terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Poeta Maldito




No cômodo frio encimado sobre o antigo prédio no centro da cidade cinza, à luz incerta de pequenas velas que se espalham aleatórias pelo chão, sombras sensuais e enigmáticas dançam nos cantos escuros enquanto em meio às garrafas vazias um jovem tomado pela loucura e pela dor rabisca versos que evocam a morte.

Há tempos ele já não mais anseia pela imortalidade que apenas as palavras podem conceder.

Desde a noite de sua perdição, quando tendo como única companheira uma garrafa de vinho da qual bebera insaciáveis e longos goles e colocara-se a vagar em meio à legião de anjos piedosos que habitavam o bosque de mármore, já não era possível dizer que vivia.

Naquela noite, enquanto caminhava a esmo, clamava aos espíritos que porventura habitassem aquele labirinto de solidão por ser acometido pela loucura que transformava homens em poetas e que fazia brotar, em meio à melancolia da vida, as palavras que se imortalizavam em versos.

Com passos trôpegos e a consciência diluída pelo álcool, vagou em meio aos esquifes até que, exausto e certo de que suas preces jamais seriam ouvidas, aconchegou-se entre uma grinalda de lírios murchos que desvaneciam pousados cuidadosamente sobre um pequeno túmulo e ali pôs-se a observar o vasto domo repleto de estrelas que perfuravam o manto negro da noite até ser dominado por um sono febril.

Foi despertado de seus delírios por um movimento difuso que revelou em meio à névoa gélida e onipresente a imagem de uma bela jovem inteiramente vestida de renda negra, com os cabelos escuros e encaracolados derramando-se como uma cascata por sobre seus ombros até alcançar a cintura fina, as mãos cruzadas e pousadas em frente ao corpo e os lábios intensamente vermelhos.

Um anjo de beleza imortal. Uma ninfa esculpida em alva carrara. A guardiã do descanso eterno que àquela hora o observava com um interesse velado e cuja sua beleza indescritível, quase inacreditável daquele rosto tão pálido quando o luar, o fez estremecer temendo acordar e perder para sempre aquela visão.

Arfando pela emoção e hipnotizado pelos movimentos fluidos daquela figura etérea, o jovem em êxtase a viu aproximar-se dele com passos firmes e indomáveis que não temiam a desolação ao seu redor e, em seu estupor, nada mais pode fazer além de observava-la sem sequer questionar a realidade daquilo, completamente perdido naquele momento de contemplação.

Quando ela estava tão próxima que lhe era possível sentir o frio que emanava do corpo branco, todo seu ser foi tomado por um êxtase de adoração e ele soube que naquele momento entregaria de bom grado sua alma imortal àqueles olhos completamente negros que o encaravam qual poços profundos que continham a imensidão da morte, a fúria da eternidade e que faiscavam como as chamas do inferno.

Aterrorizado por aquela visão que unia pavor e beleza enlouquecedora, tentou se afastar. Quis fugir, porém, estava tão profundamente impressionado pela beleza impossível daquele ser angelical que sequer podia se mexer, então, ela sorriu e sua expressão era devastadora.

Com seus dedos longos e tão frios quanto a solidão da morte, ela tocou suavemente o rosto do rapaz fazendo seu coração disparar. Acariciou seu pescoço sentindo a pulsação de seu sangue nas veias, tocou seus lábios e a pálpebra sobre seus olhos, e aquele toque o encheu de paz.

Subitamente, ela lançou-se em sua direção e beijou sua boca de uma forma ardente e lasciva que ele sequer podia imaginar ser possível. O jovem desfrutou daquele beijo num misto de horror e excitação até ser tomado por uma dor lancinante.

Ela, então, se afastou com delicadeza para que ele pudesse ver o profundo corte em seu peito de onde o sangue jorrava quente e viscoso e, pouco antes de perder completamente a consciência, viu o lindo anjo, que agora exibia grandes assas negras, devorar o pedaço de carne ensanguentado que era seu coração e que ainda pulsava naquelas mãos brancas como se nunca tivesse sido arrancado de seu peito.

Acordou em sua cama, suando em louca agonia e sentindo que sua vida e seu coração já não lhe pertenciam e, desde então, passava os dias a delirar e as noites a escrever versos em que clamava ao belo e solitário Anjo da Morte que viesse busca-lo.

Suas poesias eram lidas pelos poucos amigos que, preocupados com seu estado de espírito, visitavam a água-furtada onde ele vivia e, depois, espalhavam aqueles versos repletos de loucura e adoração pela pálida mulher entre os jovens de seu tempo que viam naquelas palavras o mais sublime expoente do romantismo de seus dias.

Foi assim que, entre versos e poesias, o pobre rapaz deixou sua vida esvair-se e ser consumida pela ânsia de encontrar novamente aquela a quem sua alma adorava e, enlouquecido de amor, em meio aos suores e à febre que se alimentavam de seu corpo e de sua mente, e sentindo que a dor em seu peito estava prestes a emudecer, pronunciou as mais sublimes palavras, dizendo:

Oh! Quão infeliz sou! Dediquei meus pobres dias à sina doida de um amor sem fruto, e minh’alma na treva agora dorme, como um olhar que a morte envolve em luto (1).

E assim, sob o olhar pesaroso de seus poucos companheiros, o jovem promissor, que fora poeta, que havia sonhado e amado durante sua curta vida, sucumbiu ao Anjo da Morte para, à sombra da cruz, descansar em paz.



[1] Trecho de “Adeus meus sonhos”, Álvares de Azevedo.




Nota: Conto escrito em homenagem e referência a um dos meus poetas preferidos, Álvares de Azevedo.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A distância dos teus olhos




Um sorriso que não chegou aos olhos e a distância do seu olhar são as últimas lembranças que levo comigo. Quando eu disse adeus você não acreditou, mas era verdade, e a verdade sempre encontra um caminho até nós. Você disse que fugir é covardia, mas o que mais me resta a não ser fugir desta realidade que me consome? Esta realidade que sou eu e que você nunca desejou. Nós nos enganamos e agora esse é o preço que devemos pagar. Vai doer em você mais do que em mim, mas vai passar. Sempre passa. Em algum momento você começará a me conjugar no passado e, quando menos perceber, será somente lá que continuarei existindo para você.

