dos rostos embasbacados de seus filhos e filhas, noras e genros, netos e netas.

Parti em seguida, deixando para trás aquele bando de abutres.


- fefa rodrigues -





Ecos



No pátio, os negros entoam suas cantorias acompanhados pelo batuque animado. Na varanda, duas pessoas discutem numa língua desconhecida. No quarto, a velha costura e o som ensurdecedor da máquina se espalha por todos os cantos. Pela porta da frente, uma procissão se arrasta com suas rezas numa cacofonia disforme. A mãe lamenta o filho natimorto. Há passos cansados e pesados de um lado para o outro. Na sala, o homem saúda o Estado Novo. Pelos corredores escuros, a moça chora a morte do marido que foi tomar a Itália e nunca mais voltou. A voz magnética do rádio anuncia, para o homem que chora baixinho, o tiro no peito do presidente. O moço ralha com as crianças que correm descalças por todos os lados e da janela alguém agradece pela chuva que molha o campo ensolarado lá fora.

No quarto, a criança ouve todos aqueles ecos do passado que se repetem e se misturam dia após dia, mas ninguém acredita no que ela diz.




- fefa rodrigues -


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O último prisioneiro de Spandau

Ilustração por Rocheteau



Os corredores escuros e vazios de Spandau, assombrados pelos fantasmas silenciosos de centenas de homens que outrora haviam pagado por seus crimes nas celas de pedra fria daquela fortaleza guardada por muros sólidos e cercas elétricas, tinham agora um único morador.

Quem visse o frágil nonagenário de mãos trêmulas e olhos baços cuidando da pequena horta plantada no jardim da prisão, dificilmente imaginaria que aquele homem fora não só um dos mais notórios membros do partido nazista como também secretário particular de Hitler e segundo na hierarquia do partido

Rudolf Hess era o último dos condenados em Nuremberg ainda vivo e mantinha-se afastado de todo e qualquer contato com a realidade desde que, após escapar do cadafalso, fechara-se em uma existência letárgica e medíocre à espera da morte.

Naquele dia, como em todos os outros dias desde que fora encarcerado, Hess levantou-se muito cedo e passou a manhã trabalhando em sua horta. À tarde, após um almoço frugal preparado com as hortaliças que ele mesmo plantava, foi para a pequena biblioteca do presídio onde passou o resto da tarde lendo até a hora do jantar e, quando a noite se aproximou, ele se recolheu em sua cela minúscula.

Lavou as mãos e o rosto metodicamente preparando-se para se deitar em seu catre e só percebeu que tinha companhia quando ouviu a voz suave e melodiosa cantando uma velha canção que há muito tempo não era ouvida: “Nossa bandeira tremula diante de nós, nossa bandeira é uma nova era, nossa bandeira é mais forte que a morte”.

Virou-se instintivamente em direção àquele eco do passado e assustou-se ao se deparar com um homem jovem, elegantemente vestido, de pele branca e olhos profundamente azuis, sentado confortavelmente na única cadeira que ocupava um dos cantos escuros da cela.

- Boa noite Sr. Hess – o jovem cumprimentou-o de forma gentil.

- Quem é você? O que faz aqui? Eu não recebo visitas... Guardas! – gritou virando-se em direção à porta e pondo-se a chamar pelos guardas através da pequena abertura de comunicação enquanto girava a maçaneta sem conseguir abri-la, pois, estranhamente, naquela noite ela havia sido trancada.
Apesar de todo o seu esforço, a porta não se abriu e não houve qualquer resposta a seus pedidos.



Os guardas nunca falavam com ele, não lhe dirigiam qualquer palavra e, a despeito de qualquer coisa que ele dissesse, apenas o olhavam com desprezo e rancor.

- Sinto dizer Sr. Hess, mas creio que hoje o senhor não tem escolha – explicou com calma ajeitando os punhos da bela camisa que vestia sob o terno.

Hess voltou-se novamente em direção àquele visitante inoportuno e, um pouco mais pálido do que de costume, perguntou:

- Você é do Mossad, não é? Vai me matar aqui mesmo ou vai me levar para outro circo como o que fizeram com o idiota do Eichmann? Não tenho mais idade para isso, não vê? Já tive minha parcela de humilhação em Nuremberg e não farei parte desse tipo de coisa outra vez! – declarou tentando manter a voz firme, porém, o tremor acentuado que denunciava seu medo era perceptível.

– Sr. Hess, não se preocupe, não estou aqui para te expor, não se trata de circo algum, aliás, não sou um apreciador do grande público – ao mesmo tempo havia algo de tranquilizador e de assombroso naquela voz.

- Eu não entendo o que vocês ainda querem! Pode-se dizer que, no fim, vocês venceram, não é? Continuam vivos e agora têm até mesmo seu próprio país, o que mais querem de mim? Sou apenas um velho derrotado? Não tenho nada a oferecer a você ou ao seu povo! A propósito, soube que logo que vocês chegaram lá tomaram todas as providências para expulsar os palestinos que ocupavam o lugar, não é verdade? É importante limpar a nação dos indesejáveis. Ao menos vocês aprenderam alguma coisa conosco – declarou tentando empregar à voz uma mistura de desprezo e sarcasmo

- Não perca seu tempo tentando me provocar Sr. Hess, não vai conseguir. Aliás, se te agrada saber, não sou do Mossad e também não sou judeu.

- Então, o que faz aqui? – uma óbvia expressão de alívio tomou conta de seu rosto.

- Apenas gostaria de conversar um pouco. Que tal se o senhor se sentasse, parece cansado e, além disso, eu te garanto que não há o que o senhor possa fazer, esta noite o senhor é meu – o sorriso limpo e branco não desfez o tom de ameaça velada, porém, Hess não estava disposto a se entregar. Não ainda.

- Conversar. Certo. Vejamos, pior que um judeu só um advogado ou um jornalista. Vou apostar minhas fichas em jornalista. Vocês sempre foram como urubus sobrevoando a carniça, não devem ter mudado muito. Mas, diga-me, então as pessoas ainda se interessam pelo nacional-socialismo? Fico feliz em saber que posso ter esperanças de que um dia o mundo volte ao rumo certo.

