domingo, 21 de outubro de 2018

Ex-libris





Na fria noite de 10 de maio de 1933, as ruas de Berlim foram feridas por uma procissão de centenas de estudantes que, vestidos com seus uniformes cerimoniais e ostentando os emblemas de suas federações presos ao peito na altura do coração, marcharam à frente do busto vandalizado e decapitado de Magnus Hrischeld.

Naquela noite, eu era um daqueles muitos jovens de tez branca e andar firme que caminhavam em perfeita ordem, a passos sincronizados e com orgulho e lágrimas nos olhos, ao lado de membros da SS, da SA e da Stahlheim, e confesso que em toda minha vida jamais senti tamanha emoção.

Com nossos olhos iluminados apenas pelo fogo das tochas que trazíamos em nossas mãos e que iriam alimentar as chamas da enorme pira que arderia na Opernplatz, para dali se estender por toda a Alemanha, vimos chegar os carros de bois que se moviam pesadamente arrastando ao patíbulo os livros condenados que naquela noite seriam queimados na cerimonia que daria inicio à purificação da cultura alemã.

Enquanto observávamos os primeiros livros arderem, me lembrei de quando li pela primeira vez um dos cartazes que nos convocavam para aquela noite dizendo “Hoje os escritores, manhã os professores”.

Naquele primeiro momento, aquelas palavras me causaram certa estranheza e mal estar, me levando a questionar qual era seu real significado, entretanto, depois de algum tempo, a presença constante daquelas palavras em minha vida me levaram a uma epifania e compreendi que, apesar de soarem como uma ameaça, nós éramos e sempre seríamos um povo civilizado, governados por uma constituição e por leis, não uma nação de bárbaros degenerados como eram os russos, portanto, nós jamais queimaríamos pessoas.

Apesar disso, era preciso entender e aceitar que nosso idioma, aquele que carregava nossa alma, vinha sendo maculado há tanto tempo pela literatura degenerada de judeus, socialdemocratas, bolcheviques e pacifistas sem que nos déssemos conta que agora, quando nossa língua mãe clamava por ser libertada, era preciso que aceitássemos e agíssemos sem questionamentos ou duvidas.
Tal necessidade justificava aquele tipo de frases de efeito que precisavam ser ditas, ainda que seu único objetivo fosse incutir na mente dos jovens alemães que a purga era essencial, ainda que soubéssemos que no fundo soubéssemos que não eram verdadeiras, pois nós éramos o futuro da Alemanha.

Nós não podíamos mais permitir que aquele bordel literário continuasse a semear a imundície que contaminava tantos bons alemães. Era nosso dever sagrado nos tornarmos o bastião das tradições do nosso povo e fazer frente àqueles que incessantemente atentavam contra o espírito alemão, mesmo que aquilo significasse o uso de frases como aquela ou a cena de barbárie cultural que estávamos prestes a realizar.

O inimigo do povo alemão, aquela minoria de estrangeiros que havia se infiltrado entre nós através dos séculos e que como os vermes que devoram em silêncio as carnes de um cadáver, havia disseminado seus valores imorais e suas ideias deturpadas entre nós. Enfim tinha chegado o momento de fazê-los se adequar ou desaparecer.

Foi assim que, acima de tudo pela Alemanha, as fogueiras iluminaram aquela noite fria sob o olhar atônito de mais de quarenta mil berlinenses que observavam a tudo com um misto de medo e fascínio e no mais profundo silêncio quebrado somente pelos estalos do fogo que devorava os pensamentos contidos nas linhas de todos aqueles livros e pela voz frágil de Goebbels profetizando que a partir daquele momento e graças a nossa coragem “as fundações intelectuais da República de Novembro vão por terra, mas de seus entulhos nascerá um novo espírito triunfante como a Fênix”.

Ao observar aquelas palavras profanas se transformando em cinzas que seriam levadas pelos ventos do esquecimento até se perderem totalmente no infinito da história, compreendi que se vencêssemos nossos inimigos no campo das ideias, seria muito mais fácil vencê-los no campo de batalha por isso aquele ritual era tão importante.