Apesar de tudo e apesar da culpa ser apenas sua, não deixe que ela te corroa, não é o que eu desejo.

Agora, tudo será como antes.

Ninguém irá me ouvir.

Ninguém irá me ver.

Eu continuarei falando sozinha e você continuará a não me responder.

- fefa rodrigues -


...



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Excitação



O aroma característico que pairava pelo lugar envolveu-o assim que ele abriu a porta revelando o cômodo escuro. Com as mãos trêmulas pela ansiedade ligou a luminária mais próxima, um feixe de luz branca traçou uma linha reta até o chão, mas o ambiente permaneceu na semiescuridão.

A pouca iluminação não o impediu de adivinhar as formas arredondadas que se projetavam sob o lençol há poucos metros dali, provocando em seu corpo os primeiros sinais de desejo.

Trancou a porta atrás de si e aproximou-se com calma. Por algum tempo apenas observou a beleza das curvas ainda escondidas, sentindo a respiração acelerada.

Com delicadeza, puxou o lençol que deslizou preguiçosamente revelando a pele morena e nua que o aguardava e que naquela noite estava ali apenas para o seu deleite, sem culpa ou medo.

Respeitosamente ele a tocou pela primeira vez e ela manteve-se inerte e silenciosa como ele gostava que fosse, então, ele sorveu o odor adocicado e inebriante que emanava dela e que sempre fazia seu coração bater com mais força.

As pontas de seus dedos percorreram cada palmo do corpo esbelto detendo-se por alguns minutos nos joelhos. Ali ele acariciou as pequenas cicatrizes que se destacavam formando desenhos esbranquiçados na pele cor de caramelo e que deviam estar ali desde que ela era apenas uma criança.

Aquele tipo de detalhe o deixava ainda mais excitado.

Com carinho, beijou as pálpebras dos olhos de gata e os cabelos macios e encaracolados. A boca vermelha entreaberta parecia chamá-lo e ele a beijou com paixão e generosidade.

Saboreou seu abdome e mordiscou as pontas dos seios pequenos e entumecidos.

Acariciou as coxas firmes e, tomado por um sentimento que se assemelhava à veneração, afastou com delicada determinação as pernas abrindo caminho enquanto seu corpo vibrava de prazer ao vencer a rigidez típica da primeira vez, revelando assim o sexo coberto por uma penugem rala e escura e aquela visão o enlouqueceu de desejo.

Despiu-se com urgência e a possuiu com vigor e vontade até ser dominado pelo prazer.

Esgotado, deitou-se ao lado da bela moça sentindo um frio intenso e, por alguns instantes, deixou-se levar pela tranquilidade que sempre o invadia depois de terminado aquele ritual que ele adorava.

Gostaria de poder ficar ali por mais tempo, sentindo o cheiro que emanava dela e o toque frio de sua pele, mas não podia, ainda havia muito trabalho esperando por ele naquela noite, então se levantou, vestiu-se e deu um último beijo nos lábios que agora já perdiam o viso e o tom avermelhado antes de cobri-la novamente com o lençol imaculadamente branco.

Caminhou até o pequeno armário de metal e de lá retirou uma etiqueta branca onde anotou nome, sexo, idade aproximada e causa da morte e o prendeu ao pé da moça.

Antes de voltar ao trabalho, olhou mais uma vez para as curvas do corpo agora totalmente coberto e, sentindo a excitação invadi-lo novamente, apagou as luzes e deixou a câmara refrigerada para trás.

- fefa rodrigues - 



segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Bailarina




Bailarina


“Essa menina, tão pequenina, quer ser bailarina...”
Cecília Meireles



Prostrada ela observa a ponta das sapatilhas de cetim cor-de-rosa desgastadas pelos anos de uso. Dor e solidão são suas únicas companheiras. Ela está exausta após uma vida dedicada àquela coreografia, porém, aqueles momentos em que as luzes brilham e se refletem sobre ela são os únicos em que ela se sente viva. Já faz algum tempo que ela não se apresenta. Um leve tremor percorre seu corpo e a ansiedade a domina como naqueles instantes que antecedem o espetáculo. O tule do saiote tem pequenas manchas e já perdeu muito do esplendor de seus primeiros dias nos palcos quando tantas garotinhas desejavam vê-la e sonhavam em ser como ela enquanto sorrindo observavam atentas seus movimentos graciosos, tentando repeti-los desajeitadamente. Ela evita olhar para o espelho às suas costas, teme identificar outros pequenos defeitos em sua aparência, algo que faça com que aquela seja a última apresentação. Ela sente que o seu fim está próximo e tem medo que isso aconteça. Enfim, ela sente o movimento que precede seu momento de glória. É como se o mundo todo se elevasse ao mesmo tempo. Ouve o ranger metálico das cordas sendo giradas, vê o céu sobre sua cabeça se abrir e a luz invade cada canto do seu pequeno mundo. Olhos curiosos a veem pela primeira vez. Ela se levanta com graça e inicia sua apresentação ao som doce de Debussy. A princípio as crianças a observam com um misto de interesse e curiosidade e ela se sente feliz, mas logo perdem o interesse por aqueles movimentos fluidos que não entendem. O céu sobre sua cabeça se fecha com um estalido inesperado, sem que ela ao menos tivesse terminado, a escuridão outra vez toma conta de seu mundo. A pequena bailarina é trancafiada na pequena caixa de música outra vez, condenada a esperar. 

Porém, desta vez a espera será para sempre.      



- fefa rodrigues - 




Uma vez eu li num livro...


domingo, 2 de dezembro de 2018

FOME



Sentada em sua cama sobre o lençol surrado, ela sentia nos ossos o frio brutal que dominava o pequeno quarto. A luz mortiça que entrava pelas frestas da janela fechada há muitos dias iluminava as minúsculas partículas de poeira que dançavam no ar hipnotizando-a até que um rangido baixo e constante vindo de longe foi aumentando de intensidade até atingi-la como um golpe, tirando-a do transe.

