sábado, 14 de julho de 2018

InVerso

Lentamente

Do pranto fez-se o riso;

E da saudade a esperança.

Da dor fez-se o prazer;

E da tristeza o encanto.

Do pouco fez-se tudo;

E do vazio a plenitude.

Da tempestade fez-se perseverança;

E da ausência o abrigo.

Do silêncio fez-se o canto;

E do medo a certeza.

Da solidão fez-se o contentamento;

E da distância a leveza.

Da tristeza fez-se o sentimento;

E da descrença a beleza.

Da separação fez-se o abraço;

E do efêmero a união.

E assim, de tudo aquilo que nada era,

Mas que tudo poderia ser,

Fez-se o que se é

E o que para sempre será.

Lentamente, lentamente.

    
                                                                  - fefa rodrigue -


sexta-feira, 29 de junho de 2018

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Entardecer

Segunda Praia
Morro de São Paulo
Bahia, Brasil


Foto em junho/2018
Fefa Rodrigues

Os amantes e o mar...


Segunda Praia
Morro de São Paulo
Bahia, Brasil




Foto em junho/2018
Fefa Rodrigues

Arte Sacra

Igreja de Nossa Senhora da Luz
Morro de São Paulo, Bahia, Brasil
Construída em 1845





Detalhe da pintura no teto.






Fotos em junho/2018
Fefa Rodrigues


Algum lugar...

... entre lá e cá!!!






Outras paixões


Além de ler e escrever, tenho como paixão viajar e fotografar. Costumo publicar minhas fotos em outro blog, mas vou deixar tudo aqui neste, assim fica mais simples!!

Então, convido os amigos que sempre passam por aqui para também conhecer um pouco de minhas outras paixões!!!

Abraços,
Fefa


Os últimos dias da noite – Graham Moore



Faz tempo que não posto resenhas de livros aqui, não é? Tudo culpa desse meu novo vício em escrever contos de terror (kkkk). Mas não significa que parei minhas leituras, apenas que, quando resolvo escrever, acabo preferindo os contos.





Então, vamos lá.

Os Últimos dias da Noite. Li há uns três meses e posso dizer que é sensacional!! Vi a dica deste livro em um dos muitos blogs que visito diariamente e me interessei imediatamente. Primeiro porque achei o título ótimo e segundo porque, sendo eu advogada, me a história me chamou a atenção.

“É impiedosamente simples, mas não significa que será fácil.” (pg. 358).

Sabe aquele livro que te faz manter uma caneta grifa texto do lado para ir marcando os melhores trechos? Pois bem, este é um desses livros... Isso significa que, além do enredo ser muito bom a construção da narrativa é de alta qualidade!!

“- O que é que o senhor produz? - perguntou.
“- Pensamentos – Tesla respondeu, como se falasse com uma criança. – Tenho pensamentos e as coisas que imagino vão durar mais e ter mais efeitos no próximo século que seus brinquedinhos frágeis.” (pg. 134)

A história se baseia em um fato real. A disputa entre Thomas Edson e todos os outros interessados, um dos maiores casos jurídicos da corte dos Estados Unidos, pelo o direito de levar a luz elétrica para o país e a guerra particular entre Edson e Tesla para provar qual era a melhor opção: a corrente alternada ou a corrente contínua.

“Mostre-me um homem totalmente satisfeito e eu te mostrarei um fracasso.” – disse Edson. 
(pg. 95)

Toda a história é cheia de personagens reais como Thomas Edson, Nikola Tesla, Paul Cravath, J. P. Morgan, Rockfeller, Alexander Graham Bell, dentre outros gênios – cientistas, artistas, industriais e advogados -, que construíram a riqueza e a grandeza dos EUA.

“Todas as histórias são histórias de amor. Paul se lembrava de que alguém famoso havia dito isso. Thomas Edson não seria uma exceção. Todos os homens obtêm aquilo que amam. A tragédia de alguns homens não é que isso lhes seja negado, mas que eles desejariam ter amado outra coisa.” (pg. 29)

Apenas a presença desses “caras”, com suas personalidades excêntricas e intrigantes, com seus defeitos e qualidades, já seria suficiente para uma grande história e o autor aqui usou tudo isso com maestria, juntando realidade e ficção numa obra muito legal!!

