domingo, 21 de janeiro de 2018

Sobre Jorge Amado

Olá a todos os apaixonados pela literatura!

Estive em Ilhéus agora no mês de janeiro, durante minhas férias, e tive a oportunidade de conhecer a casa onde esse escritor brasileiro viveu e de conhecer, também, um pouquinho daquilo tudo que inspirou sua obra.

Enquanto visitava a Casa da Cultura Jorge Amado soube algumas curiosidades sobre ele, como o fato de que ele adorava sapos e de que ele escreveu seu primeiro livro aos 17 anos, e foi realmente emocionante estar no escritório onde ele escrevia e olhar pela janela a vista que lhe inspirava.

Outra curiosidade foi saber que ele não nasceu em Ilhéus, mas sim em Itabuna, uma cidade próxima e que sua família era muito pobre. Seu pai era mascate e vendia na feira as sandálias de couro que sua mãe fabricava em casa. Mas a sorte sorriu para sua família quando ele ainda era criança. Seu pai ganhou na loteria um prêmio equivalente a 25 milhões de reais de hoje.

Ele investiu o dinheiro em fazendas de cacau e construiu uma belíssima casa para a família no centro de Ilhéus, onde hoje está instalada a casa da cultura em homenagem ao personagem mais celebrado da cidade.

Da janela do casarão, dá para avistar o bar Vesúvio, que faz parte da obra Gabriela!

Foi a primeira vez em que eu visitei a casa de um grande escritos cujos livros eu li tantas vezes e realmente foi um passeio inspirador!!!

Deixo aqui algumas fotografias da visita!!






























"A sorte me acompanha, tenho o corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado."

Beijos
Fefa Rodrigues


O Mar

"O mar.
Ah, mar!
Como eu amo
Amar
O mar."

                                            - Fefa Rodrigues -

Ilha do Goió, Bahia.

Ilha da Pedra Furada, Bahia.

Praia do Sargi, Bahia.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Catarina



Catarina

Foi como perder um membro da família. Pedro, ou Seu Pedro como eu o chamava, era o funcionário mais antigo da oficina mecânica do meu pai e já trabalhava ali desde quando a oficina ainda era só um pequeno negócio na garagem do meu avô. Ele esteve ao lado da minha família desde o começo e seus braços fortes e mãos calejadas ajudaram a construir a confortável situação financeira em que vivíamos e, de certa forma, eu sempre me sentira grato a ele por isso.

Seu Pedro era um homem sério e quieto, apesar disso tinha olhos extremamente bondosos. Fazia suas refeições sempre sozinho e eu acreditava que era assim por causa da grande diferença de idade entre ele e os demais funcionários do meu pai, já que, apesar de forte e saudável, ele devia beirar os 70 anos.

Seu uniforme e suas mãos estavam sempre impecavelmente limpos. A marmita em que levava suas refeições era perfeitamente arrumada, os alimentos separados, sem se misturar. Ele nunca havia se atrasado. Nunca havia faltado a um dia de trabalho. Nunca causara qualquer transtorno ou chateação para meu pai ou para meu avô antes dele.

Meu pai dizia que o Seu Pedro havia perdido o pai muito cedo, quando ainda era uma criança, e que sua mãe havia falecido quando ele tinha apenas 16 anos. Na época, ele já trabalhava na oficina e meu avô que, preocupado com aquele garoto sem família que passaria a viver sozinho no sítio que ficava muito afastado da cidade, convidou-o para morar no quartinho que ficava nos fundos da oficina.

Ele recusou com educação e explicou que, apesar das muitas ofertas que vinha recebendo dos interessados em comprar as terras que havia herdado, não iria deixar aquela casa onde tinha passado sua infância ao lado da mãe e que, apesar de ser apaixonado por automóveis, ele era, em sua essência, um homem do campo.

Apesar de sua recusa meu avô, volta e meia, fazia novamente a oferta, outras vezes convidava Seu Pedro para almoçar ou jantar em sua casa, para passar um sábado ou um feriado com sua família, mas ele sempre agradecia e recusava.

Poucos meses depois do falecimento da mãe de Seu Pedro, meu avô foi surpreendido com uma notícia que aliviou suas preocupações. O seu jovem funcionário de apenas 16 anos informou que havia se casado com uma prima distante, Catarina. Ele explicou que não havia feito festa nem convidado ninguém a pedido da noiva que era extremamente tímida e que sofria de algo que ele chamava de “o problema de Catarina” e que a impedia de sair de casa. Apesar de, a princípio, achar aquilo estranho, meu avô aceitou as explicações de Seu Pedro e ficou feliz porque agora ele poderia formar uma família.

Nenhum de nós, meu avô, meu pai ou eu, viu Dona Catarina alguma vez, mas ela sempre esteve presente em nossas vidas de alguma forma, seja pelos doces caseiros que ela sempre nos mandava, pelos trabalhos de costura, crochê e trico perfeitos que ela fazia para minha mãe ou pelos bolos que ela preparava no dia do aniversário de cada um de nós e que nunca deixou de nos mandar por todos aqueles anos e que nós esperávamos com ansiedade, pois eram simplesmente deliciosos.
   
Meu avô e mais tarde meu pai tentaram por diversas vezes abordar a questão do “problema de Catarina”, pois acreditavam que se se tratasse de algum problema de saúde, poderiam ajudá-los, mas sempre que esse assunto era mencionado Seu Pedro ficava extremamente nervoso e dizia que preferia não falar sobre aquilo, que Catarina viva em paz e que ela não desejava incomodar a ninguém. Em respeito àquelas duas pessoas que toda nossa família havia aprendido a amar, o assunto acabou sendo deixado de lado até ser esquecido.

Não foram poucas as ocasiões em que eu ouvira os funcionários de meu pai zombando de Seu Pedro por ele ser sempre tão cuidadoso e perfeccionista, por ele ser diferente de todos os outros o chamavam de nomes que eu só vim a entender o significado quando cresci.

Outras vezes ouvia-os dizendo que a tal da Dona Catarina só podia ser deformada ou monstruosa, por isso nunca era vista em público. Todos aqueles comentários me magoavam, pois para mim Seu Pedro era como um terceiro avô e Dona Catarina era como um anjo envolto em uma bruma de mistério e não uma criatura desfigurada como eles diziam.

Todo ano, no dia 07 de novembro, aniversário de Dona Catarina, meus pais – e meu avô e avó antes deles -, lhe mandava flores e algum pequeno mimo, um perfume, um sabonete, um creme para as mãos. Nessas ocasiões, a emoção transparecia nos olhos de Seu Pedro e ele agradecia como se aquele agrado fosse para ele próprio.

Nunca vou me esquecer do dia em que eles completaram quarenta anos de casamento e minha avó presenteou Dona Catarina com um fino colar de ouro acompanhado de um delicado pingente de coração com as iniciais do casal gravadas. Aquele pequeno gesto de carinho fez Seu Pedro derrubar algumas lágrimas de emoção.   

Aquelas lembranças tornavam ainda mais difícil a missão que me fora incumbida naquela manhã. Eu não só teria que enfrentar o “problema de Catarina”, como teria que olhar nos olhos daquela mulher que cozia minhas roupas e preparava os bolos no meu aniversário e que, apesar de nunca ter me visto pessoalmente, conhecia todos os meus gostos e, então, teria que lhe dizer que seu marido, que o querido Seu Pedro, tinha sofrido um ataque cardíaco e que, apesar do socorro ter chegado rápido ele, infelizmente, não resistira e acabara falecendo no chão da oficina de meu pai.

Enquanto eu dirigia pela longa e tortuosa estrada de terra que levava até o sítio do Seu Pedro, não conseguia parar de pensar naquela senhora cuja imagem eu havia criado em minha mente e que agora, assim como acontecera com seu marido tantos anos antes, passaria a viver sozinha naquele canto esquecido do mundo.

Eles não tiveram filhos e, pelo que nós sabíamos, não havia restado qualquer parente ou membro da família vivo. Pensei que talvez ela aceitasse viver com a gente. Mesmo sem consultar meus pais sobre isso, decidi que faria a oferta assim que desse a notícia devastadora, afinal, morávamos numa casa imensa que tinha espaço suficiente para mais uma moradora.

Quando o GPS do carro informou que estávamos a poucos minutos do meu destino, senti uma já conhecida crise de ansiedade tomar conta de mim a ponto de me provocar nauseas, então me lembrei que, com o tumulto todo daquela manhã, me esquecera de tomar meus remédios, minhas “tarjinhas pretas” como eu costumava dizer.