O visitante permaneceu impassível. Era imune às palavras envenenadas do velho que, ao perceber que não tinha chances naquela disputa, deu de ombros e sentou-se vencido.

- Olhe, não há mais nada para contar, tudo já foi dito, nenhum grande segredo a ser revelado, nada que justifique nossos atos. Não há mais nada. E além disso como você deve saber eu perdi a memória.

O visitante sorriu como um adulto indulgente que flagra uma criança mentindo e seus olhos brilharam.

- Claro, o senhor não se lembra de nada. Eu sei. Não se lembra nem mesmo de sua viagem à Escócia? – a pergunta fez uma centelha brilhar nos olhos encovados e sem vida do velho denunciando uma ponta de orgulho.

Após pensar por alguns instantes, Hess começou a falar de forma compassada, como se há muito tempo viesse ensaiando aquela confissão que agora fluía facilmente.

- Eles sempre me trataram como um idiota, como se eu fosse menos inteligente. Mas, apesar do desprezo, eu era o único que percebia as mentiras que eles contavam. Göring, aquele bufão, e Goebbels em sua bazófia, os dois mentiam, os dois criavam a verdade que o Führer ansiava por ouvir – uma tristeza genuína embaçou seu olhar cansado.

- Entendo – disse o visitante incentivando-o a continuar.

- Nós não podíamos lutar em duas frentes, seria a nossa ruína, eu tinha certeza disso apesar do que todos aqueles relatórios e números absurdos diziam. Tudo inventado para que eles pudessem dizer ao Führer o que ele queria ouvir! Era ridículo! Havia só um caminho para vencermos, tínhamos que neutralizar a Inglaterra por meio da paz, mas eles não quiseram me ouvir e acabei sendo taxado como descrente por não confiar nas habilidades estratégicas de nosso líder. Usaram isso contra mim, principalmente aquele hipócrita do Bormann, ele sempre desejou o meu lugar.

As lembranças dolorosas o calaram por alguns minutos, mas logo voltaram a jorrar de sua mente.

- Eu sabia que às vezes ele se deixava enganar, todos os gênios são assim, não são? Carregam dentro de si um demônio que os cega. Eu o conhecia melhor do ninguém, então podia compreender isso. Eu estive ao seu lado desde quando ele era apenas um orador excêntrico discursando nos fundos de uma cervejaria decadente, nós dois compartilhamos a mesma cela miserável depois do golpe fracassado e, dia após dia, eu não deixei que ele desistisse do nosso sonho. Todos aqueles anos juntos me ensinaram a saber o que ele pensava mesmo sem que ele dissesse uma palavra sequer – a lembrança prazerosa fez seus olhos sorrirem.

- Eu não podia aceitar aquilo, não podia aceitar que as mentiras cegassem o Führer e colocassem o futuro do Reich em perigo, então, se ninguém via ou queria ver, não seria eu quem fecharia os olhos, por isso eu agi, fiz o que ninguém teve coragem de fazer - suspirou buscando forças para continuar.

- Voei até a Escócia só para descobrir que a Inglaterra não queria a paz. Churchill havia envenenado os ouvidos de seu povo contra nós, não consegui sequer uma audiência com o velho buldogue e, para felicidade dos invejosos, meu fracasso acabou estampado em todos os jornais. Eu me arrisquei pelo Reich e acabei sendo acusado de traição, acusado de ser um covarde que buscou abrigo junto aos inimigos – um ressentimento sincero embargou sua voz.

- Você não merecia isso, não é? Afinal, Hitler te devia a própria vida, sou testemunha de que você o salvou naqueles primeiros dias em Munique. Você foi muito corajoso quando aquela bomba explodiu tão próxima a vocês.

Hess olhou para o homem que aparentava ser vários anos mais jovem do que ele, então balançou a cabeça em um gesto de negação.

- Você pode até conhecer os fatos, mas não minta dizendo que foi uma testemunha, você não estava lá, não tem idade para isso, não tinha sequer nascido quando tudo aconteceu, não tente me enganar, não vai conseguir nada com isso – falou e em seguida perdeu-se em seus pensamentos.

O visitante consultou seu relógio de bolso e constatou que ainda tinham algum tempo, então, permitiu ao condenado divagar por suas lembranças e só o interrompeu muito tempo depois.

- Você o amava – afirmou de forma categórica - Você o amava com todo o seu coração. Mais do que isso, você o desejava! – ouvir aquilo dito em voz alta tirou Hess de seu devaneio, porém, ele não teve forças para confrontar a afirmação.

Permaneceu em silêncio, a cabeça baixa, fitando os próprios pés, como se se sentisse envergonhado até que entendeu que não havia mais razões para negar a verdade que o havia consumido durante toda a sua vida e que havia guiado cada um dos passos que o haviam levado até ali.

- Sim, eu o amava. Eu amei Hitler desde a primeira vez que o vi, mesmo sabendo que era um sentimento indigno, impuro. Eu morreria por ele se ele me pedisse – pela primeira vez naquela noite seus olhos se encheram de lágrimas.

- Ele conhecia seus sentimentos Sr. Hess, sabia do poder que tinha sobre você e que podia usá-lo como desejasse, bastava te olhar daquele jeito que só ele olhava para que você fizesse qualquer coisa por ele. Ele te usou enquanto você se mostrou útil, mas até ele se cansou de sua paranoia – afirmou sem qualquer pudor por ferir ainda mais aquele corpo destroçado e a verdade daquelas palavras tiveram o poder de ferir Hess como nada antes o tinha ferido.

A dor foi tão intensa e profunda que o fez gritar em meio a lágrimas.

- Não! Isso não é verdade. Você é um mentiroso! Ele conhecia meu valor, sabia que precisava de mim ao seu lado. Nós tínhamos um objetivo comum, acreditávamos na grandeza da Alemanha e na pureza da raça ariana e era isso que nos unia acima de tudo! Nós acreditávamos no mundo que iríamos construir juntos – a voz era rouca e mercada pela mais plena convicção.