Olhou para o lado e viu o corpo pequeno e frágil estendido ao seu lado na cama. Não compreendeu de imediato o que aquela criança fazia em seu quarto ou como tinha ido parar ali e demorou vários minutos para se dar conta de que a criatura pequena e indefesa era seu filho.

Não se lembrava de qual era o nome havia escolhido para ele, não sabia sequer quem era o pai do bebê. Havia tido tantos homens nos últimos tempos. No começo, se deitava com aqueles que podiam lhe pagar nos quartos sujos das espeluncas que infestavam aquele canto esquecido do mundo, com o tempo, porém, passou a fazer qualquer coisa, em qualquer lugar, por qualquer trocado que lhe permitisse saciar seu vício mesmo que por alguns poucos minutos, até perder qualquer respeito por si mesma e por seu corpo.

Vivia tão completamente entorpecida que não percebeu que estava grávida até ser surpreendida pelas primeiras dores. Estava em meio a um programa, num beco qualquer. O homem se assustou quando ela caiu no chão gemendo e temendo que ela estivesse tendo uma overdose e que acabasse morrendo em sua companhia, fugiu dali a deixando para trás.

Ao menos teve a decência de ligar para o socorro.

Contrariando todas as probabilidades, o parto foi tranquilo e a criança nasceu saudável. Quando ela viu aqueles olhinhos pela primeira vez, decidiu que mudaria de vida e não aceitou entregar o filho para o Conselho Tutelar.

Os funcionários da maternidade compraram roupinhas, fraldas e os artigos de primeira necessidade para o bebê e ela voltou para seu quartinho disposta a fazer tudo pelo bem de seu filho.

Não tinha ideia do quanto seria difícil para alguém como ela encontrar um caminho que a levasse para longe daquela vida e, depois de algumas semanas repletas de frustração e medo, voltou a se prostituir, pois não havia outro meio de arranjar dinheiro e ela precisava se alimentar para poder matar a fome do filho.

Nas primeiras noites se manteve fiel à sua promessa e usou todo o dinheiro que ganhou para se alimentar. Mas logo a dureza daquela vida lhe pesou demais.

Ela precisava escapar da realidade por alguns minutos. Não era por ela que faria aquilo, era pelo bebê, era para poder continuar com aquilo até conseguir coisa melhor. Seria apenas um tapa, a quantia necessária para ela se desligar por alguns minutos do nojo que sentia de si mesma após o dia de trabalho.

Não sabia dizer por quanto tempo tinha estado longe em seu devaneio. O bebê devia estar com fome, então ela pegou-o nos braços e aproximou-o dos seios flácidos. A criança não esboçou reação. O corpinho frio e inerte não produziu som algum.

A densa escuridão ao seu redor não permitia que ela o visse com clareza, então ela aproximou-o mais de seus olhos. Só então percebeu que de seu rostinho grandes nacos de carne haviam sido arrancados.

Tomada pelo desespero, lançou o corpo sobre a cama e acendeu as luzes a tempo de ver uma enorme ratazana se esgueirando rápida pelo chão em direção ao seu ninho, levando na boca um pedaço de carne vermelha e sangrenta para alimentar suas crias.

(...)

Nota: no final de 2017, eu trabalhava no hospital público da minha cidade quando recebemos a tradicional visita do Papai Noel que entregava enxovais para as crianças recém-nascidas na maternidade. Enquanto acompanhava a entrega dos enxovais, em meio às fotos e alegria que aquela presença sempre traz, paramos ao lado do leito de uma mulher muito magra e pálida, como fazíamos com todas as outras mães, perguntamos qual era o nome da sua pequena filha encolhida no bercinho ao lado da cama e ela respondeu apenas "não tem nome". Aquilo me marcou muito e até hoje eu penso naquela criança.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A Menina que amava almas





As últimas luzes se derramam devagar enquanto o dia se despede preguiçosamente do céu que àquela hora se veste com as cores alaranjadas do fim da tarde.
Sob o olhar piedoso de anjos de mármore branco que choram a eternidade da saudade, uma menina caminha.
Seu corpo languido denúncia certa indolência. O quadril magro e cheio de inocência infantil balança ao som baixo de uma cantiga murmurada como uma prece em homenagem ao vento frio que dança em meio aos seus cabelos bagunçados.
Sombras alongadas projetam-se como garras envolvendo as muitas lápides que se espalham ao redor e protegendo os espíritos que poderão, com a proximidade da noite, vagar outra vez pelo mundo dos vivos.
A menina de pés descalços, vestido puído e olhos iluminados teme por aqueles que estão aprisionados pela solidão da morte e lhe dói pensar que, após rompido o fio de prata, resta-lhes apenas silêncio e esquecimento.

Ela caminha com seus passos leves de passarinho sem medo ou hesitação em direção ao interior da necrópole.
A pouca luz do crepúsculo não a impede de chegar aos belos mausoléus das famílias abastadas que ficam no centro de tudo, famílias que podem pagar para que seus entes queridos jamais se sintam esquecidos.
Ela aproxima-se dos túmulos sempre bem cuidados que ostentam montes sem fim de flores, muito além do que seus habitantes poderiam desejar e talvez em maior quantidade do que receberam em vida.

Ela enlaça em seus braços um grande ramalhete e passa a depositar, sobre os túmulos esquecidos, as flores que já fenecem e sorri sabendo que as almas que a acompanham naquele ritual que se repete todo entardecer agradam-se dela.

E isso lhe enche de paz.

- fefa rodrigues -


(...)