E, sob a luz tênue dos archotes, enquanto lançávamos ao fogo todos aqueles livros malditos, a insanidade febril nos dominou e juramos sem perceber que, em nome da pureza do Reich e da grandeza da Alemanha, aceitaríamos até mesmo queimar pessoas...


- fefa rodrigues -


(.....)

Nota Histórica: No dia 10 de maio de 1933, onde hoje fica a Bebelplatz, na época conhecida como Opernplatz, ocorreu a maior e mais famosa queima de livros da história. Estudantes das universidades de Berlim, contaminados pela loucura nazista, queimaram milhares de livros de autores considerados indesejáveis por serem judeus, comunistas, socialistas, pacifistas ou por simplesmente discordarem do regime. Esse acontecimento é desde então um símbolo da opressão e do totalitarismo, questão bem-vinda a ser relembrada nos nossos dias.

Livros sim, armas não.
#elenão
#haddadsim

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A Aberração da Luz

Quando aquela menina ainda tão pequena apontou pela primeira vez seu telescópio para o céu noturno e as centenas de milhares de quilômetros que a separavam de todo aquele espetáculo de luz e beleza foram reduzidos pela magia de uma simples lente de vidro, seus pequeninos olhos puderam enfim sondar os segredos do céu e o destino do universo.

Em êxtase, a menina vislumbrou a lua linda e distante, se admirou com suas crateras e distinguiu as sombras que se projetavam naquela superfície pálida.

Com lágrimas a embaçar-lhe os olhos, contemplou Júpiter e seu séquito de luas, se maravilhou com as fases de Vênus e de Mercúrio e se emocionou com os deslumbrantes anéis de Saturno.

E naquele instante, quando o insondável se revelou simples e nu e ela, em sua inocência, contemplou tudo aquilo que antes lhe parecia inalcançável, toda a beleza do mundo invadiu seu corpo, sua mente e sua alma... 

A pequena menina então se apaixonou pelo infinito e pelo eterno e desde aquele dia nada mais na Terra lhe bastou... 

- fefa rodrigues -



(...)

Esse texto simples e escrito sem grandes pretensões foi inspirado na lembrança da primeira vez em que eu observei o céu através de um telescópio e também no livro Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan, que foi indicação do meu amigo mais que especial, Jota Alves que me ensinou, dentre outras coisas, a gostar de ficção científica. 




sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Apelo




Há uma pelo em de mim, uma voz que grita por liberdade, que me impulsiona para longe e que parece me fazer lembrar de algo que vive dentro de mim, mas que está há muito tempo esquecido. 

Há uma saudade em meu peito, que canta com a sua voz suave e me chama, que me seduz suavemente com suas promessas indizíveis e que me arrasta como numa maré sutil de pensamentos e sonhos. 

Há um querer que me consome e que me faz olhar para o céu noturno e me leva a desejar o infinito e a ansiar pela imensidão.

Há em mim um assombro, um encantamento que me atrai e que talvez, como o canto de uma sereia, acabe por ser minha perdição. 

- fefa rodrigues -




Não Olhe!




“Não olhe!” – Digo para mim mesma, tentando desviar os olhos daquele reflexo que não reconheço e que me observa de volta, revelando-me uma realidade entorpecida.

“Não olhe!” – Insisto, me esforçando inutilmente para olhar para outro lado, para fugir daquela figura maligna, sombria e zombeteira que me olha e que sem mover os lábios sussurra em meu ouvido que tudo não passa de uma ilusão.

“Não olhe!” – Luto comigo mesma, mas as palavras que me foram segredadas instigam em mim um tipo de loucura que se mistura, ao meu sangue e impregna meus ossos como se fosse parte da minha própria carne. 

“Não olhe!” – Grito tentando expulsar os pensamentos estranhos que me invadem à força e que rodopiam em minha mente em círculos infinitos.

“Não olhe!” – Fecho os olhos, pois não quero mais ver, mas os pensamentos continuam lá, como vozes blasfemas e mesmo quando pressiono as mãos em meus ouvidos tentando silenciá-las, elas gritam tão alto que ressoam por todos os cômodos da casa vazia até se dissiparem no ar.