De repente, pensamentos horríveis invadiram minha mente. A visão de Dona Catarina como uma mulher deformada me dominou, vi um rosto destruído por queimaduras profundas, rasgado por um buraco negro no lugar do nariz, os globos oculares vazios, os dentes pontiagudos como os de um ser macabro. Disse para mim mesmo que aquilo não tinha o menor sentido e, sem muito sucesso, tentei afastar aquelas imagens da mente assim que avistei a propriedade no fim da estrada.

Cheguei àquela casa cujas paredes eram caiadas de branco e cujas janelas e portas eram emoldurada por batentes azuis. Na entrada um pequeno jardim protegido por uma mureta baixa estava forrado por roseiras que floresciam podadas à perfeição.

Atravessei o pequeno portão que também era feito de madeira azul e me aproximei da porta com a sensação de estar invadindo aquela vida que Seu Pedro se esforçara tanto para manter privada a fim de proteger sua esposa de um mundo intolerante e cínico e de estar desrespeitando sua memória, mas como sabia que tinha que fazer aquilo, respirei fundo e dei três batidas leves com o nó dos dedos na porta.

“Dona Catarina, sou eu, o André, filho do Paulo da oficina... posso falar com a senhora um minuto?” falei me aproximando o máximo que pude da porta.

A casa permaneceu em silêncio por vários minutos, então bati novamente, agora com mais força e chamei Dona Catarina, pedindo desculpas por estar ali sem ser convidado e explicando que precisava falar com ela sobre o Seu Pedro e que o que eu tinha para dizer era realmente muito importante. O silêncio continuou.

Fazendo sombra com a mão, olhei para o interior da casa através do vidro transparente da janela encoberto por uma cortina branca de crochê. Não vi qualquer movimento. Pensei em voltar para casa, no fundo era isso o que eu mais queria, não ter que enfrentar aquela situação, entretanto, minha consciência me disse que minha covardia certamente decepcionaria Seu Pedro e eu não queria isso.

Eu não poderia ficar ali esperando para sempre, o caminho de volta para casa era longo e àquela hora o velório já devia ter começado, já que meus pais cuidariam de todos os preparativos. Eu não queria perder a chance de me despedir do Seu Pedro e estava certo de que Dona Catarina tinha o direito de decidir se iria ou não enfrentar o seu “problema” para dar o último adeus a seu esposo.
     
Dizem que situações extremas exigem medidas extremas, então tomei coragem e decidi entrar na casa e procurar por Dona Catarina. Era provável que ela levasse um grande susto ao me ver lá dentro, mas com certeza me perdoaria assim que entendesse porque eu estava lá.

Empurrei a porta com cuidado e quando ela se abriu com facilidade me deparei com uma sala bem iluminada pela luz natural que entrava pelas janelas e com um piso de madeira muito lustroso. Tudo ali estava em perfeita ordem.

Um sofá extremamente aconchegante e coberto por uma manta de retalhos coloridos descansava próximo a uma pequena lareira, à sua frente havia uma cadeira de balanço e ao seu lado um pequeno cesto de vime continha alguns novelos de lã bem organizados.

A perfeição intocada do lugar me causou um calafrio diante da  total ausência de vida que reinava ali. Atravessei a sala e dei alguns passos em direção ao corredor que levava para o interior da casa, chamei por Dona Catarina diversas vezes sem obter resposta.

Caminhei com cuidado observando as fotografias em sépia que cobriam as paredes, a maior delas era a imagem de um homem de bigode postado logo atrás de uma mulher franzina com um bebê no colo. Reconheci os mesmos rostos nas demais fotografias que pareciam marcar o passar dos anos e o crescimento daquele bebê.

Algumas imagens depois, notei a falta do homem de bigode, quando o bebê já se tornara um menino de cinco ou seis anos. A partir dai, apenas a mulher franzina aparecia nas fotos, seu cabelo longo trançado nas costas olhando orgulhosa para o filho que crescia, até que a última foto mostrava um jovem por volta de seus 16 anos ao lado de um caixão onde uma mulher de meia-idade repousava. Conclui que aquela era imagem do Seu Pedro velando sua mãe, o que era extremamente bizarro.

O ar de museu que dominava a casa e aquela fotografia sinistra serviram para aumentar a inquietação que vinha sentindo e a ansiedade que havia me dominado. Senti a  expectativa de encontrar Dona Catarina face-a-face pela primeira vez embrulhar meu estomago.

Continuei pelo corredor e passei por um cômodo com a porta aberta e que reconheci como sendo o quarto do casal. A mobiliá de mogno escuro parecia ser muito antiga, contudo, assim como o resto da casa, estava em perfeito estado me fazendo mais uma vez pensar em um museu. Reconheci o toque delicado de Dona Catarina na colcha de linha clara que protegia o colchão de molas. Como não havia ninguém ali, continuei minha busca.

Deduzi que o cômodo em frente ao quarto era a sala de costura de Dona Catarina, pois ali havia uma máquina de custura, vários tecidos floridos dobrados e colocados um em cima do outro e, num canto, de um daqueles manequins de outros tempos que eram feitos com filetes de ferro e que reproduziam apenas o contorno do torço feminino, um vestido leve de verão quase finalizado pendia.

Conclui que Dona Catarina cozia para outras famílias além da minha, já que aquele vestido tinha sido feito para um corpo de proporções perfeitas, silhueta que, certamente, ela já não possuía mais.

Desta vez, estranhei o fato de que aquele vestido que claramente vestiria o corpo de uma mulher muito jovem houvesse sido feito com uma pano cuja estampa combinava com senhoras de idade, então balancei a cabeça dizendo para mim mesmo que, sendo eu homem, não entendia nada de moda e dos pensamentos femininos.

Como Dona Catarina não estava na sala de costura, continuei caminhando e cheguei a cozinha onde a imaginei fazendo os bolos e doces da minha infância. Não havia ninguém ali e  aquela ausência persistente me fez imaginar que ela poderia teria saído, apesar disso ser improvável tanto por conta do seu “problema”, quanto pela distância que aquela casa ficava da cidade ou de qualquer outra coisa.

Parei por alguns minutos tentando decidir o que fazer enquanto me deliciava com o aroma de café recém moído que dominava o lugar. Olhei ao redor e mais uma vez a sensação de que aquele ambiente perfeito tinha um quê de artificialidade e de falta de vida tomou conta de mim, a ansiedade me invadindo com força e me fazendo suar.

Fiquei extremamente aliviado quando olhei pela janela da cozinha que dava para o quintal e vi uma pessoa sentada em uma espreguiçadeira branca sob a sombra de uma árvore muito frondosa há uma dezena de metros dali. Só podia ser Dona Catarina que talvez tivesse pegado no sono e por isso não me ouvira chamar, quando saí para o quintal senti todo o peso da responsabilidade por estar ali para trazer a notícia que faria seu mundo ruir e a tiraria daquela paz. 

Dona Catarina estava sentada de costas para mim fitando a paisagem à sua frente, sua postura era extremamente ereta e àquela distância não identifiquei qualquer deformidade ou deficiência física, notei seu cabelo longo e castanho que caia trançado às suas costas e ao me aproximar percebi que não havia sequer um fio de cabelo branco ali. Mais uma vez toda aquela perfeição me desconcertou.   

“Dona Catarina” chamei, mas ela não se virou. A ansiedade me dominou e, para acabar com aquele suspense, acelerei os passo e me coloquei de frente com ela.

Fitei aqueles olhos vítreos e azuis da cor do céu, o colar que fora presente de minha avó pendendo de seu pescoço, o vestido de corte delicado vestindo aquela silhueta perfeita de moça, a boca delineada e vermelha, o rosto de traços perfeitos, a pele feita de porcelana.

Uma profunda tristeza tomou conta de mim ao compreender o que todos aqueles anos de segredo significavam. Aquela, ou melhor, aquilo era Dona Catarina. E meu assombro se transformou em desespero quando, enquanto, eu tentava digerir o fato de que a vida de Seu Pedro tinha sido uma grande mentira que nós não tivemos a capacidade de compreender, tive a absoluta certeza de ver aqueles olhos de boneca sem alma ou vida piscar.

Fim

Nota: Este é um pequeno conto que me ocorreu numa noite de insonia e, por isso mesmo, não foi escrito com qualquer pretensão. Sinta-se a vontade para qualquer crítica!!








quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

São os Loucos Anos 20


"São os Loucos Anos 20" 
- Parte I -

As gotas da chuva batiam com força na janela embaçada. Ela queria que estivessem batendo em seu rosto, talvez voltasse a sentir algo, prazer ou dor, qualquer coisa. A pesada porta de madeira de lei à suas costas estava trancada, arranhões e lascas de tinta eram apenas uma lembrança de sua luta anterior. Tinha desistido de lutar. Na verdade, tinha desistido de viver, mas naquele quarto vazio não havia meios para que a questão fosse enfim resolvida, esse alívio não lhe era concedido, então, continuava vivendo.

