sábado, 19 de maio de 2018

Estigma



estigma
substantivo masculino
  1. 1.
    marca ou cicatriz deixada por ferida.





Há cerca de dois meses Leonel desfrutava de seu idílio no interior.

Membro de uma rica família que havia abandonado a pequena cidade de São Bento para viver na capital há muito tempo, chegara ali despertando a curiosidade dos moradores e a desconfiança dos arrendatários de suas terras, mas logo conquistara a simpatia de todos.

Instalara-se no casarão de janelas altas, portas de madeira e paredes caiadas que se mantinha em ótimo estado, comprovando que, mesmo sem qualquer supervisão, os empregados faziam seu trabalho.

A vida mansa na pequena cidade tinha mudado seus hábitos. Dormia e acordava cedo, fazia longas caminhadas e passava horas conversando com os moradores mais velhos enquanto tomava notas para seu livro.
Aprendera a apreciar o ar puro e o silêncio.

Quando voltava para casa, encontrava a refeição servida. Nunca havia se alimentado tão bem e de maneira tão saudável e isso fazia com que se sentisse revigorado.

Sem as preocupações que o atormentavam na cidade grande, aquele prometia ser o seu tão sonhado ano sabático, até que sua paz foi interrompida.

No meio da madrugada, foi despertado de seu sono tranquilo por um baque surdo e continuo que tentou em vão ignorar até que compreendeu que aquele som intruso não o deixaria dormir.

Obrigou-se a se levantar e verificar o que estava acontecendo.

Envolveu-se em seu roupão azul e bateu com força no interruptor, mas as luzes não acenderam.

Afastou as cortinas e, ao olhar pela janela, percebeu que a cidade toda estava às escuras.

O batuque enlouquecedor continuava intenso, então decidiu enfrentar a escuridão.

Vagou pela casa em busca daquele som que parecia fugir sempre ele se aproximava para ressurgir novamente em outro ponto até que, cansado de zanzar pelo escuro e depois de topar duas ou três vezes com o dedinho em algum móvel, resolveu voltar para o quarto.

Naquele momento, percebeu que a luz do luar, ao penetrar pela janela, projetava uma sombra alongada que delineava um corpo no chão de madeira da sala.

Sobressaltou-se com a imagem e correu até a janela. Olhou para fora e constatou que realmente havia algo lá, não uma pessoa, apenas um vulto que o encarou por um breve momento e depois se afastou lentamente se fundindo à noite que engolia tudo ao seu redor.

Sentiu-se paralisado por uma fração de segundos, o coração aos pulos, até que, no instante seguinte, todas as luzes da cidade voltaram a brilhar ao mesmo tempo.

Ainda tomado pela sensação desagradável de estar sendo observado, teve a certeza de que o vulto estava agora às suas costas e chegou a sentir o leve toque de longos dedos gelados em seu pescoço fazendo os pelos de sua nuca arrepiarem.

Correu para o quarto sem olhar para trás e trancou a porta atrás de si. Deitou-se na cama e por um bom tempo rolou de um lado para o outro, mas aquele barulho que agora vinha nitidamente do telhado acima de sua cabeça somado ao temor que o vulto havia lhe causado não o deixava pegar no sono.

Convenceu-se de que o único jeito seria apelar para um de seus comprimidos.

Desde aquela madrugada, o mesmo batuque retornava, portanto, Leonel pediu a um dos empregados que revirasse o casarão em busca de qualquer coisa que pudesse ser a razão daquele incomodo, porém, nada foi encontrado.

O empregado resolvei passar a noite na casa para que, quando o batuque recomeçasse, ele pudesse encontrar sua origem com mais facilidade, entretanto, para desalento de Leonel, aquela madrugada transcorreu no mais completo silêncio.

Na manhã seguinte, ao perceber o olhar de descrença de todos, Leonel achou por bem dar o assunto por encerrado e suportar sozinho, contando apenas com ajuda de seus comprimidos, a companhia daquele eco seco e ritmado que chegava toda noite e começava a se tornar agourento.

Não demorou a que as noites mal dormidas e o uso constante de medicação cobrassem seu preço.

Leonel foi tomado por uma forte enxaqueca que o impedia de fazer suas caminhadas, de sair para conversar com os moradores da cidade e de trabalhar em seu livro.

Tentou escapar dos remédios fortes e controlados tomando chás e fazendo uso das receitas caseiras que a cozinheira preparava, mas nada aplacava aquela dor que fazia sua cabeça latejar até ele quase perder os sentidos.

Certa manhã, decidiu enfrentar a dor excruciante e caminhar até o mercado municipal onde poderia comprar algumas frutas e legumes frescos, além de aproveitar para respirar um pouco de ar puro.

Ao sair de casa, sentiu que o contato da luz do sol com sua pele lhe fazia bem. Respirou fundo sorvendo com prazer o ar matinal e andou sem pressa pelas poucas quadras que separavam o casarão do mercado.