- Vocês fizeram promessas vazias e repetiram tantas vezes suas mentiras até que elas se confundiram com a verdade. Juraram que construiriam um Reich de mil anos, mas a única coisa que sua ideologia estéril foi capaz de construir é a vergonha marcada na alma de cada alemão vivo, de cada alemão que já viveu e de cada alemão que ainda viverá, uma marca mais incisiva e permanente do que aquela gravada nos braços de seus prisioneiros e esta vergonha Sr. Hess é a única coisa vinda de vocês que irá durar mil anos e mais mil anos depois disso!

Aquelas palavras duras ditas com calma abalaram ainda mais o velho que se encolheu em seu catre como uma criança em posição fetal e começou a chorar.

- Você envergonhou sua nação Hess, manchou a mão de alemães dignos com sangue inocente e maculou seu povo que até hoje é taxado de assassino pelo mundo todo! – as palavras sussurradas o torturavam.

- Não! Não! Não! – gemia tentando tampar os ouvidos com as palmas das mãos para impedir que aquela verdade penetrasse sua alma.

Então, os olhos azuis do visitante se tornaram totalmente negros, deles corriam lágrimas de sangue e de sua boca uma língua de fogo escapava. Com um salto, ele voou sobre o corpo descarnado de Hess e o envolveu com suas pernas tão fortes quanto aço derrubando-o no chão.

- Consegue sentir o frio enrijecendo seus ossos, Hess? – sua voz já não era aveludada e calma, mas sim um ganido áspero e violento sussurrado enquanto o prisioneiro sufocava em seu abraço devastador - Foi esse mesmo frio que matou milhares de pessoas nos seus campos da morte e que matou uma geração inteira de alemães cujos corpos ainda hoje apodrecem no solo congelado da Rússia!

- Está sentindo essa dor dentro de você, Hess? – suas mãos de dedos compridos como garras envolviam o pescoço flácido do velho que o encarava com os olhos arregalados de pavor - É a dor da fome, a pior dor que existe, seu corpo devorando a si mesmo! Você pode contar quantas crianças sentiram essa dor? Sabe dizer quantos bons homens e mulheres morreram sentindo essa dor enquanto você desfrutava de sua loucura?

- E esse cheiro, está sentindo? – um bafo pútrido foi exalado junto ao nariz de Hess que tossia sem parar – Esse é cheiro do Zyklon B, Hess. Sim, este é o cheiro que acompanhou milhões de pessoas em seus últimos segundos de vida. Ouça meu conselho velho, é bom você se acostumar, pois este é o ar fétido que você irá respirar por toda eternidade! - sem qualquer aviso ele se separou do corpo fraco e quase sem vida abandonando-o sobre o chão frio e voltou a sentar-se no canto escuro da cela, retomando sua aparência anterior.

Os olhos de Hess tinham visto a morte e agora ele sentia o pavor devorando suas entranhas e o medo e desespero tomando sua alma, então, ainda choramingando, arrastou-se buscando em vão por refúgio até encontrar as paredes geladas às suas costas onde se aninhou, sentindo-se completamente vazio como se toda esperança o houvesse abandonado.

- Por favor, me deixe em paz, estou aqui há tantos anos, sozinho, esquecido, já paguei por meus crimes, já paguei por meus pecados, já paguei por tudo. Me deixe em paz, me deixe morrer em paz – suplicou em meio a um acesso de tosse e choro afogando-se na secreção que brotava em sua garganta e que escorria de suas narinas que ainda queimavam impregnadas pelo aroma da morte.

O visitante riu e seus dentes já não eram brancos e brilhantes, tinham se tornado presas amareladas e malignas sobrepostas umas às outras.

- Te deixar em paz Hess? Você ainda não entendeu, não é mesmo? Sua covardia te garantiu todos esses anos de paz neste buraco sombrio e úmido, mas sua paz está chegando ao fim – sentenciou e seus olhos agora tinham se transformado em buracos totalmente brancos e vazios, como olhos cegos que, ainda assim, podiam ver a alma apodrecida de Hess.

Com a voz compassada, como um adulto que explica algo importante a uma criança, tornou a dizer:

- Você sabe o que é o inferno Hess? Você tem alguma ideia de como é o inferno? Não, não tem! O inferno não é como aqueles quadros renascentistas, não há fogo por toda parte e pessoas sendo torturadas. Nenhum destes estereótipos de mau gosto. Não Hess, o inferno não é nada parecido com o que você pensa. O inferno é a eterna repetição – agora a voz saia em um timbre agudo enquanto a criatura olhava com desprezo para o velho encurvado no canto choramingando como uma criança assustada, implorando para ser deixado em paz.

- Levante-se Hess – ordenou -, tenha um pouco de dignidade! Seu momento chegou, enfim você irá reencontrar seu amado líder, não é isso que você desejou todos os dias desde que chegou a esta cela de paredes frias? Você quis a morte mais do que qualquer outra coisa, você implorou para que eu viesse te buscar, só não teve a coragem de me encontrar através das próprias mãos, como muitos de seus companheiros tiveram. Eles estão te esperando Rudolf Hess, estão todos ansiosos para te ver outra vez. Você será o último a chegar, mas não terá perdido nada da festa que irá durar para sempre. Sim, Hess! Há um lugar especial para você e seus companheiros no inferno, um lugar onde tudo o que você acabou de experimentar irá se repetir por toda a eternidade, um lugar que nós chamamos carinhosamente de Auschwitz!

Enquanto dizia isso, de suas costas surgiram duas grandes asas negras, seus olhos se tornaram fogo, uma escuridão intransponível e brutal tomou conta da pequena cela e ele se lançou uma última vez sobre o velho medíocre segurando-o com suas garras afiadas.

O Vingador então pressionou sua boca com força e violência contra a boca de Hess e, com seu beijo de morte, tudo o que restava daquela vida miserável e infeliz foi sugada até que sua alma pútrida foi, enfim, enviada para sua morada eterna.