Abro os olhos e penso em como escondi de todos a loucura que sempre me dominou em silêncio e em solidão, então me dou conta de que ela continua lá, a me olhar sem qualquer expressão, mas já não está presa ao espelho, está em pé ao meu lado, silenciosa e imóvel, me observando com olhos que nunca piscam, nem se fecham, e nós duas continuamos nos olhando até que já não posso distinguir entre sonho e realidade e não sei dizer se aquela deitada sobre a poça de sangue que se espalha pelo chão sou eu ou ela.  

- fefa rodrigues -


Prelúdio do Mal




Uma criatura foi parida em meio à tragédia e à loucura, em meio à fúria e à violência.

Uma criatura sem alma, com ares de messias e que se transveste de profeta.

Um monstros que se alimenta do medo que incute nos corações incautos.

Ele é algo entre fantasma e demônio. Um ser grotesco. Explorador do caos.

Com seu discurso mentiroso aprofunda os limites da insanidade e da demência coletiva.

Com suas bravatas esconde sua luxuria e sua fome por guerra e sangue. Seu deus é o mercado e a única lei que conhece é a lei do mais forte.

Ele promete uma tempestade de horror que fomenta a fragilidade emocional de seus seguidores e suas pífias e egoísticas ambições de homens medíocres.

Ele é a justificativa dos meios em busca de um fim.

Ele é o fim de tudo que é belo e bom e justo.

- fefa rodrigues - 

#elenão
#elenunca
#elejamais



Apenas mais um sorriso


Suas costas se chocaram contra a parede gelada e, enquanto seu corpo descia em direção ao chão, seus cabelos molhados formaram um rastro no azulejo frio. Permaneceu ali por vários minutos, observando a água que lavava seu corpo e levava suas lágrimas escoando pelo ralo. Desejava que com a água e as lágrimas fosse embora também a dor que dominava seu peito. Há muito tempo ela sabia qual era a única maneira de se livrar daquela dor, porém, como em tantas outras questões de sua vida, ela nunca teria coragem para tomar a decisão final. Então, sabendo que tudo continuaria como sempre fora, levantou-se, vestiu seu mais lindo sorriso, aquele que combinava perfeitamente com o par de louboutins que havia comprado naquela mesma tarde, e saiu para jantar com os amigos.

- fefa rodrigues -




terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quem é você?

Eu sou ausência

E sou saudades.

Sou completa

E sou vazia.

Sou a busca por algo

Que não sei encontrar.

Sou o desejo de liberdade

Presa ao emaranhado da vida.

Sou tristeza 

Sou dor

E sou pranto.

Sou abismo e escuridão.

Sou o que ninguém pode ver.

Sou feita de mil pedaços

Que não se encaixam,

E de todas as matérias 

Que não se unem.

Feminismo por quê?

Talvez o que vou dizer cause mais polêmica do que o pretendido, mas tenho pensando muito sobre a importância do feminismo. Vejo que muita gente combate a ideia de feminismo usando aquele trecho da Bíblia que diz “mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor” (Efésios 5:22), mas parece que se esquecem do complemento ““Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25).

Diante disso, tenho me perguntando, porque, afinal de contas, fez com que as mulheres precisassem do feminismo e conclui que, se os homens fossem tudo aquilo que podem ser e tudo aquele que lhes cabe ser, nunca precisaríamos do feminismo.

Sim, se os homens amassem em vez de usar, respeitassem em vez de constranger, cuidassem em vez de agredir, protegessem em vez de expor, enfim, se os homens amassem as mulheres como é seu dever segundo a Bíblia, o feminismo nunca teria sido necessário. 

Se as mulheres não precisassem ter medo de andar na rua a noite, se não tivéssemos que mudar de caminho sempre que vemos um grupinho de homens reunidos, se não nos sentíssemos constrangidas ao passar pelas ruas e ouvir cantadas de gosto duvidoso, se tivéssemos a tranquilidade de saber que não seremos menosprezadas por que podemos engravidar, se nossas opiniões não fossem taxadas de “TPM” ou de “falta de homem”, se a gravidez fosse vista por todos os homens como a benção que é, se nenhuma mulher fosse obrigada a educar um filho sozinha, porque foi abandonada... Se não precisássemos enfrentar todos esses medos todos os dias, também não precisaríamos do feminismo. 