“O momento em que alguém cessa a barganha é a sua última oportunidade para obter alguma coisa.” (pg. 375)

Talvez para alguns possa parecer que uma história sobre um processo judicial não seja algo muito interessante, mas o escritor, que eu não conhecia até ler esta obra, tem uma narrativa envolvente, ágil e empolgante e “recheada” de aventura, romance e drama, tudo na medida certa.

“Quer saber qual é a maneira mais fácil de fazer um bilhão de dólares?” – perguntou J. P. Morgan. – Pegue uma moeda de um centavo, enterre-a por mil anos e então desenterre-a.” (pg. 356)

Uma ficção histórica fantástica que sai daquele ambiente comum ao gênero que acaba sempre se desenvolvendo na Idade Média, Império Romano ou Segunda Guerra e que ensina e nos entrete.

“Ele se perguntou se ela também se sentia um peão num tabuleiro que pertencia a outro.” (pg. 308)

Realmente recomendo!!

Abraços e boas leituras....

Fefa Rodrigues


Linda

Linda
"Tu que és moça bonita.
Que me acolhe com teu abraço cálido
E sussurra em meu ouvido 
O teu canto de paz.
Tu que és de Nosso Senhor.
Tu que és de todos os Santos.
Tu que és minha.
Somente minha.
Minha linda Bahia."

Morro de São Paulo, Bahia, Brasil
junho/2018


Nota: Minha mui singela homenagem àquela terra que eu amo e que a cada novo encontro entre nós revigora minhas forças e restaura minha paz de espírito!!!



Enfim sós


Enfim sós

Ela estava mais linda do que nunca naquele vestido de renda branca e ele mal podia esperar para tocar cada parte de seu corpo. Ansiava por aquele momento desde a primeira vez que a vira. A certeza de que agora faltava pouco para que ele pudesse saciar seu desejo o fez estremecer. A belíssima igreja decorada com lindas flores brancas tinha sido muito mais do que os pais dela poderiam pagar. Os músicos se prepararam para a última canção. A cerimônia estava no fim e então os dois poderiam enfim ficar a sós. O pensamento o excitava e ele precisou de todas as suas forças para conter-se. Torceu para que as pessoas fossem breves nos cumprimentos e rápidas em deixar a igreja. Com lágrimas nos olhos os pais da moça agradeceram ao bondoso homem por arcar com as despesas e se despediram da filha deitada sobre o ataúde. Em alguns dias eles receberiam a urna com as cinzas da jovem estrangulada há poucos metros de sua casa, mas jamais saberiam que aquilo não era o corpo da filha transformado em pó, pois o corpo branco e perfeito agora seria dele. Somente dele. Para sempre.

- fefa rodrgues -


Nota: Micro conto escrito para o desafio "200 palavras" do Clube do Terror.





segunda-feira, 21 de maio de 2018

1986





1986

- Só se vive uma vez cara – André incentivou o amigo enquanto enfiava um punhado de batatas ruffles na boca seguido de um longo gole sua coca-cola – É a sua última chance, se não for agora, não vai ser nunca e você vai se arrepender!

Lucas respirou fundo, estava prestes a fazer a coisa mais aterrorizante de toda a sua vida, e sabia que, por alguma razão estranhamente misteriosa, o amigo estava certo, aquela era sua última chance.

Em todos os seus quatorze anos de idade nunca havia sentido tanto medo e tanta certeza ao mesmo tempo. Sabia que todas as probabilidades estavam contra ele, mas não queria ser apenas mais um covarde, tinha que arriscar!

- Tá certo. Eu consigo – disse mais para si mesmo do que para o amigo que ficaria ali para assistir de camarote seu maior vexame ou sua maior vitória.

O plano era simples. Apertaria a campainha e, caso não fosse ela mesma a atender a porta, pediria gentilmente para falar com Leticia, então quando ela aparecesse, leria para ela as palavras que havia escrito no pedaço de papel que ele apertava na mão que suava frio.

Letícia era a menina mais linda que ele já havia visto. Se apaixonara por ela desde a primeira vez que a vira, há dois anos, naquele dia em que entrara na cozinha de sua casa correndo, suado e sujo depois de uma tarde jogando futebol com André, seu melhor amigo.

Enquanto riam e tiravam alto, Lucas tirou da geladeira uma garrafa de refrigerante gelado e os dois amigos beberam direto do bico.