(...)



Ilustração por Rocheteau


O corpo de Rudolf Hess foi encontrado na manhã do dia 17 de agosto de 1987, no jardim da prisão de Spandau e a causa da morte foi oficialmente determinada como suicídio por enforcamento, porém, sua fragilidade e as estranhas circunstâncias em que aquela morte ocorreu fizeram com que muitos questionassem a veracidade daquela explicação.

Muito se especulou acerca dos últimos momentos de Hess, porém nenhuma das teorias aventadas foi comprovada, permanecendo um mistério até hoje.

Seu corpo foi enterrado em um lugar secreto e a prisão onde vivera os seus anos de cárcere foi demolida. Posteriormente, seu corpo foi transferido para o jazigo da família até que, a fim de se evitar que o lugar se tornasse um antro de peregrinação neonazista, seus restos mortais acabaram sendo exumados e cremados.

Suas cinzas foram jogadas no mar, para que desta forma fosse apagada qualquer lembrança do último prisioneiro de Spandau.





(...)

NOTA: Este conto foi republicado para incluir as ilustrações maravilhosas feitas pelo artista plástico e contista Rocheteau. 

Meu amigo, me faltam palavras para agradecer, ficou melhor do que eu podia imaginar, pois você captou em suas ilustrações todos os detalhes do conto e dos personagens!!! Você é um artista incrível!!!

Fernanda Rodrigues 




segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O Animal mais Perigoso de Todos






O medo borrava seu rosto bonito de menina ameaçando estragar a noite. Com paciência, ele abriu o porta-luvas do carro deixando à vista uma Magnum .40.

- Não se preocupe meu anjo! Relaxa, não vai acontecer nada. Você está segura comigo. Vamos ao que interessa, você sabe que sou louco por você e eu sei que você também está com saudades, então deixa de frescura – disse com firmeza, como se reafirmando ali a autoridade que tinha em sala de aula.

Aquela menina dotada de uma inteligência de mulher, tinha se tornado sua preferida desde o dia em que ele havia tirado sua virgindade introduzindo seu dedo nela, um fetiche que tinha há muito tempo, mas que demorara a realizar dada a falta de virgens no campus.

Talvez fosse por isso que havia desenvolvido algo que se aproximava de afeição por ela e estava decidido a lhe dar um tratamento melhor do que aquele que havia dispensado a tantas outras.

Encontrou-a antes mesmo da primeira aula do dia, de shorts curto e regata soltinha, a pele bronzeada após as férias de verão. Ele, depois de passar um mês na Europa em viagem com a esposa e os filhos, sentiu-se arder de desejo.

Ao final das aulas daquele período, uma chuva torrencial desabou sobre o mundo e ele aproveitou para oferecer carona para ela e um grupo de alunos que aceitaram radiantes de orgulho pela chance de se exibir pelo campus com aquele que era o professor de maior prestigio na Universidade.

Ela, esperta, deu um jeito de sentar-se no banco da frente e enquanto movia-se com destreza enrolando os cabelos longos em um coque perfeito no alto da cabeça, ele foi invadido por aquele cheiro que emanava dela e que despertava seus instintos mais primitivos.

Assim que os deixou na república, ligou para ela marcando um encontro para aquela mesma noite, o que ela aceitou de pronto dizendo com sua voz meiga que estava com saudades e que o encontraria no lugar de sempre.

À noite, ao entrar no carro espaçoso, ela toda dengosa pediu-lhe que daquela vez eles fossem a um motel, disse que estava assustada por conta dos assassinatos que haviam acontecido no campus e fazendo biquinho com a boca carnuda, disse que não sabia se conseguiria relaxar se eles simplesmente parassem o carro em qualquer canto escuro.

Nos últimos seis meses, quatro assassinatos haviam sido registrados no enorme campus daquela que era a maior universidade do país. Nenhum deles havia sido solucionado até então e a polícia parecia longe de chegar aos culpados. Alunos, professores e funcionários haviam sido entrevistados, milhares de pistas haviam sido coletadas pela polícia, mas ninguém havia sido preso.

Apesar de não existir qualquer indício que ligasse os crimes entre si, já que sequer as vitimas correspondiam a um padrão, poucos acreditavam que aquilo tudo fosse mera coincidência como as autoridades queriam fazer crer.

Lembrava-se de que, alguns dias antes do início das férias, pouco depois do quarto corpo ter sido encontrado próximo às piscinas, ouvira os professores conversando na sala dos docentes sobre o assunto.

Discutiam sobre a possibilidade de que aquilo tudo tivesse ligação com o tráfico de drogas que há muito tempo proliferava no interior da universidade e, aproveitando a deixa, disse que em seu ponto de vista aquela era a hipótese mais provável, afinal, nunca havia visto uma geração de alunos tão envolvidos com entorpecentes, o que o fazia acreditar que o mundo estava realmente próximo do fim, como diziam os crentes.

Apesar de toda manha que ela empregou na voz e no olhar, ele se negou a atender ao seu pedido. Não naquela noite, pois desejava que fosse como sempre, no carro, em um lugar ermo, com o risco de ser descoberto, que era para deixar tudo mais excitante.

A visão da arma de cano brilhante pareceu fazê-la relaxar e a tensão no interior do automóvel azul escuro de bancos de couro claro diminuiu palpavelmente.

Ele, sem perder tempo, acariciou as coxas expostas fazendo-a sorrir de forma provocante. Quando ficava excitada, ela tinha um sorriso lascivo e pecaminoso.

Ele beijou-a na boca e ela retribuiu beijando-o com seus lábios quentes e cheirando à canela como nunca havia beijado antes. Talvez a pobre menina estivesse apaixonada por ele. Isso era bom, pois a entrega seria completa.

De forma ágil, ele puxou o corpo pequeno e magro colocando-o sobre seu colo e com um toque lento e cadenciado, começou a abrir os botões da camisa estampada de tecido fino até deixar à vista o sutiã rendado. Com a maestria de quem conhecia aquela arte há muito tempo, soltou os fechos da peça íntima libertando os seios firmes que pulsavam de desejo.