Nós mulheres amamos nossos homens, maridos, pais, irmãos, amigos... Em nenhum momento gostaríamos de deixar de tê-los em nossas vidas, reconhecemos a importância de cada um deles e das coisas que representam, mas, infelizmente no decorrer da história, as mulheres foram obrigadas a aprender a se defender daqueles que, de acordo com a Bíblia, deveriam cuidar de nós.  

Eu sinto muito orgulho por ver tantos amigos e se manifestando contra qualquer forma de opressão às mulheres e têm repudiado todo comportamento e manifestação machista. 

Tenho certeza de que juntos, homens e mulheres, construiremos um mundo no qual o feminismo não será mais necessário!! 

Imagine

Imagine nós dois
Sentados na praia
Num final de tarde,
Rindo de algo bobo.

Imagine nós dois
Trocando beijos e carícias
E sorrindo porque a vida 
Pode ser poesia.

Imagine nós dois
Deitados lado-a-lado
Confessando nossos segredos
Sem medo e sem culpa.

Imagine nós dois
Entre suspiros e sussurros
Numa dança transcendente
Até que meus olhos se fechem.

Apenas por um momento
Imagine isso tudo
Então, saberei que posso imaginar
Um sorriso em tua boca. 

Amor em todos os sentidos

O desejo é sempre urgente, 
Mas para o amor acontecer 
É preciso paciência.

Para o amor acontecer 
Eu preciso sentir seu toque leve em meu pescoço, 
E as pontas de seus dedos dançando em círculos delicados 
Por toda a extensão das minhas costas.

Para o amor acontecer 
É preciso que seus lábios sintam o gosto cálido dos meus lábios 
E que sua língua desfrute do sabor adocicado
De toda a minha pele.

Para o amor realmente acontecer, 
Seus olhos precisam observar as curvas do meu corpo; 
E seu olhar tem que confessar que você me deseja 
Com teu corpo e com tua alma.

Para o amor acontecer 
Eu preciso ouvir sua voz sussurrando em meu ouvido 
Me dizendo que não devo me preocupar 
Pois tudo ficará bem.

Então, para que o amor enfim aconteça
Nós dois precisamos inspirar o aroma
Que somente a proximidade 
De dois corpos que se desejam é capaz de exalar. 

E assim, ainda que o desejo tenha pressa, 
O amor irá acontecer 
Em todos os sentidos.

sábado, 15 de setembro de 2018

O Túmulo do Soldado Desconhecido


O Túmulo do Soldado Desconhecido

O sino da pequena igreja acabara de repicar anunciando a chegada do meio-dia quando o som estridente das metralhadoras nos fez olhar para o céu azul pálido que acabara de ser invadido por aviões da RAF e da Luftwaffe.

Máquinas voadoras que mais pareciam monstros prateados e que maculavam a beleza do infinito com sua dança da morte.

Por algumas horas, assistimos a uma ferrenha batalha aérea, até que os ingleses satisfeitos decidiram voltar para casa.

Apesar de alguns de seus aviões terem sido batidos, eles haviam sido superiores no ar, porém o nosso chão ainda pertencia aos alemães.

Ao redor de nossa pequena vila, os campos estavam repletos de destroços de Stukas e de Gloster Gladiators que agora se uniam num emaranhado fumegante. Dali ecoavam os gritos de dor de um pobre piloto inglês que durante toda a noite implorou por misericórdia, enquanto seu corpo mutilado permanecia preso à ferragem de seu avião.

Por medo de sermos taxados de membros da resistência ou de simpatizantes dos aliados, nada fizemos e quando o silêncio enfim anunciou sua morte e o fim de sua agonia, um novo o dia já havia chegado.

Os alemães o colocaram numa cova rasa e, com os restos da hélice de seu avião, improvisaram uma cruz para marcar o local.

Os moradores de nossa pequena vila passaram a deixar flores naquele túmulo desconhecido, mas quando elas começaram a acumular tornando aquele pequeno monte de terra um ícone de esperança, os alemães nos proibiram de continuar com aquilo.