A comida vinha em pratos para criança, nada de louça, porcelana ou vidro. Mas ela não comia. Não suportava o cheiro. Apenas água, era suficiente.

Os dias iguais fizeram com que perdesse a noção do tempo, mas sabia, pelo comprimento do seu cabelo, que estava ali há muito tempo.

Tocou as pontas de seu cabelo cor de mel. Havia sido uma das primeiras a adotar o corte Chanel, imitando a famosa estilista. Chegou com os cabelos curtos depois de uma temporada em Paris e por onde andava sentia todos os olhares a observando. Não demorou para que outras moças de fino-trato seguissem a moda que acabou se espalhando por todas as camadas sociais.

Naquela época, sua outra vida, adorava lançar moda. Sentia um prazer inexplicável quando elogiavam seus vestidos, sapatos, chapéus, mas seu prazer era ainda maior quando, em vez de receber um elogio, identificava um olhar de inveja e nessas ocasiões, limitava-se a esboçar seu mais doce sorriso, pois sabia que mesmo aquelas que a invejavam, cedo ou tarde, acabavam se rendendo às suas inovações.

Nunca se esqueceria da noite em que, em meio a uma das frequentes recepções na mansão da família, acendera um cigarro. Todos os olhos em sua direção e depois em direção aos seus pais. “São os loucos anos 20” - ele havia dito entre os dentes muito brancos, cerrados em volta de seu charuto cubado, aprovando com um sorriso sob o bigode negro, lustroso e bem cuidado, a modernidade da filha.

Sua mãe, sempre distante, mas não menos orgulhosa, ergueu levemente a taça de champanhe em sua direção, brindando a tudo o que ela representava. Nina, filha mais nova do rico Sr. Manoel Garrilha, empresário do ramo têxtil, cercada de luxo e riqueza, desde muito pequena mostrou-se inteligente.

Tocava piano, era fluente em francês e inglês. Conhecia artes, lia os clássicos em versão original, conversava com desenvoltura tanto com as ricas senhoras da alta sociedade como com os finos senhores industriais. Era a joia mais brilhante em sua sociedade, a mais valiosa e a mais desejada, mas todos sabiam que a escolha seria dela, apenas dela, e ela tinha uma grande variedade para escolher. Nada parecia mais certo do que seu futuro confortável e feliz, cercada de luxo e de tudo que o dinheiro pode oferecer, mas o destino é tudo e a vida escolhe seus próprios caminhos.

Agora aquelas noites quentes, cheias de música e conversas, perfumadas pelas flores das laranjeiras que rodeavam o jardim, pareciam ter acontecido há centenas de anos, em outra vida, quando ela era outra pessoa, antes de tudo.

A mãe já não ligava a vitrola. Ninguém tocava o piano. O único som que chegava até ali eram os passos do pai acompanhados pelo bater rítmico da muleta que agora era obrigado a usar. Sabia que tudo isso devia causar-lhe tristeza, ou pelo menos remorso, mas não era isso que sentia.

Já não sentia nada, mas sabia que, se ainda fosse capaz de sentir, não seria remorso, não seria amor por seus pais, nem sequer saudades dos dias felizes, seria apenas aquela obsessão que já não podia existir.

Não pode haver obsessão quando o objeto do desejo deixou de existir. 

Sentiu um formigamento na coluna, resultado das horas em que passava sentada no beiral da janela olhando para o mundo lá fora através do vidro grosso e desnecessário. Não desejava fugir, não existia mais nada para ela lá fora. A única fuga que desejava era de si mesma.

Queria deixar a vida, mas continuava ali, dia após dia, e por alguns momentos tinha certeza de que iria enlouquecer, mas não existia misericórdia, não para ela, e sua mente continuava perfeita, com todas as lembranças para lhe atormentar.

“Isso só pode ser macumba, é trabalho forte!” - ouviu o sussurro das criadas que traziam mais uma refeição que não seria tocada. “Já vi isso acontecer antes, e só vai passar se uma boa mãe de Santo vier quebrar o trabalho, senão ela morre e não come. O bicho é ruim!”.

Era ela o bicho ruim?

Era o que alguns diziam. Os boatos tinham se espalhado e mesmo aqueles que a conheciam desde que nascera agora a temiam. As criadas subiam até o quarto no sótão para levar suas refeições sempre em duplas e com medo de se aproximar da porta de seu quarto, temiam o mal que, segundo diziam, tinha tomado conta dela.  

Levantou-se com dificuldade e colocou os pés descalços no chão gelado. Um arrepio percorreu sua coluna até chegar à nuca. Pegou o copo de água deixado através da pequena passagem aberta no canto inferior da porta, molhou os lábios que já se partiam e deitou-se no colchão fino. Sem lençóis, sem fronhas, travesseiros ou estrado. Não havia qualquer luxo ali... “Assim ela não vai cometer outra loucura” - foi o que o pai havia dito tentando esconder a dor daquelas palavras enquanto a levavam lá para cima.

Há muito tempo não via ninguém. Começava a se esquecer dos rostos, mesmo das pessoas que havia amado. Não que pensasse muito neles, mas quando relembrava tudo confundia o rosto da mãe com o da babá que, na verdade, tinha sido mais próxima dela do que a mãe jovem e bela. Lembrava-se vagamente do olhar sério do irmão mais velho e do sorriso meio debochado do mais novo. Do pai, de quem sempre fora muito próxima, só conseguia se lembrar do olhar petrificado que a havia encarado nos segundos antes do tiro certeiro. Olhos incrédulos.

Só não se esquecia daqueles olhos cinza que estavam gravados em sua mente e em cada pedaço de sua pele, como um perfume.

Fechou os olhos e tentou dormir, pediu por um sono sem sonhos, a ninguém especificamente, não acreditava em deuses ou em santos, e o sono veio.


(...)


- Parte II -
O dia estava quente demais para o inicio da primavera. Pela janela ela via as árvores que floresciam e enchiam o ar com seu perfume levemente adocicado e invadiam a casa através das janelas abertas. Os cheiros e aromas sempre chamaram sua atenção. Gostava de senti-lo nos alimentos antes de prová-los. Adorava o cheiro da canela, do coentro e do açafrão, uma de suas especiarias favoritas.

Em sua lembrança mais antiga ela ainda muito pequena caminhava de mãos dadas com a babá pela fazenda do pai, o céu completamente azul e a luz do sol refletindo seus raios nos cabelos dourados dos irmãos que corriam à sua frente. “Veja Nina, aquela é uma árvore de canela!” - disse a mulher e então apanhou uma folha verde da pequena árvore e a esmagou nas mãos, o perfume suave encheu o ar e ficou gravado em sua memória. Agora, o perfume de centenas de flores e plantas que tomavam conta da casa enchia o seu coração de paz tornando seu mundo perfeito ainda mais bonito.

Seu devaneio foi interrompido pela ponta da agulha afiada da modista que fazia os últimos ajustes no vestido que ela usaria naquela noite cutucando sua pele. A casa, que vinha sendo preparada há meses para aquela que seria a maior e mais comentada festa do ano, estava cheia de criados, floristas e cozinheiros, todos trabalhando no que parecia um caos ordenado.

Nina sabia que estaria deslumbrante naquela noite, mas começava a se sentir cansada com todo aquele barulho e agitação e assim que conseguiu se libertar do excesso de pessoas que orbitavam a sua volta, procurou refugio na biblioteca.

Não havia canto na casa que estivesse em silêncio, mas ali poderia pelo menos sentar-se sozinha. Há algumas dezenas de metros, os músicos contratados pelo pai a peso de ouro afinavam seus instrumentos no grande palco armado no jardim.

Na enorme mansão de paredes brancas e janelas amplas, com salas repletas dos móveis mais delicados e caros, a biblioteca com seu pé-direito alto e suas paredes abarrotadas de livros sempre fora seu lugar favorito e toda vez que entrava ali o ritual se repetia. Fechava-se naquele universo, acariciava as lombadas daqueles livros que nas bibliotecas das mansões da maioria das ricas famílias eram apenas objetos de decoração, mas que ali em sua casa faziam parte da sua vida desde muito cedo. Nina aspirava o cheiro do papel, da tinta e do couro e só então se jogava em uma das confortáveis poltronas forradas de couro marrom escuro que combinava perfeitamente com os móveis de madeira de lei que enriqueciam o ambiente.