Escrevi esse miniconto em homenagem à minha mãe que, quando criança, tinha o costume de passear pelo cemitério e colher flores junto aos túmulos ricos para distribuir entre os túmulos pobres. Simples, mas escrito com o coração!!!

sábado, 10 de novembro de 2018

Espelho Antigo



Espelho Antigo

"Tornai-me a aparecer entes imaginários, que me encheis outrora os olhos visionários! Poder-vos-ei fixar?... Tenho ainda coração capaz de se render à vossa sedução?"
Goethe

Helena sempre fora uma menina calada, tinha a pele pálida de lírio silvestre e um quê de desemparo em suas feições acentuado por olhos que exibiam a melancólica certeza de quem sabe não pertencer a este mundo.
Passava os dias andando sozinha pelo casarão absorta em suas lembranças e em longas conversas consigo mesma. Algumas vezes, perdia-se por horas observando pela janela o mundo lá fora, desejando ver de perto aquilo que apenas a sua alma conhecia.
Gostava das noites perfumadas quando o chão do jardim ficava coberto por centenas de pequenas flores amarelas que a chuva, após se derramar durante todo o dia, fazia cair das árvores bem cuidadas que margeavam a casa, formando um tapete acolchoado sobre o gramado verde.
Noites em que o aroma refrescante das laranjeiras e da terra molhada se espalhava pelo ar repleto pela cacofonia de dezenas de grilos que saudavam a chegada do anoitecer que se estendia como um sudário negro sobre a cidade distante.
Mas aquela não seria uma noite assim.
Postada em frente ao grande espelho que adornava desde sempre o belo salão no interior do palacete, Helena sentia seu coração coberto pelas trevas, assim eram os cômodos vazios daquela construção repleta de cantos escuros sempre dominados pelas sombras que mesmo nos dias mais ensolarados permaneciam aprisionadas entre suas paredes opressivas.
Quando o vento frio uivava lá fora chorando sua canção lúgubre, ela sabia o que esperar.
Como em tantas outras noites como aquela, o espelho antigo lhe mostraria um rosto como se fosse seu reflexo, mas que, apesar de já ter se passado uma eternidade sem que ela pudesse ver-se a si mesma e mesmo que a lembrança de seus olhos há muito tempo houvesse se dissipado em sua memória como o nevoeiro ao amanhecer, ela sabia não ser seu.
Um rosto desconhecido como aquele que ela contemplava naquele momento. Um rosto triste que revelava uma alma partida pelo sofrimento e consumida pela dor, de onde emanava desespero, desilusão e desesperança e cujos olhos eram dominados por uma loucura feita de silêncio e solidão capaz de impregnar a carne e os ossos.
Helena observava aquele rosto sem forças para desviar seus olhos como se estivesse presa àquela visão por uma maldição que pesava sobre sua alma desde o dia em que, confundida como que por uma ilusão, também acreditara na falsa promessa de uma solução permanente para suas dores passageiras e se convencera de que o fim enfim lhe traria a paz que tanto desejava.
Ela podia sentir o quanto aquela imagem que a observava do outro lado do espelho sem vê-la realmente ansiava por se libertar das absurdas certezas que a invadiam com tanta força e que rodopiavam em sua mente em círculos infinitos e aquilo lhe doía e machucava tanto quanto uma dor física.
Conhecia tão bem aquele desespero e sabia que não havia como lutar contra a febre que domina os pensamentos e que depois de invadirem a mente pela primeira vez permanecem sempre lá se repetindo e se repetindo incessantemente como vozes que nunca se calam. 
Um dia ela também havia tentado em vão fugir da blasfêmia que gritava em sua mente com aqueles mesmos laivos agudos que vinham do outro lado do espelho para atormentá-la em sua existência eterna e ressoavam por todos os cômodos da mansão vazia até se desfazerem no ar.
Angustiada pela certeza do que viria a seguir, ela continuava presa àquele rosto vazio que já fora belo. Impotente e com lágrimas escorrendo mais uma vez por sua face ela tentou gritar para que o reflexo parasse, mas o som de sua voz morreu antes mesmo de alcançar sua garganta e ela viu os olhos castanhos que se fechavam enquanto no pulso liso e branco a lâmina fria traçava a linha de onde o sangue vermelho brotou.
Uma paz gelada absorveu o rosto do outro lado do espelho e aquela imagem a confundiu a ponto de tornar impossível a ela distinguir entre sonho e realidade até que não sabia mais dizer se aquela deitada sobre a poça de sangue que se espalhava pelo chão era apenas o reflexo de alguém ou dela mesma.

(...)

Do lado de fora da mansão que outrora fora o orgulho da cidade, mas que após a chegada de dezenas de prédios modernos que agora dominavam a paisagem acabara renegada ao ostracismo arquitetônico até ser reduzida a ruínas, uma garotinha puxa a manga da camisa da mãe tentando ganhar sua atenção.
A mulher, porém, está ocupada demais em sua conversa para perder tempo com bobagens.
Chateada, a menina se aproxima dos portões carcomidos pela ferrugem que cercam o casarão. 
Ela sente o aroma do ar perfumado após o dia de chuva. Há flores amarelas espalhadas pelo chão e aquilo parece combinar perfeitamente com o abandono e a tristeza do emaranhado de árvores e arbustos que formam aquele jardim esquecido pelo tempo e pelos homens.
O cenário todo a fascina.
Ela observa as paredes desgastadas, a tinta desbotada, a madeira apodrecida das portas e os vitrais quebrados aqui e ali, porém é capaz de sentir a beleza dolorida que emana daquela decadência.
Cada detalhe parece lhe contar uma história e ela olha tudo com atenção e interesse até que vê, em uma das janelas, uma moça pálida que contempla o céu perdida em seus pensamentos. 
Hipnotizada por aquela visão, a garotinha não desvia os olhos até que a moça parece sentir seu olhar e se volta em sua direção. 
A menina então acena e, para sua surpresa, a moça lhe acena de volta.

(...)




sexta-feira, 2 de novembro de 2018

USTRA




“A injustiça que se faz a um é a ameaça que se faz a todos.”
Montesquieu



Recostado na desconfortável cadeira giratória que rangia sob seu peso, ele tentava disfarçar a inquietude que o consumia movendo-se de um lado para o outro enquanto observava as pequenas nuvens de fumaça que saiam de suas narinas se perderem no ar abafado do entardecer que engolia a capital cor de chumbo. 