Muita gente parava para conversar com Leonel e lhe desejar melhoras, sugerir alguma receita que poderia ajudar com as dores de cabeça ou para contar suas próprias experiências e de seus familiares com as mais diversas doenças, fazendo-o sentir-se bem e acolhido, como em seus primeiros dias na cidade.

Ele ouvia atentamente uma das histórias que lhe contavam quando uma forte fisgada nas costas o fez arfar. A mulher que tagarelava à sua frente perguntou se ele estava bem, mas ele não teve tempo de responder.

Uma sequência de açoites invisíveis fizeram com que ele caísse de joelhos gritando de dor enquanto riscos vermelhos se formavam em sua camiseta branca marcando o lugar de onde o sangue brotava. A dor era tanta que o fez desmaiar.

Acordou em sua cama, o corpo dolorido como se tivesse levado uma surra.

Os ferimentos em suas costas estavam limpos e protegidos por uma faixa de gaze branca.

Sentia-se fraco como nunca, mas levantou-se e caminhou até o banheiro. Abriu a torneira e, por algum tempo, apenas observou a água correr.

Foi tirado de seu devaneio por uma forte queimação em seu lombo, baixou as calças e viu que uma marca avermelhada se formava em sua pele branca, como as iniciais marcadas em brasa no couro de um animal.

Tentou se convencer de que aquilo talvez não passasse de uma reação alérgica, mas logo o cheiro forte e adocicado de carne queimada deu lugar a uma onda de dor que o fez se encolher.

Com dificuldade, levantou-se e se curvou sobre a pia para lavar o rosto e enxaguar a boca tentando recuperar o autocontrole.

Para sua surpresa, ao cuspir o liquido viscoso viu, com incredulidade, um de seus dentes cair.

Fitou-se no espelho e tocou os dentes levemente com as pontas dos dedos. Horrorizado, constatou que eles se soltavam com facilidade enquanto de sua gengiva o sangue escorria abundantemente.

Aquilo era loucura.

Leonel foi novamente socorrido e medicado.

Os empregados insistiram em contatar seus pais, mas ele negou e os proibiu taxativamente.

Passou o dia inteiro em sua cama no mais absoluto silêncio, os olhos fechados, quase sem respirar, perguntando-se se estaria sucumbindo a algum tipo de transtorno psiquiátrico, assim como acontecera com outros membros de sua família.

Tinha chegado àquela cidade certo de que um ano de descanso o livraria das crises de estresse que o acometiam desde o fim de seu noivado, contudo tinha a nítida impressão de que estava enlouquecendo.

Estava tomado pelo pânico e o medo o paralisava. Temia ter o mesmo destino de seu pai e seu avô e ser mandado para uma clinica psiquiátrica.

Por outro lado, desejava compreender o que estava acontecendo, afinal, havia visto o sangue escorrer de suas costas e a cicatriz que parecia marcada a fogo se formar em seu lombo, havia sentido a dor do açoite e dos dentes sendo arrancados de sua boca, mas, por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma explicação lógica para tudo aquilo.

Quando a madrugada chegou, o vulto que Leonel vira há alguns dias retornou junto com o maldito som que sempre ressurgia sem trégua.

A princípio, era apenas uma penumbra que vagava pelos cantos, observando-o enquanto se escondia entre as sombras tortas e inquietas que se projetavam por toda a casa.

Porém, com o passar dos dias, o vulto foi se materializando até se tornar uma presença concreta, sempre por perto, sempre espreitando, vista e sentida apenas por Leonel que não ousava falar sobre aquilo com ninguém.

O jovem escritor isolou-se.

Comia pouco e quase nunca deixava o quarto.

Os empregados, assustados, o ouviam falando sozinho, muitas vezes discutindo em voz alta e respondendo às perguntas que ele mesmo acabara de fazer. 

Todos estavam com medo. Sentiam-se culpados e se questionavam se tinham agido corretamente, pois, sempre que questionados por Leonel acerca da história de sua família, haviam sido evasivos e omissos apesar de saberem que aquela era uma família amaldiçoada.

(...)

Os ventos abolicionistas ainda não haviam soprado com força suficiente em terras brasileiras e, ainda assim, a crueldade do Sr. Manoel Antunes Resende havia chocado até mesmo a conservadora sociedade escravagista da pequena cidade de São Bento, que não se esqueceria  daquela história por várias gerações.

Dionísio era um jovem negro nascido sob a égide da Lei do Ventre Livre e, graças a sua inteligência e perspicácia, desde muito cedo havia se tornado ajudante do Sr. Adib em sua mercearia.

Por anos, Dionísio juntou todo o mísero salário que ganhava em busca de seu único objetivo: comprar a liberdade de D. Thereza, sua mãe e escrava preferida do Sr. Manoel.

Quando o velho fazendeiro soube daquela empreitada, fixou um preço alto para a venda de D. Thereza, garantindo assim que fosse praticamente impossível ao garoto juntar o valor exigido.