André deu um sonoro arroto no exato momento em que Marília, a irmã mais velha de Lucas, entrava na cozinha seguida de seu séquito de amigas.

Enojada, Marília gritou pela mãe, acusando os dois meninos de serem porcos nojentos, enquanto as outras meninas repetiam a cara de nojo.

Letícia se aproximou de Lucas rindo, mas sema parentar o asco que estava estampado na cara das outras e disse de maneira casual:

- Marília, deixa ele em paz – então lhe deu uma piscadela e remexeu seu cabelo – Isso é coisa de menino, não é garoto?

Lucas ficou estático enquanto as meninas saiam pela porta e André ria a descontroladamente de sua cara de otário.

O garoto tímido e que até então nunca havia se interessado por meninas, descobriu um mundo novo e, desde então, cada vez que Letícia visitava sua casa, ele se perdia olhando para aqueles olhos de pestanas compridas e para aquele sorriso que parecia zombar do mundo todo.

Com o tempo, Lucas passou a reparar em outros atributos de Letícia. Três anos mais velha, ele se perdia em suas curvas enquanto o balanço do seu corpo o hipnotizava e como seu cheiro o levava para outro mundo.

Podia ser loucura, mas ele tinha certeza de que ela o olhava de forma diferente, era a única que parecia ver nele mais do que só um garoto, apesar de nunca o chama-lo pelo nome.

“E então, garoto?” era como ela falava, cada vez que ela pronunciava aquelas palavras com seu jeito mistérios, Lucas pensava ver algo mais naquele sorriso indecifrável.

Agora ele tinha 14 anos, sentia que não era mais apenas um garoto, mesmo para aquela mulher como ela.

Mas, no dia em que iria convidá-la para a festa de fim de ano da escola, soube que ela partiria no dia seguinte para estudar no exterior.

Aquele era seu último dia na cidade. Aquela era a última chance de Lucas.

Apertou a campainha com as mãos trêmulas e suando as bicas, a porta se abriu.

- E então garoto? – lá estava ela, linda como nunca e ele estancou, não conseguiu se lembrar de nenhuma palavra, apenas ficou ali admirando o belo sorriso, os olhos a boca.

Não sabe dizer por quanto tempo ficou assim, até que foi tirado de seu devaneio pelo som de buzinas que tocavam ás suas costas. Eram os amigos de Letícia que estavam ali para leva-la para a festa de despedida.

Ela sorriu, passou por ele sorrindo com um leve toque de frustração, remexeu seus cabelos e se despediu.

- Até mais Lucas – pela primeira vez ela o havia chamado pelo nome e, sem saber o que fazer, ele continuou ali pateticamente parado, observando ela se afastar sem olhar para trás, entrar no carro que a aguardava e trocar um selinho com o cara que dirigia.

Só então se lembrou que no pedaço de papel amassado na palma de sua mão, estavam os versos bobos e rimados que ele havia escrito para ela.


(...)

Lucas sorriu enquanto testava o microfone. Uma pequena multidão já tomava conta do bar. Era engraçado como ele tinha deixado de ser um garoto introvertido e tímido e se tornado o vocalista de uma banda de rock que andava fazendo o maior sucesso nas festas da faculdade.

O lugar estava cheio naquela noite e tudo indicava que seria um ótimo show. Já sentia a empolgação que tomava conta dele sempre que subia ao palco para cantar, era como se aquele fosse o seu lugar no mundo.

O guitarrista tocou os primeiros acordes e ele começou a cantar. Sua voz era forte e aveludada.

A banda revezava músicas conhecidas com composições próprias e o público, especialmente as mulheres, iam à loucura quando ele cantava aquelas melodias que falavam de amores que nunca davam certo.

De repente, em meio à multidão, ele reconheceu aquele olhar.

Letícia.

Seu coração pareceu parar por alguns segundos, então ela retribuiu seu sorriso e ele cantou com toda a sua alma.

Terminada a última canção, ele deu sinal para os músicos pedindo que tocassem mais uma, aquela música não estava no repertório da noite, mas eles já haviam ensaiado antes.

Lucas sabia que o tempo já tinha acabado, mas não se importou, ninguém iria censurá-lo naquela noite.