Sentia o fedor do seu próprio suor grudado em sua pele e em suas roupas depois do calor sufocante que havia dominado o dia e que em breve seria varrido pela garoa fina que se aproximava prometendo algum alivio. 

Exausto, seu corpo cobrava o preço das longas horas sem dormir e da enorme quantidade de café ingerido. O estalar sincopado e constante das teclas da máquina de escrever mais próxima tilintava em seus ouvidos embalando uma forte sonolência que ameaçava embaralhar seu raciocínio.

Massageou as têmporas com a ponta dos dedos tentando conter o pico de ansiedade febril que se aproximava. Estava acordado há mais de quarenta e oito horas e seus olhos vidrados ardiam como quando se mergulha na água salgada do mar, porém ele sabia que não podia se dar ao luxo de dormir. Não enquanto o trabalho não estivesse terminado. 

Pensou em sua pequena filha que àquela hora já estaria dormindo, aquecida e protegida em sua cama e sorriu. Gostaria de poder passar mais tempo com aquela menina doce de olhos calmos, cheia de perguntas e surpresas, mas o trabalho ocupava todo o seu dia e não raramente as noites também. 

Sempre buscava se redimir de sua constante ausência com presentes e regalias para mãe e filha, contudo, o que realmente o deixava em paz era saber que todo aquele sacrifício era feito pelo bem de seu país e, acima de tudo, para proteger sua família da ameaça que se avizinhava há anos. 

Muita gente não compreendia ou sequer tinha consciência de que havia uma guerra sendo travava. Uma guerra velada e não declarada, porém, igualmente destrutiva, e na qual ele era um dos soldados na linha de frente. Pensar naquilo fez um arrepio frio percorrer seu corpo desfazendo por completo a imagem pacífica.

Levantou-se tentando afastar o sono e caminhou até a janela escancarada buscando fugir do ar viciado que pairava por todo o ambiente como um fantasma. Ficou ali por alguns minutos sentindo no rosto o vento que soprava suave, inspirando o aroma doce do fim de tarde e observando o crepúsculo devorar a Rua Tutóia que, àquela hora, ganhava um aspecto ainda mais perturbador. 

Com um estalar de dedos, lançou para cima a bituca do cigarro ainda acessa, observou a ponta vermelha descrever uma acrobacia convexa no ar e se inflamar enquanto rodopiava percorrendo o curto trajeto até o chão, fazendo-o pensar nos olhos injetados do homem na sala do segundo andar do prédio dos fundos. 

Fora recrutado para aquele trabalho há mais de quatro anos e apesar de entender a importância que os delatores tinham para a defesa do regime, ainda se enojava quando a denúncia vinha de um parente ou de alguém próximo ao denunciado, como tinha acontecido naquele caso. 

Apenas uma ligação havia sido suficiente para que o apartamento fosse invadido e lá estavam todas as provas. Livros e mais livros. Literatura subversiva. Marx, Hegel, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Monteiro Lobato... 

Mas, para ele, pior do que aqueles livros doutrinadores eram as revistas encontradas aos montes por todos os cantos. As imagens repugnantes retratadas nas páginas que os agentes e policiais mostravam uns aos outros de forma despudorada e que expunham o sexo de forma invertida e contrária à natureza tinham lhe causado asco e provado que o morador daquele lugar, além de comunista, era um pervertido. 

Com os olhos atônitos, tentando esconder o medo que lhe borrava as feições e embotava os olhos, o homem sequer tentou se explicar. Ele sabia que não havia como justificar aquilo, então aceitou seu destino deixando o prédio com as mãos atadas às costas e sob os olhares acusadores dos vizinhos, cheio de uma dignidade que nem sempre era vista. 

Aquela prisão havia sido anunciada como uma grande operação e uma vitória importante na luta contra aqueles que desejavam instituir uma ditadura vermelha no país, entretanto, passadas quarenta e oito horas, ele começava a ter dúvidas de que aquele homem de corpo franzino e alma alquebrada realmente representasse algum risco para a segurança nacional, pois ou o pobre diabo nada sabia ou, mesmo sendo claramente afeminado, era o cara mais resistente que já tinha passado por suas mãos.  

Percebendo a natureza sensível do prisioneiro, ele havia decidido começar os procedimentos levando-o para o que costumavam chamar ironicamente de “passeio”, crendo que talvez aquilo fosse suficiente para fazê-lo falar sem que lhe fosse necessário sujar as mãos.

Ao adentrarem na sala onde uma luz pálida e vacilante iluminava o corpo nu e destroçado de uma mulher que jazia em meio à urina, fezes e sangue, com os bicos dos seios arrancados, a pele branca coberta por hematomas verde-arroxeados e as pernas abertas em uma posição impossível, exibindo parte de uma ratazana enorme e cinzenta que pendia de sua vagina como se a tivessem surpreendido dando à luz a um ser grotesco, o homem entrou em choque e teve que ser carregado para sua cela inconsciente. 

Depois daquela tentativa frustrada, ele seguiu todo o protocolo estabelecido pela cartilha da OBAN para as operações do DOI-CODI, pondo em pratica as técnicas que sempre faziam até os mais fortes e tenazes falar em meio a gritos de dor e suplicas por clemencia.

Porém, mesmo após horas sendo submetido ao ritual bizarro no qual as perguntas eram repetidas incessantemente e, ante a ausência de respostas satisfatórias dedos eram esmagados, unhas arrancadas com alicates, articulações moídas a golpes de martelos e, até mesmo, um fio elétrico era introduzido no pênis do interrogado e choques eram aplicados até que se perdesse o controlo de todas as funções de seu corpo, o homem não dera qualquer informação.

Passadas as primeiras horas sem resultados, o jogo parecia agora virar-se contra ele e o tempo se tornara seu maior inimigo. Ele precisava conseguir algo antes que a vida escapasse daquele corpo que não poderia resistir por muito mais tempo, deixando-o sem nada. Se o prisioneiro morresse sem lhe dar qualquer informação, ele estaria em maus lençóis. 