Naquele final de manhã, cumpriu seu ritual e após acomodar-se em sua poltrona preferida, descalçou os sapatos e pegou seu exemplar de Ulisses. Sentiu os músculos de suas pernas relaxarem após horas em pé em frente ao espelho e entregou-se à leitura daquele livro que, censurado em vários países, havia sido presente do irmão mais novo que acabara de voltar de uma temporada em Paris e a tinha deixado extremamente satisfeita, pois seria uma das primeiras a ler aquele livro que havia causado tanto frisson e poderia opinar em primeira mão a seu respeito. Mais uma vez estaria um passo à frente.

Embalada pelas aventuras de Leopold Bloom e pelo som distante dos trombones e do piano, não se deu conta do passar das horas até que a pouca luz do fim do dia tornou difícil a leitura. Achou estranho que já estivesse anoitecendo lá fora  sem que ninguém tivesse vindo chamá-la para se preparar para a festa. Só então percebeu que a casa estava em completo silêncio. Levantou-se devagar, abriu as portas que davam para o longo corredor e chamou por uma das criadas. Não houve resposta. Caminhou para fora da biblioteca e seguiu até a sala de jantar pisando num chão que parecia de gelo e que a fez estremecer. Na sala principal, a mesa estava posta, mas uma escuridão lúgubre e densa rasgada apenas pelos fachos de luz fraca que atravessavam as cortinas dominava o lugar.

Caminhou até o hall de entrada que até poucas horas atrás estava repleto de pessoas trabalhando como em um formigueiro e que agora estava completamente deserto. “Mamãe? “Papai?” – chamou, mas não houve resposta. Sem entender o que estava acontecendo começou a sentir que aquela escuridão estava tomando conta do seu corpo e de sua alma e desejou sair dali.

Assim que chegou ao jardim percebeu que a grama sempre bem cuidada estava seca, como se não fosse molhada há muito tempo o que a fez ter certeza de que havia algo errado. O céu acima era uma cúpula negra sem lua ou estrelas. Nina caminhou entre as mesas prontas para a festa. Nos pratos de porcelana fina com o anagrama das famílias que se uniam desenhado em filetes dourados a refeição já servida descansava intocada.

O silêncio denso foi invadido pelo som do farfalhar de asas. Então Nina percebeu que sobre o espaldar da cadeira colocada no lugar de honra reservado aos noivos uma pomba havia pousado. A presença da pequena ave branca pareceu dissolver aquele cenário obscuro e sem sentido. Enquanto Nina se aproximava, a pomba desceu em direção à mesa. Ela, então, estendeu sua mão para tocar a pequena cabeça branca quando percebeu que a ave bicava algo que parecia um pedaço de carne crua e ensanguentada que estava sobre a mesa, manchando a toalha alva. A ave antes imaculadamente branca agora estava tingida de escarlate e gotas vermelhas pingavam de seu bico fino.

Ao compreender aquela cena, Nina recuou enojada e levou as mãos à boca sentindo a ânsia a dominar, então percebeu que suas mãos estavam cheias daquele líquido vermelho e viscoso. Sentiu uma pontada de dor e só então notou o grande corte aberto em seu peito, de onde o sangue jorrava em abundância.

O grito de desespero foi sufocado pelo toque delicado e suave dos dedos gelados de sua mãe em seu rosto. “Vamos Nina, está na hora”, ouviu a voz distante enquanto ainda se sentia presa entre a consciência e o pânico causado por aquele sonho agourento.


(...)

- Parte III -
            “Uma noite extraordinária, sem dúvidas!” – concordou o pai da noiva enquanto apertava com seu vigor habitual a mão de um dos muitos convidados que enchiam a mansão, cada um deles escolhido a dedo entre a mais nobre elite do país, alguns vindo de longe para prestigiar o noivado dos filhos de duas das famílias mais ricas e poderosas, naquela que prometia ser uma noite inesquecível.

A mansão estava totalmente iluminada. Os talheres de prata, as taças de cristal e o jogo de louça com as iniciais das famílias que se uniam gravadas em letras douradas e encomendado especialmente para a ocasião estavam postos à mesa. Tapeçarias finas cobriam o chão de mármore, champanhe borbulhava nas taças das senhoras e uísque dançava entre as pedras de gelo nos copos dos senhores. Caviar, lagosta, camarões, bombons finos e delicadas tortas de frutas feitas pela melhor boulangerie da cidade eram servidos à vontade. Até mesmo os criados vestiam uniformes novos, impecavelmente brancos e desenhados especialmente para aquela ocasião.

Nina havia planejado cuidadosamente cada detalhe daquela noite, inclusive o noivo. Uma escolha pensada e devidamente calculada dentre tantos pretendentes que lhe faziam a corte, e que atendia perfeitamente aos planos que tinha traçado para si mesma. Inácio Giafrani era neto de fazendeiros e filho de um importante político, mas, apesar de ter crescido em meio à riqueza e à elite nacional, não era como os outros de sua espécie. Leitor voraz era um intelectual apesar de contar apenas 25 anos. Tinha estudado direito na melhor universidade do país, era fluente em tantas línguas quanto a noiva e, apesar disso tudo, tinha bom humor.

Nina sabia que ela também tinha sido para ele uma escolha pensada. Com seus planos de graduar-se mestre na Universidade de Coimbra, queria uma esposa capaz de acompanhá-lo com desenvoltura no meio acadêmico e, dentre a fina-flor da sociedade, ninguém poderia desempenhar o papel com mais maestria do que ela.

Seria um casamento sem a paixão arrebatadora dos amantes e por isso mesmo tinha tudo para dar certo. As famílias ficaram em êxtase quando os jovens anunciaram o noivado. Nada poderia agradar mais ao pai da noiva e nada poderia ser mais interessante para o pai do noivo.

O jantar foi servido no jardim. Os convidados puderam dançar a noite toda ao som da melhor banda de jazz do país. No enorme hall de entrada uma fortuna em presentes se acumulava. Dezenas de caixas elegantes contendo cristais, louças, tapetes, garrafas de vinhos caros e até iguarias raras em uma grande mostra de tudo o que era belo e de bom gosto e que demonstrava que os ricos convidados não haviam medido esforços para agradar aos noivos e, mais ainda, aos pais dos noivos.

Apesar da grandiosidade, a festa de noivado teve a elegância suave que caracterizava Nina e Inácio. Ela em um lindo vestido Chanel de seda azul clara, trazido de Paris para a ocasião e ajustado diretamente em seu corpo, combinando perfeitamente com o conjunto de colar e brincos de pérolas, presente da mãe e um ícone da moda naquele momento. Seus cabelos haviam sido escovados até reluzir, seus olhos brilhavam de orgulho e seu sorriso de dentes perfeitamente brancos expressava toda a sua felicidade. Ele em um magnifico terno italiano de três peças e corte perfeito. Sobre a camisa azul a gravata em azul mais escuro, tom sobre tom. Os cabelos negros e cacheados penteados para trás, seus olhos vivos, negros e inteligentes.

Na hora de receber a aliança, até mesmo Nina ficou surpresa com o Cartier de ouro branco com um enorme diamante incrustado. Magnífico. 

A noite havia sido perfeita e as colunas sociais comentariam o acontecimento por vários dias. Outras noivas copiariam sua festa, seu vestido, sua maquiagem, mas poucas poderiam ter um anel como o que ela agora trazia no dedo anular.

Os últimos convidados deixaram a mansão ao raiar do dia. Nina se despediu do noivo com um beijo casto. Estava exausta pelas emoções da noite e por todo trabalho que tinha tido para que a festa fosse perfeita. Despiu-se com calma. O vestido deslizou por seu corpo languido e pousou aos seus pés, então, vestindo apenas sua própria pele, ela deitou-se entre os lençóis de seda procurando por um sono que veio rápido.

Foi despertada pelas primeiras luzes do dia que entravam pelas frestas da janela e iluminavam a casa que ainda respirava à festa. Sem planos para aquele dia e sabendo que o sono já havia a deixado, decidiu levantar-se. Fez a toalete e vestiu-se com simplicidade. Desceu pela enorme escadaria de degraus brancos e chegou ao salão principal onde um exército de criados tratava de limpar tudo. Mordiscou uma torta de morango que repousava sobre a mesa com a tranquilidade serena daqueles que tem o mundo nas mãos e seguiu para a biblioteca lambendo o creme doce e apreciando o aroma de baunilha nos dedos.

Ao chegar à biblioteca descobriu que naquela manhã seu refugio estava comprometido. As dezenas de caixas de presentes trazidas pelos convidados na noite anterior agora estavam armazenadas ali ocupando todo o espaço.