A maioria de nós tinha alguém no front. Pais, irmãos, filhos, namorados... Talvez isso tenha nos levado a desrespeitar as ordens alemãs e continuamos a levar flores para o soldado desconhecido, como se aquele pequeno ato de rebeldia nos desse esperança, então, todos os dias um soldado alemão vinha até ali e as levava embora.

Poucos meses depois os aliados desembarcaram na Normandia e não demorou a sermos libertos, mas até hoje o túmulo do soldado desconhecido permanece lá e à sua volta, um belo jardim se formou.



- fefa rodrigues -

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Menção Honrosa

Olá a todos.

Meu conto "Londres, 10 de maio de 1945" recebeu Menção Honrosa no Concurso Literário que comemora a 76º Semana Paulo Setúbal, que homenageia o escritor membro da Academia Brasileira de Letras nascido em minha cidade, Tatuí, interior de São Paulo.




Foram mais de 300 participantes e eu consegui o 4º lugar, o que me deixou muito feliz já que foi a minha primeira participação em um concurso do tipo!!!

Convido a todos para lerem o conto e gostaria muito de receber opiniões sobre ele.

Abraços;

fefa rodrigues





Londres, 10 de maio de 1941.


Na noite de 10 de maio de 1941, enquanto a morte se aproximava sorrateira, Londres descansava sob um céu estrelado e iluminado pela lua cheia. Uma noite perfeita para casais enamorados passearem de mãos dadas pelo Tâmisa, mas nem mesmo a beleza daquela noite era capaz de libertar nossos corações da melancolia que nos dominava, afinal, apesar da Inglaterra ter se mantido em pé naqueles quase dois anos em que a guerra se arrastava a verdade é que, desde a queda da França, sua principal aliada, e seu atual colaboracionismo, nós estávamos sozinhos naquela luta e agora o exercito inglês era forçado a recuar na África enquanto outras partes da Europa Ocidental se dobravam sob o jugo nazista.

A Alemanha parecia realmente invencível.

Nós nos esforçávamos para manter o moral elevado, repetíamos o discurso de Churchill prometendo lutar nas praias, nos campos e nas cidades e oferecer nosso sangue, suor e lágrimas para garantir a sobrevivência de nossa pátria e de todo o mundo livre, contudo sabíamos que sem a Rússia e os Estados Unidos ao nosso lado não tínhamos muitas chances de conter o avanço nazista. Apesar disso, estávamos todos decididos a morrer lutando.

Entardecia quando as sirenes tocaram anunciando a aproximação do temido ataque aéreo alemão e, apesar de terem tocado daquele jeito todas as noites nos últimos meses, posso dizer que era impossível se acostumar àquilo.

Senti os primeiros sinais do pânico me dominando, peguei minha pequena sacola de pano e corri para o abrigo antibombas mais próximo.

O lugar já estava cheio quando cheguei, passei por cima de algumas pernas e consegui me acomodar em um canto. Enrolei-me no meu cobertor e me acomodei Será que eu veria o sol novamente? Estávamos todos em silêncio. Os olhos perdidos no vazio, o medo era palpável.

Não demorou para que o maldito uivo surdo dos Stukas nazistas chegasse até ali seguido pelas explosões que faziam o teto sobre nossas cabeças tremer derrubando uma chuva de pós sobre nós. Um som que parecia vindo do inferno e que anunciava morte e destruição.

Havia algumas crianças ali e, a cada explosão, aqueles olhos pequeninos e inocentes se arregalavam e se enchiam de lágrimas. O medo sincero naqueles olhos deixava claro o quão absurda era aquela guerra. Mas eles não queriam parecer fracos, seguravam o choro e apertavam as mãos para que nós não percebêssemos que tremiam. Eram tão pequenos e já enfrentavam toda aquela destruição. Aqueles que sobrevivessem à guerra, se é que algum de nós sobreviveria, jamais poderiam ser considerados fracos.

As horas no abrigo se arrastavam lentamente e era impossível dormir, ler ou fazer qualquer outra coisa normal naquela situação desconfortável e tensa. A maioria das pessoas apenas conseguia ficar ali sentada, o olhar perdido e a certeza de que a morte estava próxima.