Com a ponta dos dedos, desenhou a curva volumosa que subia e descia impulsionada pela respiração acelerada enquanto que com a palma das mãos envolveu e pressionou o pescoço dela sentindo o sangue quente correndo pelas veias sob a pele fina.

Deu um meio sorriso ao perceber que os pelos da nuca dela se arrepiavam e com firmeza puxou-a para mais perto. Beijou o pescoço perfumado enquanto massageava com movimentos circulares e compassados os seios à mostra.

Ela arfava de prazer quando ele, ao afastar suas pernas bem torneadas, se deu conta de que ela não vestia nada sob a saia e, como na primeira vez em que ele havia estado com ela, introduziu seu dedo entre os lábios rosados e úmidos e os moveu lá dentro, sentindo a maciez de sua juventude sem tirar os olhos do rosto dela que se contorcia de prazer emitindo gemidos baixos.

Subitamente, a menina pareceu perder toda a timidez e deixando a passividade de lado voltou para o banco do carona e inclinou o corpo sobre o dele, deslizou suas mãos delicadas por sobre o abobem do homem mais velho, mas em plena forma física e num ímpeto, levantou sua camisa polo. Observou por alguns segundos o volume que havia se formado sob a calça jeans e estremeceu.

Sem se intimidar, abriu o botão da calça e expôs a boxer. Com uma das mãos afastou o pano branco e com a outra começou a massagear o membro rígido sob um olhar fascinado que aumentou ainda mais o desejo que ele sentia por ela.

Cheia de um desejo que ele ainda não conhecia, ela aproximou-o dos lábios e começou a acaricia-lo com a língua deslizando-a suavemente por toda a extensão de seu membro. Quando parecia que ele iria explodir de tanta vontade, ela colocou-o todo na boca intercalando movimentos constantes e ritmados.

O subir e descer fazia com que ondas de prazer se espalhassem por todo o seu corpo e sentindo que o climáx estava próximo, ele fechou os olhos abandonando-se ao prazer. Agora faltava pouco.

- Não para – pediu segurando a cabeça dela de encontro com sua virilha. Ela, então, aumentou a intensidade e a velocidade dos movimentos até que, quando percebeu que ele iria gozar, subitamente levantou-se e cravou a pequena adaga que trazia na mão sob o seu Pomo de Adão do professor.

Assustado, ele abriu os olhos e tentou gritar, mas sua garganta obstruída pelo sangue foi capaz de produzir apenas guinchos baixos e gorgolejantes que jamais seriam ouvidos naquele local deserto àquela hora avançada.

Percebendo que ele tentava se desvencilhar de seu corpo buscando alcançar a arma que estava no porta-luvas, a menina doce desferiu um forte golpe com o cabo da adaga no espaço entre os olhos do homem que agonizava fazendo-o desmaiar.

A respiração logo cessou e ela ficou ali por algum tempo, vendo o sangue que havia jorrado do pequeno buraco aberto na garganta exposta misturar-se ao líquido branco e viscoso que escorria do pênis agora flácido.

Estava feito.

Enquanto descia do carro, riu pensando em como aquilo era divertido e em como era fácil atrair suas vítimas. Aqueles pobres homens que tanto precisavam se sentir no comando nunca conseguiam enxergar nada ao seu redor, nem os sinais mais óbvios.

Bateu a porta atras de si e disse a si mesma que era hora de dar um tempo, não queria chamar atenção. Cinco corpos já eram suficientes para amenizar sua fome de matar, pelo menos por um ou dois anos.

Enquanto prendia o cabelo longo no coque perfeito no alto da cabeça, caminhou devagar atenta às nuvens pesadas que se juntavam no horizonte anunciando tempestade e imaginou como seria bom tomar um banho de chuva naquela noite quente.



(...)


Fernanda Rodrigues, 28 de janeiro de 2018.




terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Uma prece aos mortos - Final




"Voltou à vida já com a morte nele..."
E. Hemingway


Uma névoa pesada vinda dos charcos ao sul abraçou o mundo e um silêncio denso e opaco pairou sobre mim no momento em que descortinei o pano mortuário que cobria o corpo de Olívia. Senti que minha visão ficava turva e que desfalecia quando me deparei com seu rosto de donzela, lívido e úmido, emoldurado pelos cabelos que caiam em cachos volumosos e reluzentes ao seu redor.

Já não mais havia cor em suas faces e seus lábios, tomados pela avançada decomposição, retorciam-se em um medonho esgar exibindo o sorriso sereno de dentes brancos e perfeitos como marfim, como se rindo de mim.

Compreendi com total clareza que aquela que fora minha esposa, ainda que presa aos grilhões do além não me daria paz enquanto lhe fosse possível manter-me ao seu lado.

Olivia havia recebido meu nome e o título que o acompanhava e, como em uma transação comercial qualquer, havia devidamente pago por ele. Ela poderia ostentá-lo como desejara sua família, mas não se contentara com isso, ela queria mais.

Em vida, talvez por acreditar que o dinheiro de sua família tinha lhe comprado o direito a mim, a minha liberdade e minha afeição, havia desejado me aprisionar a uma existência para a qual eu não tinha qualquer aptidão e à qual eu sucumbira em razão da decadência financeira de minha família, o que seria para mim motivo de vergonha e eterna humilhação.

Pareceu-me que aquele ainda era o desejo de Olívia que em sua morte havia, enfim, despertado para a vida e foi com um terror extremo que ouvi, sem que a boca tomada pela rigidez cadavérica manifestasse o mais insignificante movimento, sua voz proferir a palavra acusadora que me perseguia desde o dia de sua morte. Assassino!  

Com minha dignidade derrotada e tendo como única testemunha a lua branca que rasgara as nuvens para contemplar minha desgraça, tomei em meus braços o corpo rígido de Olívia, cujo coração pareceu-me ainda pulsar e, com dificuldade, caminhei em direção ao casarão, pois estava decidido a não permitir que ela alcançasse seu vil intento.