Com grande dificuldade resgatou seu Ulisses e o levou ao jardim onde se sentou e tentou iniciar a leitura, mas a presença daquele exército que se movia sem parar a deixou incomodada. Levantou-se e caminhou pela trilha de cascalho branco até o portão de ferro fundido e ornamentado com as iniciais do nome do pai. Observou a rua de paralelepípedos deserta e emoldurada pelos casarões onde grande parte da fortuna do país residia.

Sem pensar e sem saber ao certo para onde ia saiu para a calçada de pedras seguindo o caminho que há muito não percorria até que, algumas dezenas de metros depois, chegou àquele lugar ladeado por um pequeno muro de pedras encimado por altas grandes de ferro fundido e adornadas com arabescos infinitos. O Jardim Ângela era um parque público destinado à recreação dos filhos das famílias ricas do bairro, onde as crianças podiam brincar e correr sob o olhar de um exército de jovens babás vestidas de branco.

Sob o arco que marcava a entrada do jardim um homem baixo, de bigode preto e terno puído destoando de toda a riqueza a as volta, vendia balões coloridos e pipoca doce para as crianças que formavam fila. Ao passar por ele Nina inspirou fundo o cheiro do caramelo que dominava o ar e se lembrou de quando era criança e também brincava naquele lugar que lhe parecia encantado.

Logo na entrada, uma praça circular se formava com um magnifico chafariz adornado por uma dezena de anjos que miravam o céu com seus olhos piedosos enquanto que da sua base tocada de leve pelos pés descalços daquelas criaturas aladas nasciam jatos de água que formavam círculos no ar e que, ao cair, faziam surgir centenas de pequenos arco-íris enquanto crianças vestidas com esmero corriam a sua volta.

Nina pensou em se sentar em um dos poucos bancos vazios que circulavam a praça formando uma barreira que represava o mar de árvores que dominava o espaço logo atrás, mas percebeu que naquela manhã de domingo desejava ficar em silêncio. Escolheu ao acaso um dos muitos passeios que nasciam na praça e avançavam para o interior da floresta de bétulas centenárias e se perdiam em direção ao emaranhado de árvores e continuou caminhando enquanto a algazarra das crianças foi ficando para trás até se tornar um pequeno zumbido distante.

Inspirou os aromas que inundavam o ar: umidade, musgo, flores, folhas. A pouca luz do sol que penetrava ali após vencer a barreira de folhas verdes que formavam a abóbada sobre aqueles corredores refletia-se na umidade das lajotas decrépitas sob seus pés fazendo o caminho à sua frente parecer forrado por pequenas pedras de brilhante.

Os vários bancos distribuídos pelo caminho foram rareando a medida em que ela se distanciava da entrada do parque e, apesar do ar de abandono que ia tomando conta do lugar, continuou caminhando em direção às entranhas daquele bosque feito de solidão enquanto ouvia o som suave da brisa que dançava entre a folhagem das árvores e plantas a sua volta e saboreava a tranquilidade que somente a solidão daqueles que aprenderam a ser bons companheiros de si mesmos proporciona. 

Quando criança tinha perambulado centenas de vezes com os irmãos pelos recantos daquele lugar que às vezes parecia saído de um conto de fadas e que tinha sido o cenário perfeito para suas aventuras. Caminhou até chegar a um nicho que parecia não ter sido visitado por viva alma há muito tempo e que imitava a entrada circular do parque em versão reduzida.

De repente uma lembrança há muito perdida voltou à sua mente. Lembrou-se com perfeição do dia em que ela contava cerca de cinco anos, suas perninhas estavam cansadas de correr atrás dos irmãos envolta do grande chafariz uma infinidade de vezes sem nunca alcançá-los. Aborrecida, sentou-se sozinha no chão observando o desenho que os jatos de água nascidos dos pés daquelas belas criaturas formavam no ar, estava perdida em seus pensamentos quando ouviu um sussurro, como se o vento a estivesse chamando. Olhou para trás. Não havia ninguém ali, mas novamente ouviu aquele chamando que parecia vir do bosque.  

Levantou-se e caminhou até o limite entre a praça e o emaranhado de árvores que surgia ali e que se multiplicava até o infinito. Um minuto de descuido da babá e ela adentrou por um daqueles caminhos, seguindo o sussurro que chamava seu nome. Andou por vários minutos sozinha, sem sentir medo, até que chegou a um daqueles nichos arredondados que se espalhavam pelo interior do bosque e onde sempre havia um pequeno chafariz e a estatua de um anjo solitário.

Sentou-se em frente àquela imagem tão perfeita que a observava profundamente e que a hipnotizou. Não sabe por quanto tempo permaneceu ali até ser despertada daquele transe pela babá desesperada que, ao encontrá-la, levantou-a no colo com lágrimas nos olhos. “Nina querida, porque você saiu de perto de mim sem me avisar? Nunca mais faça isso!”. A menina sorriu e apontou em direção às costas da babá. “Ele me chamou” - disse. A mulher assustada olhou para trás apertando a menina contra o peito, procurando a sua volta por alguém que estivesse ali, mas não havia ninguém além daquela figura alada. “Não há ninguém aqui Nina, vamos embora. Vamos para casa”.

A lembrança daquela pequena travessura e de sua imaginação fértil a fez sorrir e decidiu  sentar-se ali. Havia um único banco naquele local tranquilo que parecia esquecido até pelo pessoal responsável pela manutenção do parque e, apesar do abandono, a solidão que ali reinava absoluta tornava aquele recanto o local perfeito para a leitura. Assim, sem ser incomodada e imersa naquele silêncio onipresente, Nina se entregou novamente às aventuras de Leopold Bloom.

Perdeu-se na leitura sem ver o tempo passar. Era assim sempre que se dedicava àquilo que mais amava na vida, ler. Era como se deixasse seu próprio corpo e viajasse para aquele mundo feito de letras, tinta e papel, onde permanecia até que os olhos se negassem a continuar lendo. Após ler dezenas de páginas ela pousou o livro no colo e fechou os olhos que ardiam para descansá-los enquanto se concentrava no som dos pequenos insetos que vagavam pelo bosque ao seu redor.

Naquele lugar onde o tempo não existia, ela inspirou e expirou com calma, sentindo o ar entrar e sair dos pulmões e ouvindo as batidas compassadas do seu coração. Sentia-se completamente relaxada e permaneceu assim por vários minutos, até que ouviu aquele sussurro outra vez. “Nina”. Abriu os olhos assustada, olhou em volta, mas não havia ninguém ali, ou ao menos ninguém que seus olhos pudessem ver. Estava completamente sozinha, mas podia sentir em sua pele o olhar de alguém que a observasse sem ser visto.

Aquela sensação fez seu coração disparar. Sentiu a necessidade de sair dali o mais rápido possível. Levantou-se, contornou o pequeno chafariz que ocupava o centro do nicho e seguiu em direção ao caminho que tinha percorrido para chegar até ali e que a levaria de volta para a entrada do parque, onde encontraria a segurança da multidão.

Antes de seguir em frente e sem se livrar da certeza de que alguém a observava olhou uma última vez para trás, como se para atender a um chamado silencioso, e a única coisa que viu foi o anjo de pedra que, com seus olhos cinza, olhava diretamente para ela. 

(...)

Parte IV -
Nina deixou o Parque Ângela para trás e com passos apressados dirigiu-se para a casa onde passou o resto do dia perdida em seus pensamentos. Não sabia se o que tinha acontecido naquela manhã era real ou se era uma peça que sua mente tentava lhe pregar, talvez seu inconsciente revivendo aquela experiência de quando ela era apenas uma menina, afinal, apesar de não se lembrar de como tinha se sentido depois de ter sido encontrada pela babá, sabia que para uma garotinha de cinco anos aquela poderia ter sido uma experiência traumatizante, mas quanto mais pensava no assunto, mais confusa se sentia.

Durante todo aquele dia, nada lhe pareceu bom. Reclamou do suco de laranja que uma das criadas lhe serviu no jardim assim que ela voltou para casa, reclamou do tempero no almoço e desistiu de jantar quando percebeu que o problema era ela e a lembrança daqueles olhos que pareciam ainda observá-la.

Os pais logo perceberam que havia algo de estranho e se apressaram em culpar Inácio pelo mau humor da filha, afinal ele tinha se retirado para a capital a fim de tratar de assuntos de seu interesse apenas um dia após a festa de noivado. Tentando melhorar o humor da filha a mãe sugeriu que naquela noite fossem todos ao teatro. Nina, mesmo sem o entusiasmo que sempre demonstrava em tais ocasiões, aceitou o convite pensando que, sendo o teatro uma de suas paixões, poderia ser uma forma de libertar sua mente daquela visão que insistia em atormentá-la.