A chuva de bombas estava mais intensa naquela noite ou seria impressão?

Notei aquele homem velho de cabelos totalmente brancos em pé somente quando ouvi os primeiros sons das cordas do violino. Percebi certa agitação nas pessoas, os olhares atentos. Seria tão bom ter algo que nos distraísse, assim, se a morte chegasse naquela noite, poderíamos partir sem desespero.

O som perfeito das cordas foi tomando conta daquele lugar abafado e empoeirado que cheirava a suor e terror e imediatamente a tensão que dominava a todos foi cedendo espaço a uma sensação de calma. As crianças menores pegaram no sono e as maiores se mantiveram hipnotizadas.

Uma explosão muito próxima nos fez tremer e acordou algumas das crianças menores que começaram a chorar, o velho homem, então, tocou com mais entusiasmo. Uma mulher em algum canto começou a cantar, a voz trêmula, mas intensa. Logo outras vozes se uniram ao violino em um coro que cantava sobre uma graça maravilhosa.

Durante toda aquela noite cantamos canções e hinos de nossa infância, aquelas músicas que tinham o poder de nos acalmar e de nos fazer acreditar que ainda havia esperança e aquilo quase nos fez esquecer o horror que acontecia sobre nossas cabeças.

O amanhecer nos surpreendeu ainda vivos. O violinista exausto sentou-se abandonando os braços cansados. Tínhamos sobrevivido a mais uma noite. A música tinha nos ajudado a resistir àquele que foi o maior bombardeio que Londres sofrera durante toda a blitz.

Naquela noite, cerca de 400 aviões nazistas haviam sobrevoado a cidade e quando saímos para a rua encontramos um cenário de devastação e chamas. Nas docas, o fogo destruíra tudo em seu caminho. Pelas ruas, as belas construções vitorianas estavam no chão sepultando centenas de corpos que nunca mais veriam a luz do dia.

Uma cidade transformada em ruínas revelando cruamente toda a estupidez da humanidade.

Caminhei por aquelas ruas devastadas e cheguei ao meu prédio que, para meu completo espanto, continuava em pé. Não tive vontade de entrar. Não me pareceu justo ter uma casa quando tantos londrinos não tinham mais um teto.

Continuei caminhando até avistar a alguns metros a frente, uma senhora de certa idade curvada tentando com grande dificuldade tirar o entulho que a impedia de entrar naquilo que restara de sua casa. Comecei a ajudá-la em silêncio. Ela me olhou e seus olhos me agradeceram sem a necessidade de dizer qualquer palavra.

Outras pessoas apareceram e se juntaram a nós e quando terminamos ali, continuamos limpando e retirando escombros e entulho de todo o caminho. Éramos cúmplices na arte de enganar a morte e isso nos unia.
´
O dia passou. Alguém trouxe chá. Bebemos juntos. Mais tarde, um pedaço de pão foi repartido. À noite, uma sopa rala foi servida. O sol já estava alto no céu e não parávamos de trabalhar. Por todo o lado, pessoas de todas as idades e classes sociais trabalhavam unidas por um silêncio respeitoso que só era quebrado pelo som das ambulâncias e dos caminhões do corpo de bombeiros que passavam rapidamente por nós, resgatando sobreviventes e combatendo os focos de incêndio e, ainda que soubéssemos que à noite a destruição voltaria, não abandonamos nossa tarefa.

Aquela era nossa cidade. Aquela era nossa casa.

O anoitecer chegou acompanhado das sirenes que nos lembravam que a chuva de morte viria novamente sobre Londres, mas, por algum motivo, nos sentíamos mais fortes agora.

Londres tinha sofrido o maior ataque aéreo de toda a história da aviação, tinha enfrentado a poderosa Luftwaffe e tinha sobrevivido.

Nenhum de nós desistiria e enquanto existisse um inglês em pé haveria esperança, pois como dizia a velha canção “Haverá sempre uma Inglaterra”.

- fefa rodrigues -




sexta-feira, 29 de junho de 2018

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Entardecer

Segunda Praia
Morro de São Paulo
Bahia, Brasil


Foto em junho/2018
Fefa Rodrigues