Tinha recebido a missão diretamente do Doutor Tibiriça e falhar não era uma opção. Temia as consequências que decepcionar aquele homem de testa alta, cabelos ralos e farda alinhada, com os olhos sempre escondidos atrás de óculos escuros, tornando impossível àqueles ao seu redor saberem para qual direção ele olhava, causando em todos a estranha e desconfortável sensação de estarem sempre sendo vigiados, poderia acarretar. 

Mesmo para ele, o medo constante era tão natural quanto o ato de respirar e agora que a possibilidade de falhar parecia perto de se concretizar, seus sentidos começavam a ficar entorpecidos pela ansiedade, o coração batia forte ecoando em seus ouvidos, a boca estava seca e ele podia ouvir o sangue correndo em suas veias. 

Se ao menos o homem tivesse família ou amigos próximos, alguém por quem temesse ou a quem amasse acima de sua ideologia estéril, essa pessoa poderia ser usada para forçá-lo a falar. 

Aquele era um recurso usado somente em casos extremos, mas que nunca havia falhado, porém, as informações constantes do relatório policial do prisioneiro diziam que ele vivia sozinho naquele apartamento, mantendo contato esporádico apenas com a enfermeira que ministrava suas injeções semanais e que era a pessoa que o havia delatado. 

Concentrou-se em busca de uma resposta que parecia ecoar vinda de algum lugar no fundo de sua mente. Ele tinha a nítida impressão de que havia algo ele estava deixando escapar, um detalhe que faria a diferença. 

Então, subitamente, lembrou-se de algo que havia percebido quando estivera no apartamento. Rezou para que ainda estivessem lá e discou para a central exigindo um carro com urgência. 

Aquele seria um golpe desesperado, mas necessário.

(...)

O homem olhava para a massa amorfa que eram agora os dedos de sua mão totalmente destruídos e lágrimas escorriam por sua face. Não era só a dor física que as fazia brotar, era sobretudo a dor de saber que jamais voltaria a pintar um quadro novamente. Talvez sequer conseguisse ficar em pé outra vez.

A dor era tão completa e intensa que só percebeu que a fome também lhe corroía quando a porta se abriu e ele sentiu o aroma invadindo a cela de azulejos brancos e encardidos pelas centenas de manchas de sangue que os haviam tingido nos últimos anos.

Só então se deu conta de que não comia desde que seu apartamento fora invadido pela polícia política. Ele não sabia precisar quanto tempo havia se passado desde que tinha sido levado para aquele lugar que chamavam de sucursal do inferno, onde o ar cheirava à medo e morte, e cujo apelido estava longe de expressar o verdadeiro terror que ali se via.

O homem que antes havia sido seu carrasco entrou trazendo uma grande panela. O prisioneiro observou o caldo espesso e fumegante guarnecido por grandes nacos de carne arroxeada ser despejado em um prato fundo que lhe foi servido em seguida. O cheiro fez sua boca salivar e ele pode sentir o gosto ferroso do sangue que emanava abundantemente dos buracos em sua boca onde antes havia dentes. 

Sentiu uma fisgada forte na costela quando estendeu o braço moído para pegar a refeição, uma das muitas fraturas que se espalhavam por seu corpo, e pôde ouvir o borborigmo do próprio estomago.

Após toda a brutalidade a que seu corpo havia sido submetido, aquele gesto parecia inacreditavelmente gentil. Ele sorveu o caldo com vontade, sem sequer sentir a dor aquilo provocava e assim que terminou estendeu o prato implorando por mais. 

A sopa foi novamente servida com generosidade. A carne que boiava em meio ao liquido gorduroso era dura e sem sabor, todavia, a fome que o dominava tornava aquela refeição a mais saborosa que ele já havia provado em sua vida. 

Quando se sentiu satisfeito, agradeceu acreditando que talvez aquilo fosse sinal de que tinham compreendido que ele nada sabia sobre planos terroristas e guerrilhas, pois ele não passava de um artista plástico sem qualquer interesse por política. 

Não negava que as revistas encontradas em sua casa eram suas, mas os livros não. Tinham sido de sua mãe, uma professora que sempre fora apaixonada por leitura e que havia morrido há muito tempo, deixando aqueles volumes que ele guardava como uma lembrança sem jamais imaginar que pudessem fazer mal a alguém.

- Nós não somos monstros, amigo – começou dizendo com a voz rouca pela falta de sono e excesso de cigarros, enquanto tirava o prato vazio das mãos do homem que voltava a tremer – Estamos aqui para fazer nosso trabalho, apenas isso. Não pensou que deixaríamos você morrer de fome, não é?

O pouco que restava do homem destruído permaneceu em silêncio.

- Imagino que agora que você foi alimentado, deve estar pronto para falar, certo? – perguntou com calma.

- Mas eu juro que não sei de nada - o prisioneiro choramingou ao sentir toda a esperança se despedaçar e continuou em meio aos soluços desesperados -, não tenho nada a ver com guerrilhas ou terroristas... eu nem gosto de política, não me envolvo... sou neutro... eu juro pela alma de minha mãe, aqueles livros não são nada, pode levá-los, pode queimá-los, faça o que quiser com eles, mas por favor, me deixe ir...

Ele respirou fundo antes de recomeçar, precisava manter o foco, aquela era sua última jogada e tinha que ser um xeque-mate.

- Quando estivemos na sua casa, percebi que você tem um belo casal de poodles, não é mesmo? – Questionou de forma retórica, articulando bem as palavras. 

- Sim, meus pequeninos... Dino e Lola... – respondeu o prisioneiro se dando conta de que era possível sentir ainda mais medo. 

- Pois bem, saiba você acabou de matar a sua fome comendo a carne do pobre Dino... se não quer que Lola seja servida no almoço de amanhã, é melhor começar a falar... 

- Não, não... isso não é possível, nem vocês seriam capazes de tanta crueldade – o homem dizia balançando a cabeça com violência.

O agente então se levantou e foi até a porta, puxou para dentro da cela uma caixa de papelão de onde tirou a cabeça de um poodle, o pelo antes alvo era agora um emaranhado vermelho, e atirou-a aos pés do homem que, ao compreender o significado daquela visão horripilante, uivou em desespero antes de seu coração simplesmente parar.  