A presença da família Garrilha em qualquer evento social sempre causava euforia. Naquela noite não foi diferente. Chegaram ao teatro municipal no Rolls Royce negro da família, com seus bancos de couro cor de creme e que era reservado para as ocasiões especiais quando era polido até brilhar e era guiado por um motorista vestindo um impecavelmente uniforme azul escuro.

O patriarca da família trajava um smoking feito sob medida com abotoaduras de ouro e exibia um de seus magníficos relógios no pulso, peça que fazia parte de sua coleção lendária. Sua bela e esguia esposa vestia-se como uma rainha, seus cabelos louros e sedosos emolduravam o rosto fino e anguloso enquanto sobre o busto resplendente descansava um colar de finas pedras preciosas e, ofuscando a todos, Nina.

Naquela noite, Nina usou um vestido vermelho tipo sereia que acentuava com delicadeza e elegância as belas curvas de seu corpo, os ombros brancos à mostra estavam protegidos por uma echarpe de pele castanha. Brincos delicados e um colar discreto permitiam que o destaque ficasse por conta do enorme diamante preso à aliança que evolvia seu dedo anular. Mais uma vez ela estava perfeita, mais uma vez ela seria o centro de toda a atenção e despertaria a inveja das moças e o desejo dos homens que, após o seu noivado, estaria ainda mais aguçado.

Apesar dos pensamentos que a torturaram durante o dia, Nina desfrutou cada minuto da noite, desde a escolha do vestido, das joias, do sapato, a arrumação do cabelo, a chegada em grande estilo, os olhares e murmúrios que a acompanharam enquanto se dirigia ao camarote da família.  

O espetáculo esplêndido a levou para longe e a fez viver, por algumas horas, aquela outra vida que era representada no palco, riu e se emocionou até que os aplausos e gritos de “bravo” trouxeram-na de volta à realidade. Enquanto descia a escadaria de mármore de braços dados com o pai e a multidão abria caminho para sua família passar sentiu a felicidade leve que tomava conta de seu ser sempre que fazia uma daquelas coisas simples que fazem a vida valer a pena.

O carro da família não demorou a chegar. A noite estava quente e o pai mandou que o capô fosse aberto, assim poderia exibir sua família exuberante. O carro arrancou e Nina sentiu o vento em seu rosto enquanto sorria de algum comentário feito pela mãe e passava os olhos pela multidão que dominava o passeio público. Observava o mar de gente aglomerada sem ver ninguém até que, em meio a todas aquelas pessoas, reconheceu aqueles olhos cinza que a observavam do outro lado da rua e que se manteve assim até ela os perder de vista, os mesmo olhos que a observaram durante o dia todo.

O pai, ao perceber a palidez no rosto da filha, perguntou “Você está bem, querida?”. O leve toque em suas mãos a tiraram do devaneio. “Sim papai, apenas cansada” - respondeu ela sem conseguir esconder a perturbação na voz.

“Então vamos direto para casa” – disse o pai dando sinal ao motorista para acelerar.

(...)

- Parte V -
Uma transformação paulatina, mas profunda tomou conta de Nina nos dias que se seguiram a grande festa de noivado. Não demonstrou qualquer interesse pelos comentários das colunas sociais que, como ela havia previsto, avaliaram a exaustão cada detalhe daquela noite espetacular por vários dias.

A cada dia, ela parecia mais distante e ausente. Passava horas sentada à beira da janela de seu quarto ou no jardim olhando para o vazio lá fora. Havia abandonado Ulisses sem finalizar a leitura e quando foi questionada pelo irmão sobre sua opinião acerca daquele livro que tinha causado tanta comoção se limitou a dar de ombros com um sorriso débil.  

Sentia-se como se estivesse presa em um sonho do qual não conseguia acordar. Tudo aquilo que sempre lhe interessou de repente perdeu a graça e era fácil notar que, com a proximidade do anoitecer, seus olhos se enchiam de ansiedade e algo que parecia medo.

Aos poucos, durante os serões na mansão, sempre tão animados por sua presença contagiante, quando ela não perdia a oportunidade para manifestar sua opinião sobre diversos assuntos em acalorados debates com os convidados, foi se tornando silenciosa e melancólica. Não demorou a que deixar de se alimentar devidamente e para que profundas olheiras surgissem em volta de seus olhos se destacando sob sua pele branca e lisa.

Nina não contou a ninguém, nem mesmo para Inácio, sobre suas noites de insônia, quando se deitava na confortável cama somente para passar as horas olhando para o teto, pressentindo que algo se aproximava. Algo que ela temia e pelo que ao mesmo tempo ansiava. Algo que ela sabia que não poderia evitar e que, a cada noite, parecia estar mais perto.

Durante o dia questionava sua lucidez, mas não se permitia falar sobre aquilo com ninguém, pois não suportaria que um médico qualquer diagnosticasse aquilo tudo como um simples episódio de histeria, mal que era comumente atribuído a todas as mulheres que não se encaixavam no padrão de normalidade estabelecido pela sociedade.

A noite, quando sentia que estava sendo observada, a certeza de que seu destino estava traçado a dominava. Começou a acreditar e a esperar que o que quer que fosse, em algum momento chegaria até ela e dominaria tudo, então passou a desejar que esse momento chegasse logo e colocasse um fim àquela espera que a torturava.

Numa daquelas noites, quando a escuridão que dominava seu quarto era atravessada por um único facho de luz e ela já havia se acostumado com aquela presença que habitava a sombra à sua volta ousou perguntar. “Quem é você? O que é você? Porque está aqui? Porque não me deixa em paz?”. Sentiu os pelos da nuca arrepiados quando da penumbra uma voz que ela parecia conhecer desde sempre respondeu “Você sabe quem sou eu. Estou aqui por que isso é o que você sempre quis”.

Desde aquela noite o medo começou a dar lugar à ansiedade. Aos poucos, a cada noite, aqueles olhos cinza começaram a se materializar e na penumbra Nina podia ver a boca fina e muito vermelha, a pele tão branca e sem marcas, os olhos que brilhavam. Sua voz era suave e parecia uma melodia. Sua beleza era luminosa e inacreditável, quase indescritível. Agora passava as noites sendo observada, mas também observando até que, pouco antes do amanhecer, adormecia e quando acordava já não podia vê-lo, mas sabia que ele ainda estava lá, como se tivesse se tornado uma parte dela.

Não demorou muito para que, numa daquelas noites quando a presença daquele ser já tinha se tornado tão natural quanto o calor que parecia aumentar seu delírio, levantou-se da cama e foi em sua direção. Foi até ele sem dizer qualquer palavra, os olhos fixos naqueles olhos profundamente cinza, que pareciam conter toda a beleza do mundo, que não se desviaram dos olhos dela nem por um instante e que pareciam penetrar em cada pedaço de sua pele.

Ela estendeu as mãos até tocar aquele rosto frio, o coração disparado e todos os pelos de seu corpo arrepiados. Fechou os olhos quando a proximidade revelou seu perfume inebriante. Sentiu os braços fortes que a envolviam com força e a levaram para perto dele. As bocas se tocaram e Nina entrou em êxtase, já tinha sido beijada por Inácio e até por outros homens, beijos escondidos e roubados, mas nunca tinha sentido nada parecido e sequer sabia que era possível sentir-se daquela forma. Então, soube que estava perdida. 

Na manhã seguinte, acordou cedo e cheia de apetite pela primeira vez em muito tempo, sem sequer notar o estranho cheiro de flores mortas que dominava o interior da mansão seguiu até a cozinha sentindo-se faminta. Estranhou que o café da manhã ainda não estivesse posto à mesa, e quando perguntou a uma das criadas a razão daquele atraso soube que todos os alimentos da casa haviam amanhecido estragados. “Deve ser o calor. Azeda tudo!” a governanta tentou explicar sem muita certeza.

(...)

- Parte VI -
Nina era sempre evasiva quando a mãe a questionava sobre quando iriam iniciar os preparativos para o casamento e, toda vez em que esse assunto surgia, ela dava um jeito de se retirar. Diante da incompreensão da mãe com o comportamento da filha o pai dizia rindo “O sacro instituto do matrimônio consegue assustar até mesmo Nina, a quem nada assusta!”.