A melodia suave envolveu a plateia que ouviu em êxtase aquela música que falava sobre o amor de um garoto por uma menina de olhos e sorriso lindo. Ele cantou a música toda olhando diretamente para Letícia, estava lhe dizendo tudo que queria ter dito naquele dia há alguns anos.

Encerrado o show, ele se livrou o mais rápido que pôde das fãs que queriam lhe dar um abraço, um beijo ou algo mais, e correu em busca de Letícia.

Procurou-a por toda parte sem encontrá-la.

Será que havia sonhado, ou tinha perdido mais uma vez sua chance?

Desanimado, voltou para o camarim de mau humor e arrumou suas coisas para sair. Todos iriam para uma festa numa das nas muitas Repúblicas que coalhavam o campus, mas ele tinha perdido todo o entusiasmo.

Esperou que todos saíssem dando desculpas esfarrapadas a seus amigos que não entendiam o que havia acontecido até que ficou sozinho.

Guardou seu equipamento e, antes de ir para casa, parou no bar para tomar alguma coisa.

- Hei Lucas, não sei se te interessa, mas uma das suas fãs deixou um bilhete para você e me pediu para eu te entregar – disse o barman enquanto servia a bebida.

Lucas pegou o guardanapo de papel sem muita vontade, então abriu.

Nele, havia um número de telefone anotado e, embaixo, numa letra delicada e firme, a pergunta “E então, garoto?

(Fim)

Nota: Conto inspirado na música Olhar 43 da banda RPM e uma humilde tentativa de deixar o universo sombrio em que costumo habitar e escrever um romance com final feliz!!


- fefa rodrigues -




sábado, 19 de maio de 2018

Estigma



estigma
substantivo masculino
  1. 1.
    marca ou cicatriz deixada por ferida.





Há cerca de dois meses Leonel desfrutava de seu idílio no interior.

Membro de uma rica família que havia abandonado a pequena cidade de São Bento para viver na capital há muito tempo, chegara ali despertando a curiosidade dos moradores e a desconfiança dos arrendatários de suas terras, mas logo conquistara a simpatia de todos.

Instalara-se no casarão de janelas altas, portas de madeira e paredes caiadas que se mantinha em ótimo estado, comprovando que, mesmo sem qualquer supervisão, os empregados faziam seu trabalho.

A vida mansa na pequena cidade tinha mudado seus hábitos. Dormia e acordava cedo, fazia longas caminhadas e passava horas conversando com os moradores mais velhos enquanto tomava notas para seu livro.
Aprendera a apreciar o ar puro e o silêncio.

Quando voltava para casa, encontrava a refeição servida. Nunca havia se alimentado tão bem e de maneira tão saudável e isso fazia com que se sentisse revigorado.

Sem as preocupações que o atormentavam na cidade grande, aquele prometia ser o seu tão sonhado ano sabático, até que sua paz foi interrompida.

No meio da madrugada, foi despertado de seu sono tranquilo por um baque surdo e continuo que tentou em vão ignorar até que compreendeu que aquele som intruso não o deixaria dormir.

Obrigou-se a se levantar e verificar o que estava acontecendo.

Envolveu-se em seu roupão azul e bateu com força no interruptor, mas as luzes não acenderam.

Afastou as cortinas e, ao olhar pela janela, percebeu que a cidade toda estava às escuras.

O batuque enlouquecedor continuava intenso, então decidiu enfrentar a escuridão.

Vagou pela casa em busca daquele som que parecia fugir sempre ele se aproximava para ressurgir novamente em outro ponto até que, cansado de zanzar pelo escuro e depois de topar duas ou três vezes com o dedinho em algum móvel, resolveu voltar para o quarto.

Naquele momento, percebeu que a luz do luar, ao penetrar pela janela, projetava uma sombra alongada que delineava um corpo no chão de madeira da sala.

Sobressaltou-se com a imagem e correu até a janela. Olhou para fora e constatou que realmente havia algo lá, não uma pessoa, apenas um vulto que o encarou por um breve momento e depois se afastou lentamente se fundindo à noite que engolia tudo ao seu redor.

Sentiu-se paralisado por uma fração de segundos, o coração aos pulos, até que, no instante seguinte, todas as luzes da cidade voltaram a brilhar ao mesmo tempo.