(...)

Ele jamais se recuperou do fracasso daquela noite. Após o incidente, passou a ser conhecido à boca miúda como “o moça”, por não ter tido culhões para fazer uma bixa falar. 

Com o tempo, surgiram boatos de que ele tinha boicotado o interrogatório daquele líder dissidente a fim de proteger a identidade de uma militante com quem tivera um relacionamento amoroso e, por mais que não houvesse qualquer razão para que as pessoas acreditassem naquilo, o boato acabou por se tornar verdade.

Não demorou a que os colegas de farda começassem a evitá-lo. Por mais que se esforçasse, não conseguiu convencer aquelas pessoas que o conheciam há tanto tempo e tão bem, de que sempre havia sido fiel ao regime e que tinha ido até as últimas consequências para cumprir a missão que lhe fora confiada. 

Quando, por fim, cansado de todo aquele falatório aventou a possibilidade de que o Coronel talvez estivesse errado quanto ao envolvimento do prisioneiro com a guerrilha, acabou sendo transferido para um departamento burocrático esquecido em algum canto da periferia paulista.  

Desde então passou a acordar durante a madrugada para conferir se as portas estavam bem trancadas, pegava-se olhando por cima do ombro o tempo todo e sentia como se algo ou alguém o acompanhasse por toda parte. 

Não dormia. Não comia. Não vivia.

Certa noite, no final de 1973, quando ele caminhava para casa após mais um dia de serviço maçante, um Lincoln preto e lustroso estacionou ao seu lado, o vidro da porta traseira foi abaixado e lá estavam os olhos escondidos atrás dos óculos escuros a observá-lo.

Reconheceu imediatamente aquele homem pacato e enigmático que dirigia o DOI-CODI com mãos de ferro e que mantinha a voz calma mesmo quando instruía os gorilas sobre os métodos mais eficientes de fazer os prisioneiros falar e que fez sinal para que ele se aproximasse.
Sentindo o sangue gelar diante daquele sorriso tranquilo, tentou se convencer de que não havia nada a temer invocando a promessa de que o cidadão de bem nada tinha a temer.

Não lhe fariam nada de mau. Não havia qualquer motivo para tanto. 
Um pouco mais calmo, ele se aproximou do carro rezando para conseguir controlar a bexiga e não se mijar todo na frente do Coronel.

(...)

O agente Alberto Mascarenhas, um dos mais graduados membros do DOI-CODI da capital paulista, foi dado como desaparecido no dia 3 de dezembro de 1973. Os principais jornais noticiaram o possível sequestro informando que o crime ocorrera nas imediações da Avenida do Estado, quando o agente voltava para casa no inicio da noite.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Nacional, o Coronel Ustra esclareceu aos milhões de cidadãos que assistiam temerosos às noticias veiculadas pela mais confiável emissora de TV do país que os indícios apontavam de forma clara para um grupo terrorista como autores daquele crime bárbaro. 

Afirmou, ainda, que o ato fora impetrado em represália ao ressente desmantelamento de uma perigosa rede de militantes comunistas após a prisão de seu líder, um obscuro artista plástico que acabara por se suicidar nas dependências de 36º delegacia de polícia da capital.

Elogiou o trabalho que vinha sendo desenvolvido com eficácia pelo departamento no combate à ameaça vermelha que jamais deixava de rondar o país e, por fim, comprometeu-se de forma categórica a não permitir que polícia e exército descansassem até que aquele crime que fora praticado não só contra o agente Mascarenhas, mas contra a própria instituição policial do Estado, fosse solucionado e os culpados encarcerados e submetidos aos rigores da lei.

O corpo do agente Alberto Mascarenhas, entretanto, nunca foi encontrado.


- fefa rodrigues -


(...)

Nota: Conto escrito para a 5º edição do Concurso Literário de Terror e Suspense do recanto das Letras, com o tema Ditadura.



quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Mais um dia cinza



Minha cabeça dói. Esse ponto que lateja em cima do meu olho direito me cega parcialmente. Sinto algo pegajoso como a raiva crescer dentro de mim. Não sei de onde isso vem e tenho medo do que possa se tornar. Quero gritar para expulsar toda essa miséria que habita em mim, mas na verdade não quero que me ouçam. Quero silenciar o mundo, porém ele continua zunindo ao meu redor. Cada pequeno som ecoando dentro dos meus ouvidos e se intensificando até o infinito. Meu corpo está gelado, mas minhas mãos estão suando. Há suor em minha nuca, meu cabelo está molhado. Começo a correr. Tento fugir. Eu sempre tento fugir disso que está impregnado em mim, mesmo sabendo há muito tempo que não há pra onde ir. Por mais que eu tente me esconder, ainda está aqui. A chuva começa a cair novamente. A chuva sempre vem. É uma presença constante e a umidade de mais um dia cinza penetra em minha alma me fazendo entender que não há para onde fugir. 

Isso nunca vai me deixar. 

(...)


- fefa rodrigues -

domingo, 21 de outubro de 2018

Ex-libris





Na fria noite de 10 de maio de 1933, as ruas de Berlim foram feridas por uma procissão de centenas de estudantes que, vestidos com seus uniformes cerimoniais e ostentando os emblemas de suas federações presos ao peito na altura do coração, marcharam à frente do busto vandalizado e decapitado de Magnus Hrischeld.

Naquela noite, eu era um daqueles muitos jovens de tez branca e andar firme que caminhavam em perfeita ordem, a passos sincronizados e com orgulho e lágrimas nos olhos, ao lado de membros da SS, da SA e da Stahlheim, e confesso que em toda minha vida jamais senti tamanha emoção.

Com nossos olhos iluminados apenas pelo fogo das tochas que trazíamos em nossas mãos e que iriam alimentar as chamas da enorme pira que arderia na Opernplatz, para dali se estender por toda a Alemanha, vimos chegar os carros de bois que se moviam pesadamente arrastando ao patíbulo os livros condenados que naquela noite seriam queimados na cerimonia que daria inicio à purificação da cultura alemã.