A noite já ia avançada quando depositei o corpo no chão de meu escritório e sobre ele despejei todo absinto que encontrei em minha adega. Senti o cinismo vazio me consumir e o ódio me dominar e, dando ouvidos ao demônio que soprava suas palavras doces em meu ouvido, lancei uma pequena centelha de fogo subtraída da lareira.

Sentei-me em minha poltrona para observar com olhos inquietos o corpo de minha esposa morta unir-se ao seu espírito e ambos serem devorados pelo fogo. Acreditava que assim iria expurgar para sempre sua presença daquela casa e, sobretudo, da minha vida.

Enquanto sombras disformes dançavam ao meu redor numa ciranda demoníaca, o fogo consumiu a camisola branca de renda que cobria o corpo de Olivia e se espalhou apressado pelas tapeçarias antigas, pelos livros de capa de couro e pelos móveis de madeira até tocar o teto de ébano negro tornando-se em poucos minutos labaredas que consumiam tudo ao seu redor com a mesma voracidade com que eu havia consumido o ópio e o láudano em meus dias de loucura e medo.

Em algum momento, quando a casa já estava tomada pelo fogo, senti braços fortes me arrastarem para fora dali e me abandonarem no chão frio. Ouvi o tumulto de vozes que não reconheci e que gritavam com urgência tentando em vão salvar o casarão das chamas devoradoras.

Observei o fogo arder esticando seus dedos em direção ao céu e escondendo a lua atrás da fumaça densa e feia que subia em ondas assustadoras crepitando na noite sem estrelas.

Os criados da casa estavam no gramado e olhavam atônitos à ruína daquela casa que vinham servindo há gerações. Nos rostos sombrios e escurecidos pela fuligem e pela preocupação, não havia tristeza e era possível perceber algo que se assemelhava à admiração pelo espetáculo das chamas contra o negror da noite.

A casa ardeu durante toda aquela noite longa e calma de inverno e quando o amanhecer cinzento se insinuou no horizonte, ouvi alguém dizer: “Está acabado”. Aquelas poucas palavras me despertaram do transe que havia me acometido e sobressaltado compreendi que o único bem que me restara havia ardido em fogo até ser reduzido a um monte de entulho fumegante e que não me restava mais nada.

Naquele instante de lucidez, desabei de joelhos na terra molhada e chorei até que, como um eco que gradualmente declina até se desfazer no ar, perdi completamente os sentidos.

(...)

Louco!

É como me chamam agora os homens e eu, preso a essa cama, amordaçado, amarrado, privado de minha herança e de todos os aspectos de minha tão cara liberdade, ouço-os conversar sobre mim e sobre minha incapacidade mental como seu eu não estivesse presente.

Dizem eles que fui consumido pela loucura que brilha em meus olhos acometido pela dor da morte de Olívia, a quem acreditam que eu amava, afirmam que naquela noite em que tentei expurgar sua presença de minha vida para sempre tinha eu procurado me juntar a ela numa malfadada tentativa de suicido.  

Tolos!

Nada sabem sobre as visões perturbadoras que me perseguem ou sobre os sons melancólicos que entoam em meus ouvidos torturando-me com a lembrança acusadora. Não sentem o odor de sândalo que em mim penetrou de alguma forma para nunca mais me deixar e nenhum deles pode ver aquele sorriso doce e gentil que, desde o crepúsculo até as primeiras horas da manhã permanece ali imóvel, sempre no mesmo lugar, a me atormentar e a me acusar e a zombar dos grilhões que me atam a este quarto escuro.



fim.

- fefa rodrigues -
Janeiro/2019



segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Uma prece aos mortos - Parte III


"Os homens não se entregam aos anjos, nem à morte completamente..."
J. Glanvill 

Fui contaminado pela doença do medo e as asas negras do terror sobrevoaram meu coração e, embora meu discernimento tenha sido coberto pelas trevas, não havia de minha parte qualquer dúvida acerca do que eu havia presenciado naquele anoitecer em meu escritório e do significado daquela visão aterradora. 

Olivia voltara do hades para se vingar. Como uma alma mesquinha, deixara o descanso eterno para me impedir de herdar seu dote e assim me privar da liberdade que, como ela sabia, me era tão cara. Entretanto, apesar de minha certeza quanto a isso, não ousei dizê-lo a ninguém, pois temia que minha sanidade fosse questionada e que, eventualmente, aquilo pudesse afetar o recebimento de minha herança. 

No dia seguinte à primeira aparição de Olivia, tão logo o dia amanheceu, fui despertado de meu sono agitado pelo estrondo das janelas de meu quarto sendo abertas por mãos invisíveis e pelo vento vespertino que invadiu meus aposentos.

Temendo deparar-me novamente com aquele rosto marmóreo e aqueles olhos de serpente, permaneci com os olhos fechados e no mais completo silêncio, tremendo sob as cobertas. Não tardou a que meu quarto fosse tomado por murmúrios indistintos e para que eu sentisse um suspiro profundo em meu ouvido o que me fez gritar horrorizado, todavia, não fui atendido por qualquer dos criados que pareciam alheios ao meu sofrimento.

Ainda dominado pelo terror e pela angustia, permaneci imóvel até que o lugar ficou em total silêncio e tomei coragem para me levantar e buscar abrigo junto à companhia dos meus serviçais. 

Desde aquele dia, a presença de Olívia tornou-se cada vez mais distinta e assim como seu perfume onipresente, onde quer que eu fosse podia senti-la perto de mim e, como se todas as preces que haviam sido rezadas por sua alma não tivessem sido suficientes para lhe prover a paz eterna, nos dias que se seguiram à sua missa de sétimo, seu o espírito foi tomando forma até transforma-se em uma presença corpórea e constante.

Naqueles dias, recebi a visita de meu advogado que veio me colocar a par do andamento do processo em que se discutia meu direito ao dote de minha esposa tendo em vista seu falecimento ter se dado em menos de um ano de nossas bodas. 