Mas Dionísio não era homem de desistir, então, passou a trabalhar de sol a sol, dia após dia, sem descanso. Para ele não exista sábado, domingo ou dia santo, a única coisa que existia era seu objetivo.

Sua determinação e empenho eram apreciados por todos, porém, após vinte anos de trabalho árduo, ele ainda estava longe de juntar todo o dinheiro de que precisava até que foi surpreendido ao herdar, com a morte do velho Adib, todos os bens do homem que morreu sem deixar filhos ou família.

Tão logo os ritos fúnebres foram cumpridos, Dionísio dirigiu-se até o casarão da família Antunes Resende e solicitou uma audiência com o fazendeiro.

Manoel não aceitou recebê-lo naquele dia, alegando estar ocupado com seus negócios, todavia, sabendo que o jovem agora tinha como pagar o valor exigido em troca da liberdade de sua mãe, o fazendeiro se comprometeu a receber a quantia e alforriar D. Thereza no sábado seguinte.

Dionísio preparou a casa em que receberia sua mãe com carinho e esmero. Comprou-lhe uma máquina de costura, uma cama nova e uma colcha de retalhos coloridos. Comprou também um vestido bonito de um pano bom, pois agora ela seria uma mulher livre.

No sábado, conforme combinado, seguiu até o casarão levando numa das mãos um ramalhete de flores e, na bolsa de couro amarrada à cintura, o dinheiro que a libertaria.

Ao chegar ao casarão, foi convidado para entrar e tomar algo. Não queria se demorar ali, mas esperou pacientemente enquanto o fazendeiro abriu a bolsa e despejou o dinheiro sobre a mesa para contar as moedas uma a uma.

Após confirmar que o valor estava correto, Manoel fez um sinal em direção à porta, como que chamando alguém para entrar.

Dionísio olhou ansioso na expectativa ver sua mãe entrar na sala, porém foi surpreendido por três capangas que o agarraram sem lhe dar tempo para se defender e o arrastaram para o terreiro que ficava nos fundos do casarão.

Sob o olhar desesperado e ao som das súplicas de D. Thereza, Dionísio foi espancado, chicoteado, teve seus dentes arrancados, sua pele foi marcada com as iniciais do fazendeiro e, por fim, seu corpo foi pendurado na velha mangueira que fazia sombra no quintal.

Quando os três homens se cansaram de toda aquela barbárie, abandonaram a pobre mulher e seu filho já inconsciente.

Com grande esforço, D. Thereza conseguiu baixar o corpo moribundo de Dionísio, tomou-o em seus braços e o beijou com carinho, deixando que suas lágrimas se misturassem ao sangue de seu menino até que sua alma por fim deixou seu corpo.

Todo aquele sofrimento fez o coração de D. Thereza parar, mas, antes de partir, reunindo o pouco de forças que lhe restava e ainda com o corpo do filho apertado em seus braços, conjurou, na poderosa língua de seus ancestrais, os espíritos novos e antigos, que habitavam o céu e as profundezas da terra e clamou por justiça.

Diante da traição que seu filho havia sofrido, suplicou que a alma daquele homem cruel, que sentia prazer em mantê-la prisioneira de suas vontades, que a forçava a trabalhar sem trégua e que a açoitava e estuprava sempre que desejava, fosse amaldiçoada e condenada a vagar como uma sombra pela escuridão da terra, sem encontrar a paz, até que  ele mesmo infligisse a seu último descendente varão a mesma dor com que havia castigado o corpo de seu filho.

D. Thereza então, com um último suspiro, se entregou ao descanso eterno.

(...)

O sino da pequena igreja soou chamando os moradores para a missa naquele início de manhã em que uma brisa leve, mas persistente, dançava entre as folhas da grande mangueira anunciando a chegada do inverno.

Enquanto as pessoas caminhavam em direção à igreja, de um dos robustos troncos da árvore frondosa e centenária que sombreava o quintal do casarão da família Nunes Resende derramava-se, como um pendulo movendo-se lentamente de um lado para o outro, o corpo inerte do jovem Leonel.

Na pequena São Bento, muitos choraram a morte daquele moço simpático e promissor, porém, a maioria das pessoas sentia-se aliviada, pois após tantos anos aqueles acontecimentos haviam cumprido a lendária maldição e, enfim, a cidade estava livre da alma do velho Manoel Antunes Resende que, desde sua morte, assombrava suas ruas e perturbava sua paz.  

Poucos sabiam, no entanto, que de todos os que sofreram com aquela morte repentina e absurda, ninguém sofrera tanto quanto Joana, a ex-noiva de Leonel, que não se perdoava por saber que aquela tragédia poderia ter sido evitada se ela tivesse lhe contado que estava grávida e esperava um filho dele.

Um filho varão.

........

CONTO ESCRITO PARA O CLTS 03 DO SITE RECANTO DAS LETRAS
TEMA: MALDIÇÕES


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