Enquanto observávamos os primeiros livros arderem, me lembrei de quando li pela primeira vez um dos cartazes que nos convocavam para aquela noite dizendo “Hoje os escritores, manhã os professores”.

Naquele primeiro momento, aquelas palavras me causaram certa estranheza e mal estar, me levando a questionar qual era seu real significado, entretanto, depois de algum tempo, a presença constante daquelas palavras em minha vida me levaram a uma epifania e compreendi que, apesar de soarem como uma ameaça, nós éramos e sempre seríamos um povo civilizado, governados por uma constituição e por leis, não uma nação de bárbaros degenerados como eram os russos, portanto, nós jamais queimaríamos pessoas.

Apesar disso, era preciso entender e aceitar que nosso idioma, aquele que carregava nossa alma, vinha sendo maculado há tanto tempo pela literatura degenerada de judeus, socialdemocratas, bolcheviques e pacifistas sem que nos déssemos conta que agora, quando nossa língua mãe clamava por ser libertada, era preciso que aceitássemos e agíssemos sem questionamentos ou duvidas.
Tal necessidade justificava aquele tipo de frases de efeito que precisavam ser ditas, ainda que seu único objetivo fosse incutir na mente dos jovens alemães que a purga era essencial, ainda que soubéssemos que no fundo soubéssemos que não eram verdadeiras, pois nós éramos o futuro da Alemanha.

Nós não podíamos mais permitir que aquele bordel literário continuasse a semear a imundície que contaminava tantos bons alemães. Era nosso dever sagrado nos tornarmos o bastião das tradições do nosso povo e fazer frente àqueles que incessantemente atentavam contra o espírito alemão, mesmo que aquilo significasse o uso de frases como aquela ou a cena de barbárie cultural que estávamos prestes a realizar.

O inimigo do povo alemão, aquela minoria de estrangeiros que havia se infiltrado entre nós através dos séculos e que como os vermes que devoram em silêncio as carnes de um cadáver, havia disseminado seus valores imorais e suas ideias deturpadas entre nós. Enfim tinha chegado o momento de fazê-los se adequar ou desaparecer.

Foi assim que, acima de tudo pela Alemanha, as fogueiras iluminaram aquela noite fria sob o olhar atônito de mais de quarenta mil berlinenses que observavam a tudo com um misto de medo e fascínio e no mais profundo silêncio quebrado somente pelos estalos do fogo que devorava os pensamentos contidos nas linhas de todos aqueles livros e pela voz frágil de Goebbels profetizando que a partir daquele momento e graças a nossa coragem “as fundações intelectuais da República de Novembro vão por terra, mas de seus entulhos nascerá um novo espírito triunfante como a Fênix”.

Ao observar aquelas palavras profanas se transformando em cinzas que seriam levadas pelos ventos do esquecimento até se perderem totalmente no infinito da história, compreendi que se vencêssemos nossos inimigos no campo das ideias, seria muito mais fácil vencê-los no campo de batalha por isso aquele ritual era tão importante.

E, sob a luz tênue dos archotes, enquanto lançávamos ao fogo todos aqueles livros malditos, a insanidade febril nos dominou e juramos sem perceber que, em nome da pureza do Reich e da grandeza da Alemanha, aceitaríamos até mesmo queimar pessoas...


- fefa rodrigues -


(.....)

Nota Histórica: No dia 10 de maio de 1933, onde hoje fica a Bebelplatz, na época conhecida como Opernplatz, ocorreu a maior e mais famosa queima de livros da história. Estudantes das universidades de Berlim, contaminados pela loucura nazista, queimaram milhares de livros de autores considerados indesejáveis por serem judeus, comunistas, socialistas, pacifistas ou por simplesmente discordarem do regime. Esse acontecimento é desde então um símbolo da opressão e do totalitarismo, questão bem-vinda a ser relembrada nos nossos dias.

Livros sim, armas não.
#elenão
#haddadsim

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A Aberração da Luz



Quando aquela menina ainda tão pequena apontou pela primeira vez seu telescópio para o céu noturno e as centenas de milhares de quilômetros que a separavam de todo aquele espetáculo de luz e beleza foram reduzidos pela magia de uma simples lente de vidro, seus pequeninos olhos puderam enfim sondar os segredos do céu e o destino do universo.

Em êxtase, a menina vislumbrou a lua linda e distante, se admirou com suas crateras e distinguiu as sombras que se projetavam naquela superfície pálida.

Com lágrimas a embaçar-lhe os olhos, contemplou Júpiter e seu séquito de luas, se maravilhou com as fases de Vênus e de Mercúrio e se emocionou com os deslumbrantes anéis de Saturno.

E naquele instante, quando o insondável se revelou simples e nu e ela, em sua inocência, contemplou tudo aquilo que antes lhe parecia inalcançável, toda a beleza do mundo invadiu seu corpo, sua mente e sua alma... 

A pequena menina então se apaixonou pelo infinito e pelo eterno e desde aquele dia nada mais na Terra lhe bastou... 

- fefa rodrigues -



(...)

Esse texto simples e escrito sem grandes pretensões foi inspirado na lembrança da primeira vez em que eu observei o céu através de um telescópio e também no livro Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan, que foi indicação do meu amigo mais que especial, Jota Alves que me ensinou, dentre outras coisas, a gostar de ficção científica. 




sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Apelo




Há uma pelo em de mim, uma voz que grita por liberdade, que me impulsiona para longe e que parece me fazer lembrar de algo que vive dentro de mim, mas que está há muito tempo esquecido. 

Há uma saudade em meu peito, que canta com a sua voz suave e me chama, que me seduz suavemente com suas promessas indizíveis e que me arrasta como numa maré sutil de pensamentos e sonhos. 

Há um querer que me consome e que me faz olhar para o céu noturno e me leva a desejar o infinito e a ansiar pela imensidão.

Há em mim um assombro, um encantamento que me atrai e que talvez, como o canto de uma sereia, acabe por ser minha perdição. 

- fefa rodrigues -