Ainda tomado pela sensação desagradável de estar sendo observado, teve a certeza de que o vulto estava agora às suas costas e chegou a sentir o leve toque de longos dedos gelados em seu pescoço fazendo os pelos de sua nuca arrepiarem.

Correu para o quarto sem olhar para trás e trancou a porta atrás de si. Deitou-se na cama e por um bom tempo rolou de um lado para o outro, mas aquele barulho que agora vinha nitidamente do telhado acima de sua cabeça somado ao temor que o vulto havia lhe causado não o deixava pegar no sono.

Convenceu-se de que o único jeito seria apelar para um de seus comprimidos.

Desde aquela madrugada, o mesmo batuque retornava, portanto, Leonel pediu a um dos empregados que revirasse o casarão em busca de qualquer coisa que pudesse ser a razão daquele incomodo, porém, nada foi encontrado.

O empregado resolvei passar a noite na casa para que, quando o batuque recomeçasse, ele pudesse encontrar sua origem com mais facilidade, entretanto, para desalento de Leonel, aquela madrugada transcorreu no mais completo silêncio.

Na manhã seguinte, ao perceber o olhar de descrença de todos, Leonel achou por bem dar o assunto por encerrado e suportar sozinho, contando apenas com ajuda de seus comprimidos, a companhia daquele eco seco e ritmado que chegava toda noite e começava a se tornar agourento.

Não demorou a que as noites mal dormidas e o uso constante de medicação cobrassem seu preço.

Leonel foi tomado por uma forte enxaqueca que o impedia de fazer suas caminhadas, de sair para conversar com os moradores da cidade e de trabalhar em seu livro.

Tentou escapar dos remédios fortes e controlados tomando chás e fazendo uso das receitas caseiras que a cozinheira preparava, mas nada aplacava aquela dor que fazia sua cabeça latejar até ele quase perder os sentidos.

Certa manhã, decidiu enfrentar a dor excruciante e caminhar até o mercado municipal onde poderia comprar algumas frutas e legumes frescos, além de aproveitar para respirar um pouco de ar puro.

Ao sair de casa, sentiu que o contato da luz do sol com sua pele lhe fazia bem. Respirou fundo sorvendo com prazer o ar matinal e andou sem pressa pelas poucas quadras que separavam o casarão do mercado.

Muita gente parava para conversar com Leonel e lhe desejar melhoras, sugerir alguma receita que poderia ajudar com as dores de cabeça ou para contar suas próprias experiências e de seus familiares com as mais diversas doenças, fazendo-o sentir-se bem e acolhido, como em seus primeiros dias na cidade.

Ele ouvia atentamente uma das histórias que lhe contavam quando uma forte fisgada nas costas o fez arfar. A mulher que tagarelava à sua frente perguntou se ele estava bem, mas ele não teve tempo de responder.

Uma sequência de açoites invisíveis fizeram com que ele caísse de joelhos gritando de dor enquanto riscos vermelhos se formavam em sua camiseta branca marcando o lugar de onde o sangue brotava. A dor era tanta que o fez desmaiar.

Acordou em sua cama, o corpo dolorido como se tivesse levado uma surra.

Os ferimentos em suas costas estavam limpos e protegidos por uma faixa de gaze branca.

Sentia-se fraco como nunca, mas levantou-se e caminhou até o banheiro. Abriu a torneira e, por algum tempo, apenas observou a água correr.

Foi tirado de seu devaneio por uma forte queimação em seu lombo, baixou as calças e viu que uma marca avermelhada se formava em sua pele branca, como as iniciais marcadas em brasa no couro de um animal.

Tentou se convencer de que aquilo talvez não passasse de uma reação alérgica, mas logo o cheiro forte e adocicado de carne queimada deu lugar a uma onda de dor que o fez se encolher.

Com dificuldade, levantou-se e se curvou sobre a pia para lavar o rosto e enxaguar a boca tentando recuperar o autocontrole.

Para sua surpresa, ao cuspir o liquido viscoso viu, com incredulidade, um de seus dentes cair.

Fitou-se no espelho e tocou os dentes levemente com as pontas dos dedos. Horrorizado, constatou que eles se soltavam com facilidade enquanto de sua gengiva o sangue escorria abundantemente.

Aquilo era loucura.

Leonel foi novamente socorrido e medicado.