Desde o dia em que soube que estava perdida para sempre, Nina entendeu que aquele casamento não poderia acontecer, ela nunca poderia entregar a Inácio algo que já não lhe pertencia. Sabia que em algum momento teria que resolver aquele assunto e a incansável insistência da mãe a lembrava que o momento estava chegando. Então, sem qualquer aviso, tomou sua decisão. Nunca fora indecisa em sua vida e não seria agora. Se a decisão era sua, como o pai sempre havia dito, não precisava de autorização para escolher o caminho que iria seguir.

Foi até a biblioteca e, com sua letra firme, escreveu para Inácio naquele papel de carta em tom rose com suas iniciais gravadas no alto.
                                                              
Prezado Inácio,
Serei direta, pois sei que não há jeito fácil de lhe dizer que já não posso ser sua esposa. Não posso lhe dar o que não me pertence, já que me foi roubado. Devolvo o anel que me deu e espero que o entregue a alguém capaz de lhe fazer feliz.
Adeus,
Nina

Dobrou o papel com cuidado, colocou-o dentro de um envelope juntamente com o Cartier incrustado com o diamante e, sem sentir qualquer remorso ou sombra de arrependimento, chamou uma das criadas e pediu que a correspondência fosse levada ao correio ainda naquela manhã, então, como se estivesse livre de um peso que parecia sufocá-la há vários dias, esperou o anoitecer chegar.

(...)

- Parte VII - 
Eles estavam deitados na cama lado a lado, os corpos nus muito juntos, enquanto os dedos longos tocavam com delicadeza cada parte do corpo esguio e branco de Nina. Seus olhos fixos nos olhos cinza, perdidos naquele olhar que tinha se tornado a razão de seus dias até que o encantamento foi quebrado pelas batidas violentas na porta do quarto.

“Nina, abra essa porta!” – gritou o pai segundos antes de arrobar a porta e invadir o quarto a tempo de perceber o que pareceu um vento forte nascido no interior daquele aposento deixar o lugar em direção ao céu noturno, abandonando atrás de si as janelas escancaradas.

Com seus passos largos e duros, o pai foi até a janela apenas para confirmar que era impossível que alguém tivesse deixado o quarto que ficava há cerca de seis metros do chão por aquele caminho. Contemplou a escuridão por alguns instantes a procura de algo que não poderia ser visto, certo de que havia alguém ali mesmo que não pudesse ser visto, então, sem compreender o que estava acontecendo, virou-se em direção a filha.

Seus olhos estavam cheios de fúria. Sentiu o rubor na pele do rosto que ardia ao se lembrar da humilhação que passara ao ser confrontado pelo pai de Inácio naquela noite no Clube Equestre, diante dos respeitáveis senhores que sequer disfarçaram a satisfação que sentiram ao compreender que o grande Manoel Garrilha tinha sido enganado pela própria filha que, segundo o conteúdo da carta que foi passada de mão em mão fazia crer, havia se desgraçado, provavelmente com um qualquer, bem debaixo do se nariz e que tinha tido o disparate de romper o compromisso sem sequer comunicar ao pai.

“Quem estava aqui Nina? O que significa isso?” – urrou com uma violência que ela não conhecia, enquanto mostrava a carta que ela havia mandado para Inácio há alguns dias e que agora estava esmagada entre os seus dedos.

Nina, que agora estava sentada em sua cama muito ereta, olhava em direção à janela parecendo não se dar conta do que acontecia a sua volta até que sua mãe, guiada pelos gritos totalmente incomuns naquela casa, entrou no quarto e, antes de entender o que estava acontecendo, levou as mãos a boca assustada no momento em que Nina se levantou deixando à vista o corpo nu.

“Nina, por Deus minha filha, quem fez isso com você?” – perguntou com a voz chorosa correndo em direção à filha.

Só então o pai notou as dezenas de cortes vermelhos e profundos que maculavam aquele corpo de marfim. Eram tão finos que pareciam feitos por um bisturi. Alguns haviam se transformado em marcas arroxeadas por terem cicatrizado sem os cuidados necessários, enquanto que outros ainda sangravam e abundancia.

Nina olhou para os cortes que cobriam seu abdome como se os visse pela primeira vez. Tocou-os com a ponta dos dedos quem ficaram embebidos em sangue, aproximou-os dos olhos sem compreender o que aquilo significava e, então, perdeu os sentidos.

(...)

- Parte VIII -
Quando Nina abriu os olhos, sua visão estava embaçada e ela não conseguiu focalizar nada à sua volta. Tentou se levantar, mas não teve forças. A criada que velava seu sono, ao perceber que ela havia despertado, se apressou em chamar a mãe que veio correndo e se ajoelhou ao seu lado na cama.

“Nina, minha filha.” – disse a mãe segurando as mãos entre as suas e a beijando com um carinho que até então nunca havia demostrado pela filha ou por qualquer outra pessoa, os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada – “Estou tão preocupada minha querida, você precisa nos dizer quem fez isso com você, quem te machucou.”

Ao ouvir isso, Nina puxou as mãos com força. Fechou os olhos novamente e tentou invocar a imagem dos olhos cinza, mas por mais que se esforçasse, não conseguia vê-lo. Não o via e também não sentia sua presença. Um vazio tomou conta dela, sentiu-se totalmente sozinha. Lágrimas quentes brotaram de seus olhos e escorreram por seu rosto.  Será que nunca mais o veria?

Ouviu os passos do pai se aproximando até que ele se sentou ao seu lado na cama. “Nina, fale comigo, por favor, sou eu... seu pai. Me diga quem fez isso com você? Me diga o que está acontecendo...” - pediu com calma, tentando disfarçar a raiva que o dominava.

Nina permaneceu em silêncio diante das suplicas da mãe e da insistência do pai. Não disse uma palavra, não aceitou comida nem bebida. Ficou assim até a noite chegar e quando percebeu que aqueles olhos cinza que ela adorava não viriam lhe visitar, decidiu sair dali, deixar para trás aquele quarto que a aprisionava e ir até o Parque Ângela em busca dele, pois sabia que sem ele não existia razão para viver.  

O quarto estava em silêncio, a escuridão quebrada pela luz tênue de um pequeno abajur sobre o criado-mudo ao lado da cabeceira da cama, a porta continuava escancarada. Numa cadeira próxima, uma criada cochilava. Nina levantou-se com cuidado, sem fazer barulho, ainda se sentia fraca, mas conseguiu firmar seus pés no chão. Deu alguns passos vacilantes, mas não parou, estava determinada. Apoiou-se na parede e caminhou em direção a porta. A luz forte do corredor fez seus olhos arderem, mas ela continuou em direção à escadaria de mármore.

Desceu os degraus devagar e com cuidado, apoiando-se no corrimão dourado, ao chegar ao hall, ouviu as vozes dos pais e dos dois irmãos na sala ao lado. Falavam sobre ela. Havia, ainda, uma terceira voz que ela reconheceu como sendo a voz do médico da família e que soava preocupado e exausto, provavelmente estava ali para cuidar dela desde a noite anterior. Mas ela não precisava de cuidados médicos e estava certa de que eles nunca entenderiam isso.

Seus pés descalços não fizeram qualquer barulho enquanto ela atravessava o hall e saia pela enorme porta de madeira pintada de branco que se abria para o jardim. O ar quente da noite invadiu seu pulmão, respirou fundo sentindo-se revigorada. O cascalho branco que cobria o caminho que levava até o portão machucava seus pés, mas ela continuou andando naquela direção.

“Nina” – reconhece a voz do pai gritando quando ela estava há poucos metros do portão de ferro fundido. Continuou caminhando sem sequer olhar para trás até sentir os braços do irmão mais novo a agarrando pela cintura.

“Me deixe em paz, me deixe... ele está lá... ele está me esperando. Me deixe ir...” – ela gritava e se debatia com violência tentando se livrar daqueles braços fortes que a levantaram do chão, a arrastaram para dentro da casa e a abandonaram num dos sofás da sala, sob os cuidados da mãe e do médico, sem qualquer esforço.

Viu quando o pai passou por ela com a arma em punho e saiu em direção à noite, seguido pelos dois filhos. Após alguns segundos, ouviu o som de diversos disparos e um lamento que não parecia humano e que fez seu coração doer.

Assustados, o médico e a mãe a deixaram no sofá e foram até as enormes janelas que se abriam para o jardim, para ver o Sr. Manoel Garrilha que, com um olhar louco, gritava desafiando o bastardo que havia desgraçado sua filha a vir até ali e receber aquilo que merecia.

