quarta-feira, 16 de maio de 2018

Perdão


Perdão

Na tarde de hoje, passei pelo Café Accorde, meu cantinho para um delicioso e tranquilo café após um longo e exaustivo dia de trabalho.

Ocupei minha mesa preferida e logo fui atendida pela dona do café que já sabe exatamente o que eu peço todos os dias: um pão de batata com requeijão e um cappuccino gelado.

Enquanto esperava meu pedido, me perdi na em minha atual leitura e só despertei quando vi um garoto de chinelos de dedo surrados entrar no local.

Imediatamente percebi alguns olhares que diziam claramente que aquele garoto destoava do ambiente.

O menino, de boné puído, camiseta esgarçada e cheirando à suor, tentava vender panos de prato que ninguém dos muitos clientes se interessou em comprar.

Dei sinal para o menino se aproximar e perguntei se ele estava com fome, ele assentiu balançando a cabeça.

Mandei que ele escolhesse o que queria comer e o que queria beber, ele pegou seu lanche e sua coca-cola e antes de sair do local, para comer sentado na calçada, passou por mim e me pediu desculpas.

Ele não me agradeceu, ele pediu desculpas.

Será que ele queria se desculpar por estar ali estragando meu “mundo perfeito” com sua fome?

Eu fiquei sem palavras.   

A verdade garoto é que sou eu quem tem que te pedir desculpas.

Você e a todos os outros garotos e garotas que andam por aí vendendo balas, sacos de lixo e panos de prato, por favor me perdoem.

Me perdoem por que eu aceito isso como algo normal.

Me perdoe porque é sempre mais fácil comprar um sapato que custa metade de um salário mínimo do que abrir a carteira e te dar um trocado.

Me perdoe porque quando você se aproxima do meu carro para oferecer seus produtos, eu fecho as janelas e faço um sinal negativo.

Me perdoem porque passo mais tempo admirando o que os ricos têm, do que me preocupando com o que os desafortunados não têm.

Me perdoem porque, apesar do meu descontentamento e angústia, apesar da minha indignação e revolta e por mais que, do confortável sofá da minha sala, eu clame por ética e justiça enquanto vejo as notícias absurdas na minha TV de 56 polegadas, passado o momento de revolta, eu sigo minha vida sem tomar qualquer atitude real.  

Me perdoem, por favor, me perdoem por minha falta de ética, de amor, de respeito e de humanidade.


(...)

“Falar em ética é falar em escolha individual. E falar em escolha humana é falar na nossa inescapável falibilidade no pensar e agir.”
Eduardo Giannetti

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