Entretanto, meu entendimento encontrava-se de tal modo comprometido pelo uso contínuo do ópio, que sequer pude compreender uma palavra do que ele dizia e ele, percebendo minha triste condição e crendo que tal decadência era fruto de um coração que sofria a dor do amor perdido, pediu-me licença e comprometeu-se a retornar quando a minha situação fosse mais favorável.

Tentei dizer a ele que não existia amor, apenas ódio, mas de minha boca saíram apenas palavras desconexas e ele se despediu com um olhar condescendente que tornou minha humilhação ainda mais completa.

Meus dias e noites se tornaram inquietos e repletos de sons furtivos e movimentos difusos. A casa parecia estar sob o total domínio de Olivia que deixava sua presença óbvia ao fazer com que as cortinas se movessem sem o menor sinal de brisa no interior da casa ou que os objetos de uso diário desaparecessem para serem encontrados logo depois em lugares impossíveis. Enchia o ar com seus sussurros baixos e intensos ou com lufadas de vento em cômodos totalmente fechados. 

Manifestava-se nas sombras à contraluz que se moviam pelas paredes, ou no som de passos leves sobre o carpete e ao redor de meu leito a qualquer hora do dia ou da noite e, como se para provar que sua presença se fortalecia cada vez mais, certa manhã encontrei, sobre a mesa de meu escritório, uma folha de papel onde se lia a palavra assassino escrita mais de uma centena de vezes, numa caligrafia límpida e elegante que imitava a minha. 

Minha alma adoeceu tomada pela lembrança daqueles olhos baços e do som vago que havia me acusado e por aquela presença que me oprimiu de tal modo que eu já não podia dormir, assim como não podia comer ou beber enojado pelo aroma do sândalo que nada era capaz de expulsar. 

Em minha loucura, eu já não podia mais encarar aqueles olhos obsessivos que me seguiam por onde quer que eu fosse e dos quais nem mesmo o láudano ou o absinto podiam me proteger. As visões alucinantes de olhos inquietos e as vozes profanas me atormentavam com os sons que eu ouvia e que mais ninguém ouvia e com os movimentos que eu percebia e que mais ninguém percebia e tudo aquilo somado ao sempre presente aroma de sândalo, criaram em mim uma mescla de ansiedade e terror. 

No décimo quarto dia após o falecimento de Olivia, após uma alta dose de ópio, eu enfim dormia um sono leve quando fui despertado pela pressão de lábios gélidos sobre meus lábios no exato momento em que as sombras do fim do dia invadiram meu quarto e tocaram meu leito.

Aquilo me foi tão pavoroso que decidi deixar a casa imediatamente e para sempre, pois não suportaria passar sequer mais uma noite em companhia daquele espírito maligno que se apegara a mim como se fosse minha própria sombra e que insistia em me atormentar.

Levando comigo apenas as poucas joias que eu permitira a Olivia manter em nossa casa - um ou dois pares de brincos de pérolas, uma pequena corrente e um relicário de ouro que guardava minha imagem -, deixei o casarão sombrio e decadente sob uma forte tempestade.

O caminho para fora de minha propriedade encontrava-se em péssimo estado de conservação de modo que nem mesmo as fortes ancas do garanhão foram capazes de me conduzir pela estrada enlameada.

Atolados antes mesmo de deixarmos o terreno que pertencia à minha família, o cocheiro, temendo minha reação violenta, sugeriu que deixássemos a viagem até a cidade para o dia seguinte e eu, tomado pelo ódio, arranquei de suas mãos o chicote e pus-me a castigar com violência enlouquecida o lombo do cavalo que espumava pela boca, tentando com isso força-lo a seguir em frente. Exausto e sem qualquer sucesso, senti minhas pernas enfraquecerem e cai em meio à lama com a dignidade despedaçada e consciente de que teria que voltar para casa caminhando. 

Então deixei tudo para trás e iniciei o caminho de volta chafurdando meus pés no barro vermelho e encharcado pela chuva que caia sem trégua. O caminho foi difícil e exaustivo e quando estava há cerca de trezentos metros da casa, um forte clarão cortou o céu e iluminou o mundo e eu pude ver, de forma clara e indistinta, a forma de Olivia que do alto do torreão sul me observava. 

Crendo que ela, com o poder que é concedido aos entes sobrenaturais, havia conjurado aquela tempestade tão fora de época para me impedir de partir, foi possuído por uma ira demoníaca e tresloucado corri em direção ao cemitério de minha família onde me lancei sobre a terra ainda fofa que cobria o túmulo de minha esposa e com as mãos escavei até encontrar a madeira de seu caixão. 

Dos meus dedos em carne viva vertia sangue e a água vermelha escorria sobre a madeira branca enquanto eu lutava por abri-la e, quando enfim consegui erguer a tampa que mantinha o corpo de Olivia protegido e pude olhar para dentro de sua morada final, senti que minha visão ficava turva e que desfalecia.


(CONTINUA) 

PS: o próximo capítulo será o último.


sábado, 19 de janeiro de 2019

Uma prece aos mortos - Parte II


"Ela chegava e partia como uma sombra."
E. A. Poe

O aroma pungente do perfume de Olivia despertou-me com a intensidade de um aguaceiro. Levantei-me sobressaltado com a nítida sensação de que ela estava em meu quarto. 

Com o coração aos pulos, olhei ao redor esperando encontrá-la, mas não havia ninguém ali e fui obrigado a deixar o aposento ainda em mangas de camisa para não sufocar. 

Já no corredor, lutando para controlar a onda de náusea que aquele cheiro havia me provocado e arfando pela necessidade de ar puro, gritei chamando pelos criados e ordenei que lavassem tudo que havia ali, que esfregassem o chão, os móveis, as cortinas e que se necessário fosse colocassem a casa a baixo, mas que livrassem meu quarto daquela presença agourenta.

Após me recuperar do intenso mal-estar que o aroma de sândalo me provocara, preparei-me e segui para a missa de sétimo dia de minha esposa que teria lugar na catedral no centro da cidade. 