Os empregados insistiram em contatar seus pais, mas ele negou e os proibiu taxativamente.

Passou o dia inteiro em sua cama no mais absoluto silêncio, os olhos fechados, quase sem respirar, perguntando-se se estaria sucumbindo a algum tipo de transtorno psiquiátrico, assim como acontecera com outros membros de sua família.

Tinha chegado àquela cidade certo de que um ano de descanso o livraria das crises de estresse que o acometiam desde o fim de seu noivado, contudo tinha a nítida impressão de que estava enlouquecendo.

Estava tomado pelo pânico e o medo o paralisava. Temia ter o mesmo destino de seu pai e seu avô e ser mandado para uma clinica psiquiátrica.

Por outro lado, desejava compreender o que estava acontecendo, afinal, havia visto o sangue escorrer de suas costas e a cicatriz que parecia marcada a fogo se formar em seu lombo, havia sentido a dor do açoite e dos dentes sendo arrancados de sua boca, mas, por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo.

Quando a madrugada chegou, o vulto que Leonel vira há alguns dias retornou junto com o maldito som que sempre ressurgia sem trégua.

A princípio, era apenas uma penumbra que vagava pelos cantos, observando-o enquanto se escondia entre as sombras tortas e inquietas que se projetavam por toda a casa.

Porém, com o passar dos dias, o vulto foi se materializando até se tornar uma presença concreta, sempre por perto, sempre espreitando, vista e sentida apenas por Leonel que não ousava falar sobre aquilo com ninguém.

O jovem escritor isolou-se.

Comia pouco e quase nunca deixava o quarto.

Os empregados, assustados, o ouviam falando sozinho, muitas vezes discutindo em voz alta e respondendo às perguntas que ele mesmo acabara de fazer. 

Todos estavam com medo. Sentiam-se culpados e se questionavam se tinham agido corretamente, pois, sempre que questionados por Leonel acerca da história de sua família, haviam sido evasivos e omissos apesar de saberem que aquela era uma família amaldiçoada.

(...)

Os ventos abolicionistas ainda não haviam soprado com força suficiente em terras brasileiras e, ainda assim, a crueldade do Sr. Manoel Antunes Resende havia chocado até mesmo a conservadora sociedade escravagista da pequena cidade de São Bento, que não se esqueceria  daquela história por várias gerações.

Dionísio era um jovem negro nascido sob a égide da Lei do Ventre Livre e, graças a sua inteligência e perspicácia, desde muito cedo havia se tornado ajudante do Sr. Adib em sua mercearia.

Por anos, Dionísio juntou todo o mísero salário que ganhava em busca de seu único objetivo: comprar a liberdade de D. Thereza, sua mãe e escrava preferida do Sr. Manoel.

Quando o velho fazendeiro soube daquela empreitada, fixou um preço alto para a venda de D. Thereza, garantindo assim que fosse praticamente impossível ao garoto juntar o valor exigido.

Mas Dionísio não era homem de desistir, então, passou a trabalhar de sol a sol, dia após dia, sem descanso. Para ele não exista sábado, domingo ou dia santo, a única coisa que existia era seu objetivo.

Sua determinação e empenho eram apreciados por todos, porém, após vinte anos de trabalho árduo, ele ainda estava longe de juntar todo o dinheiro de que precisava até que foi surpreendido ao herdar, com a morte do velho Adib, todos os bens do homem que morreu sem deixar filhos ou família.

Tão logo os ritos fúnebres foram cumpridos, Dionísio dirigiu-se até o casarão da família Antunes Resende e solicitou uma audiência com o fazendeiro.

Manoel não aceitou recebê-lo naquele dia, alegando estar ocupado com seus negócios, todavia, sabendo que o jovem agora tinha como pagar o valor exigido em troca da liberdade de sua mãe, o fazendeiro se comprometeu a receber a quantia e alforriar D. Thereza no sábado seguinte.

Dionísio preparou a casa em que receberia sua mãe com carinho e esmero. Comprou-lhe uma máquina de costura, uma cama nova e uma colcha de retalhos coloridos. Comprou também um vestido bonito de um pano bom, pois agora ela seria uma mulher livre.

No sábado, conforme combinado, seguiu até o casarão levando numa das mãos um ramalhete de flores e, na bolsa de couro amarrada à cintura, o dinheiro que a libertaria.