A atenção de todos foi desviada para a agitação que tomou conta do pomar que cobria a ala norte do jardim, como se um animal de grande porte corresse entre as árvores. O pai de Nina mirou mais uma vez, agora em direção àquelas árvores de onde, em outra vida, sua filha colhia os frutos diretamente do pé se deliciando com todos aqueles aromas, mas, antes que pudesse disparar o último tiro, ele ouviu a voz que da entrada da mansão chamava por ele, virou-se a tempo de ver a arma nas mãos de Nina apontada em sua direção, encarou-a com o olhar petrificado sem poder acreditar, segundos antes de o tiro certeiro estraçalhar seu joelho.  

(...)

 - Parte IX -
Aquele dia que parecia feito de cristal amanheceu envolto em um céu extremamente azul, enquanto uma brisa gelada anunciava a chegada do outono. Os criados ainda sonolentos já haviam iniciado suas tarefas quando o profundo silêncio daquela manhã foi quebrado pelo som de uma voz suave que cantarolava a melodia de uma cantiga infantil tão antiga quanto o tempo e que ecoava por toda a mansão enchendo cada um de seus cômodos e relembrado aos criados mais antigos os dias em que Nina era apenas uma garotinha.

       Uma profunda melancolia se abateu sobre todos ao perceberem que era ela quem cantarolava do alto de sua prisão. “Quando a menina era pequena, ela vivia cantando essa canção” comentou uma das criadas com os olhos marejados.

        O som doce que evocava um passado feliz despertou o senhor e a senhora Garrilha. O pai abriu os olhos sorrindo como não fazia desde o aquele incidente terrível que o tinha deixado manco para sempre e quando compreendeu que a voz que cantarolava aquela canção era a voz de sua filha teve certeza de que sua menina tinha voltado para ele.
        
       “Nina” - disse levantando-se rapidamente e se cobrindo com o roupão de seda azul enquanto subia os degraus que separavam sua filha do mundo o mais rápido que sua perna ferida lhe permitia, seguido pela mãe que, pela primeira vez em sua vida, deixara o quarto de dormir sem se maquiar.

Quando chegaram à porta do quarto de Nina, se depararam com duas criadas que estavam lá para levar o desjejum e que, ao perceberem que era ela quem cantarolava, não conseguiram fazer nada além de ficar ali paradas, ouvindo aquela melodia que parecia encantada.

Por alguns instantes os quatro hipnotizados pela canção permaneceram apenas ouvindo aquele som suave até que a paz que foi quebrada pelo barulho de vidro estilhaçando.

O pai imediatamente avançou em direção a porta que estava trancada. “Rápido, onde está a chave?” - perguntou às criadas que com as mãos tremulas tentavam encontrar a chave certa no molho formado pelas dezenas de chaves que abriam as dezenas de portas da mansão.

“Rápido mulher!” – disse o pai impaciente e, diante da demora, começou a esmurrar a porta tentando sem sucesso arrombá-la como havia feito alguns meses antes.

“O que está acontecendo?” – perguntou a mãe sentindo que algo terrível estava prestes a acontecer.

Quando, enfim, uma das criadas encontrou a chave certa e a porta foi aberta, o pai entrou a tempo de ver Nina sentada no parapeito da janela, de costas para a entrada do quarto, as pernas soltas do lado de fora, atrás dela o chão estava coberto por cacos daquele vidro espesso que, de alguma forma, ela havia conseguido quebrar.

“Nina... Nina, minha filha, por favor, olhe para mim querida...” – suplicou o pai compreendendo o que a filha pretendia.

Nina olhou uma última vez para trás e sorriu com serenidade.

E, então, subitamente ela se foi, como se sua alma rodopiasse com as folhas que eram levadas pelo vento subindo em direção à liberdade do céu azul e, sendo a morte a cura permanente para as dores passageiras, ela enfim podia voar.

(...)

- Final -
            “Marina este lugar é lindo! É a sua cara! Realmente vai ser o casamento do ano!” – comentou enquanto faziam uma selfie para registrar o momento.

            “Também adorei. Meu pai tem bom gosto! E acho que combina perfeitamente com nós dois! Imagina esse chafariz à noite totalmente iluminado! Ainda bem que meu pai decidiu restaurá-lo, o paisagista queria transformar ele num jardim central, retirar as estátuas e tal... mas meu pai insistiu em mantê-lo... Ele vai ficar lindo agora que foi restaurado e todos vão passar por ele quando chegarem para a festa... Acho que ele dá um charme clássico ao lugar, não acha?” – perguntou Marina sorrindo.

            “Concordo totalmente. Aliás, foi uma ótima ideia comprar essa área e transformá-la assim. Seu pai é um empreendedor mesmo e estrear o lugar com o seu casamento foi um golpe de mestre da publicidade, de agora em diante todas as noivas da cidade vão querer se casar aqui!!” – falou Bia enquanto postava a selfie.

            Marina sorriu reconhecendo que o pai era, realmente, um gênio. O celular emitiu um som anunciando a chegada de uma mensagem. “Ah, meu Deus Bia, a florista acabou de me mandar um whatssap, está presa no trânsito, vai atrasar pelo menos quarenta minutos e você tem hora marcada no cabeleireiro, não tem?”.

            “Tenho sim... mas tudo bem. Não vou te deixar sozinha para tomar uma decisão tão importante como a escolha das flores da cerimônia! Eu perco meu horário e remarco...” – disse Bia colocando a costa das mãos na testa e fazendo graça como se estivesse prestes a um grande sacrifício.

            “Nada disso! Eu sei como é difícil conseguir um horário com os meninos e, para dizer a verdade, a sua raiz já está aparecendo, precisa retocar!” – brincou Marina.

            “Isso é verdade. Eu preciso mesmo dar um retoque no meu cabelo, até o Marcos já percebeu minha raiz e olha que os homens nem sabem o que é isso!” – a duas riram.

            “Pode ir Bia, de verdade!” – insistiu Marina.

“Me sinto uma péssima amiga te deixando aqui sozinha!” – disse Bia com sinceridade.

“Bia, por favor... tenho certeza que tenho o mínimo de bom gosto para escolher as flores sozinha!” – protestou Marina.

“Disso eu não tenho a menor dúvida, amiga! Se você realmente não se importa...”.

“Não, eu não me importo. Vá ficar linda, que você merece!”.

Bia se despediu da amiga com um beijo no rosto, andou alguns passos e olhou para trás com preocupação. “Não se importa mesmo de ficar sozinha nesse lugar enorme Marina, de verdade?” – perguntou olhando ao redor.

            “Bia não se preocupe, pode ir tranquila. Acho que estou segura em uma das propriedades do meu pai, não acha?”.

“Está certo, mas me mande tudo por whatssap... quero fazer parte disso nem que seja à distância. Beijos. Nos vemos a noite, certo?”

“Certo querida. Até.”

Marina ficou ali observando a amiga se afastar. Apesar do que havia dito, gostaria que Bia tivesse ficado para lhe fazer companhia. Se arrependeu por não ter trazido um livro para se entreter enquanto esperava e, sabendo que tinha vários minutos pela frente, avisou ao porteiro que iria caminhar um pouco e caso a florista chegasse, deveria esperá-la ali mesmo. 

Marina caminhou por aquela área que estava se transformando num empreendimento de luxo. O pai, reconhecendo o potencial das raras áreas verdes existentes no meio da cidade, havia decidido preservar uma grande parte do bosque que circundava o lugar. Marina caminhou na direção daquelas árvores centenárias apreciando o silêncio enquanto a cacofonia da cidade ia ficando para trás e se deixou envolver pela paz que a solidão proporcionava, até chegar a um nicho incrustrado no meio daquele bosque de bétulas e que era uma versão menor da entrada, com seu chafariz pequeno adornado por uma bela criatura alada.

Sentou-se no único bando existente no local e relaxou. Era bom ter alguns minutos de tranquilidade em meio ao turbilhão de acontecimentos que enchiam sua vida de filha de família rica e noiva do solteiro mais cobiçado da cidade.   

Descalçou os sapatos de salto alto e descansou os pés no chão gelado. Fechou os olhos e relaxou, inspirando o ar limpo com calma. Sentia como se sua alma tivesse deixado seu corpo e vagasse em meio aquele ambiente de paz até que um sussurro a fez despertar.

“Marina” – ouviu alguém chamar.

Ela abriu os olhos assustada, olhou ao redor, mas não havia ninguém ali, apenas aqueles olhos cinza que, do alto, a observava. 

(...)


NOTA: Esse é meu primeiro conto, a principio eu tinha seguido por um caminho que não me agradou e até cheguei a publicar a história aqui, acabei reescrevendo, aproveitei somente o primeiro capítulo e acredito que consegui chegar aonde queria.  Convido você a ler e manifestar sua opinião, suas críticas e suas dicas para que eu possa melhorar!!!