Confesso que derrubei uma ou duas lágrimas tocado pela beleza melancólica das mil velas que iluminavam a nave central da igreja ornamentada com lírios brancos que se espalhavam sob os olhares piedosos das dezenas de imagens de Santos e Santas. 

A cerimônia foi longa e cansativa e apesar de conhecer toda aquela ladainha repetida em coro que ecoava pela igreja, sem me importar se alguém notaria meu silêncio e sem qualquer remorso, dei-me o direito de não proferir prece alguma por aquela alma que parecia não ter pecados. 

Estava exausto e o único pensamento que ocupou a minha mente durante todo o ritual celebrado por vozes que pareciam vir do além para nos falar em uma língua morta há muito tempo, era deixar aquele lugar o mais rápido possível e ter minha vida despreocupada de volta. 

Finalizada a infinidade de cânticos, orações e homilias, recebi os cumprimentos dos presentes na porta da catedral, onde há tão pouco tempo nosso casamento havia sido celebrado. 

Ri-me imaginando que naquele dia eu não poderia imaginar que minha prisão duraria por tão pouco tempo, enquanto permaneci ali por um período que me pareceu eterno, em pé ao lado dos pais de Olívia que choravam sem qualquer pudor. 

Aquele tipo de demonstração pública de sentimentalismo era típica dos burgueses. Os novos ricos! Pessoas com muito dinheiro, mas sem qualquer classe, que compravam títulos por meio de casamentos arranjados acreditando que o dinheiro lhes faria parte da nobreza e, assim, enganavam-se a si mesmos, pois jamais alcançariam a elegância e o porte daqueles que nasciam com a nobreza está no sangue.

Sem suportar mais um minuto daquele teatro ridículo, me despedi sem dar explicações. Não iria participar da recepção preparada na casa dos pais de Olivia. Não suportava mais fingir tristeza quando tinha o coração radiante em júbilo por não mais depender da mísera mesada que recebia de meu pai e, especialmente, por estar livre daqueles laços que me prenderam sem nada significar para mim, mas que haviam pesavam sobre meus ombros como as correntes nas galés. 

Eu era um homem livre novamente. 

Livre e rico. Então, saí dali e segui diretamente para o melhor bordel da cidade onde desfrutei de tudo o que o dinheiro de Olívia podia me dar. Foram momentos de tão intenso prazer que acabei por me esquecer completamente daquela criatura pequena e sensível que fizera parte de minha vida.

Dias depois, quando voltei para casa a fim de me recuperar do excesso de álcool, láudano e mulheres, constatei, para meu total espanto, que o aroma de sândalo se tornara onipresente e ainda mais forte. 

Os criados juraram ter lavado tudo conforme eu havia ordenado, entretanto, cada canto da casa estava embebido no cheiro doce e enjoativo que, como pude perceber apesar de ninguém admitir, apenas eu podia sentir.

Conforme transcorreu o dia, me dei conta de que cheiro do sândalo impregnava não apenas meu olfato, mas também meu paladar, maculando a comida, a água e até mesmo o vinho trazido do mais profundo de minha adega. 

Não pude comer nada, pois aquele cheiro que agora se tornara uma presença havia tomado tudo e, não obstante a irritação que toda aquela situação me causara, outra questão se apresentou a mim logo após o almoço intocado. 

Fui informado de que, por razões que meu advogado não soube esclarecer, os bens que eu havia herdado com a morte de Olivia ainda não tinham sido transferidos para meu nome, o que me exasperou profundamente. 

Mortificado pela raiva, compreendi imediatamente o nefasto significado daquilo: mais uma vez eu teria que adiar a retomada de minha liberdade. 

Era necessário garantir que minha herança estivesse assegurada, pois, além de não dispor de recursos para manter aquela vida desregrada, temia que os pais de minha falecida esposa, em sua sovinice, estivessem tramando me privar daquilo que era meu por direito.

Eu precisava estar de posse de todas as minhas faculdades mentais para não ser enganado, então, ordenei aos criados que me preparasse um banho, um café forte e me trouxessem o contrato pré-nupcial e todos os documentos referentes aos bens de Olivia para que eu pudesse estuda-los com cuidado e atenção.

Sentei-me em meu escritório decidido a não dormir até que tivesse revisado todos aqueles papéis que se acumularam sobre minha mesa em uma pilha homérica, porém, a fome somada ao maldito cheiro de sândalo entorpeciam meus sentidos, então, apesar do frio invernal, resolvi abrir as janelas a fim de permitir ao ar circular. 

Lá fora, o luar lambia a campina que se estendia até as colinas distantes. A noite clara e o terreno plano permita-me ver longe. Por alguns momentos contemplei a vastidão, sentindo o ar puro e frio da noite de inverno encher meus pulmões revigorando meus sentidos.

Em dado momento, percebi uma pequena mancha branca e disforme ao longe. A distância não me permitia distingui-la, mas eu podia notar que ela se movia, como se inflada pelo vento. 

Esfreguei os olhos para desembaçar a vista e quando os abri novamente a mancha branca tinha se transformado em uma forma que ia se tornando cada vez mais completa e definida à medida que se aproximava. 

Meu coração batia pesado, como se pressentindo o perigo, porém, minhas pernas não obedeciam à ordem de afastar-me dali. O ar da noite tornou-se mais gélido e o vento que me banhava uivou e trouxe consigo um suspiro suave e indistinto que resvalou em meu rosto e sussurrou “assassino”.

Tomado pelo mais completo horror, bati com força as janelas no exato momento em que a mancha branca chocou-se de encontro ao vidro e pude ver cara-a-acara os olhos que já não eram doces e gentis, mas que haviam se transformado em olhos de cobra que me olhavam sem piscar até os lábios abriam-se em um sorriso cruel e zombeteiro. 

Mal aquele demônio me lançou seu olhar de trevas, desmaiei. 

Fui encontrado pelos criados apenas na manhã seguinte, tiritando de frio e delirando em febre enquanto os papéis e documentos que eu não chegara a analisar ardiam no que restara do fogo da noite anterior que crepitava na lareira e lentamente extinguia-se.


(CONTINUA)