Ao chegar ao casarão, foi convidado para entrar e tomar algo. Não queria se demorar ali, mas esperou pacientemente enquanto o fazendeiro abriu a bolsa e despejou o dinheiro sobre a mesa para contar as moedas uma a uma.

Após confirmar que o valor estava correto, Manoel fez um sinal em direção à porta, como que chamando alguém para entrar.

Dionísio olhou ansioso na expectativa ver sua mãe entrar na sala, porém foi surpreendido por três capangas que o agarraram sem lhe dar tempo para se defender e o arrastaram para o terreiro que ficava nos fundos do casarão.

Sob o olhar desesperado e ao som das súplicas de D. Thereza, Dionísio foi espancado, chicoteado, teve seus dentes arrancados, sua pele foi marcada com as iniciais do fazendeiro e, por fim, seu corpo foi pendurado na velha mangueira que fazia sombra no quintal.

Quando os três homens se cansaram de toda aquela barbárie, abandonaram a pobre mulher e seu filho já inconsciente.

Com grande esforço, D. Thereza conseguiu baixar o corpo moribundo de Dionísio, tomou-o em seus braços e o beijou com carinho, deixando que suas lágrimas se misturassem ao sangue de seu menino até que sua alma por fim deixou seu corpo.

Todo aquele sofrimento fez o coração de D. Thereza parar, mas, antes de partir, reunindo o pouco de forças que lhe restava e ainda com o corpo do filho apertado em seus braços, conjurou, na poderosa língua de seus ancestrais, os espíritos novos e antigos, que habitavam o céu e as profundezas da terra e clamou por justiça.

Diante da traição que seu filho havia sofrido, suplicou que a alma daquele homem cruel, que sentia prazer em mantê-la prisioneira de suas vontades, que a forçava a trabalhar sem trégua e que a açoitava e estuprava sempre que desejava, fosse amaldiçoada e condenada a vagar como uma sombra pela escuridão da terra, sem encontrar a paz, até que  ele mesmo infligisse a seu último descendente varão a mesma dor com que havia castigado o corpo de seu filho.

D. Thereza então, com um último suspiro, se entregou ao descanso eterno.

(...)

O sino da pequena igreja soou chamando os moradores para a missa naquele início de manhã em que uma brisa leve, mas persistente, dançava entre as folhas da grande mangueira anunciando a chegada do inverno.

Enquanto as pessoas caminhavam em direção à igreja, de um dos robustos troncos da árvore frondosa e centenária que sombreava o quintal do casarão da família Nunes Resende derramava-se, como um pendulo movendo-se lentamente de um lado para o outro, o corpo inerte do jovem Leonel.

Na pequena São Bento, muitos choraram a morte daquele moço simpático e promissor, porém, a maioria das pessoas sentia-se aliviada, pois após tantos anos aqueles acontecimentos haviam cumprido a lendária maldição e, enfim, a cidade estava livre da alma do velho Manoel Antunes Resende que, desde sua morte, assombrava suas ruas e perturbava sua paz.  

Poucos sabiam, no entanto, que de todos os que sofreram com aquela morte repentina e absurda, ninguém sofrera tanto quanto Joana, a ex-noiva de Leonel, que não se perdoava por saber que aquela tragédia poderia ter sido evitada se ela tivesse lhe contado que estava grávida e esperava um filho dele.

Um filho varão.

........

CONTO ESCRITO PARA O CLTS 03 DO SITE RECANTO DAS LETRAS
TEMA: MALDIÇÕES


Ausência





Ausência

O vazio me envolve completamente.

Então te procuro pela casa;

E encontro apenas solidão.

Busco por teu cheiro,

Nas roupas, no sofá, nas toalhas.

Mas há tanto tempo você se foi,

Que nada mais resta de ti.

Tento ouvir o som da sua vós,

Porém é apenas o silêncio

Que sussurra em meu ouvido

Me lembrando que você não está aqui.

Quero sentir o sabor da sua boca,

Mas o que sinto é o gosto amargo

Dos amores que se acabam.

Ainda há tanto de você em mim

Então sua falta me deixa oca.

Quero sentir o amor novamente,

Mas só o que sinto é saudade

E a constante presença da sua ausência.



- fefa rodrigues -