segunda-feira, 21 de maio de 2018

1986





1986

- Só se vive uma vez cara – André incentivou o amigo enquanto enfiava um punhado de batatas ruffles na boca seguido de um longo gole sua coca-cola – É a sua última chance, se não for agora, não vai ser nunca e você vai se arrepender!

Lucas respirou fundo, estava prestes a fazer a coisa mais aterrorizante de toda a sua vida, e sabia que, por alguma razão estranhamente misteriosa, o amigo estava certo, aquela era sua última chance.

Em todos os seus quatorze anos de idade nunca havia sentido tanto medo e tanta certeza ao mesmo tempo. Sabia que todas as probabilidades estavam contra ele, mas não queria ser apenas mais um covarde, tinha que arriscar!

- Tá certo. Eu consigo – disse mais para si mesmo do que para o amigo que ficaria ali para assistir de camarote seu maior vexame ou sua maior vitória.

O plano era simples. Apertaria a campainha e, caso não fosse ela mesma a atender a porta, pediria gentilmente para falar com Leticia, então quando ela aparecesse, leria para ela as palavras que havia escrito no pedaço de papel que ele apertava na mão que suava frio.

Letícia era a menina mais linda que ele já havia visto. Se apaixonara por ela desde a primeira vez que a vira, há dois anos, naquele dia em que entrara na cozinha de sua casa correndo, suado e sujo depois de uma tarde jogando futebol com André, seu melhor amigo.

Enquanto riam e tiravam alto, Lucas tirou da geladeira uma garrafa de refrigerante gelado e os dois amigos beberam direto do bico.

André deu um sonoro arroto no exato momento em que Marília, a irmã mais velha de Lucas, entrava na cozinha seguida de seu séquito de amigas.

Enojada, Marília gritou pela mãe, acusando os dois meninos de serem porcos nojentos, enquanto as outras meninas repetiam a cara de nojo.

Letícia se aproximou de Lucas rindo, mas sema parentar o asco que estava estampado na cara das outras e disse de maneira casual:

- Marília, deixa ele em paz – então lhe deu uma piscadela e remexeu seu cabelo – Isso é coisa de menino, não é garoto?

Lucas ficou estático enquanto as meninas saiam pela porta e André ria a descontroladamente de sua cara de otário.

O garoto tímido e que até então nunca havia se interessado por meninas, descobriu um mundo novo e, desde então, cada vez que Letícia visitava sua casa, ele se perdia olhando para aqueles olhos de pestanas compridas e para aquele sorriso que parecia zombar do mundo todo.

Com o tempo, Lucas passou a reparar em outros atributos de Letícia. Três anos mais velha, ele se perdia em suas curvas enquanto o balanço do seu corpo o hipnotizava e como seu cheiro o levava para outro mundo.

Podia ser loucura, mas ele tinha certeza de que ela o olhava de forma diferente, era a única que parecia ver nele mais do que só um garoto, apesar de nunca o chama-lo pelo nome.

“E então, garoto?” era como ela falava, cada vez que ela pronunciava aquelas palavras com seu jeito mistérios, Lucas pensava ver algo mais naquele sorriso indecifrável.

Agora ele tinha 14 anos, sentia que não era mais apenas um garoto, mesmo para aquela mulher como ela.

Mas, no dia em que iria convidá-la para a festa de fim de ano da escola, soube que ela partiria no dia seguinte para estudar no exterior.

Aquele era seu último dia na cidade. Aquela era a última chance de Lucas.

Apertou a campainha com as mãos trêmulas e suando as bicas, a porta se abriu.

- E então garoto? – lá estava ela, linda como nunca e ele estancou, não conseguiu se lembrar de nenhuma palavra, apenas ficou ali admirando o belo sorriso, os olhos a boca.

Não sabe dizer por quanto tempo ficou assim, até que foi tirado de seu devaneio pelo som de buzinas que tocavam ás suas costas. Eram os amigos de Letícia que estavam ali para leva-la para a festa de despedida.

Ela sorriu, passou por ele sorrindo com um leve toque de frustração, remexeu seus cabelos e se despediu.

- Até mais Lucas – pela primeira vez ela o havia chamado pelo nome e, sem saber o que fazer, ele continuou ali pateticamente parado, observando ela se afastar sem olhar para trás, entrar no carro que a aguardava e trocar um selinho com o cara que dirigia.

Só então se lembrou que no pedaço de papel amassado na palma de sua mão, estavam os versos bobos e rimados que ele havia escrito para ela.


(...)

Lucas sorriu enquanto testava o microfone. Uma pequena multidão já tomava conta do bar. Era engraçado como ele tinha deixado de ser um garoto introvertido e tímido e se tornado o vocalista de uma banda de rock que andava fazendo o maior sucesso nas festas da faculdade.

O lugar estava cheio naquela noite e tudo indicava que seria um ótimo show. Já sentia a empolgação que tomava conta dele sempre que subia ao palco para cantar, era como se aquele fosse o seu lugar no mundo.

O guitarrista tocou os primeiros acordes e ele começou a cantar. Sua voz era forte e aveludada.

A banda revezava músicas conhecidas com composições próprias e o público, especialmente as mulheres, iam à loucura quando ele cantava aquelas melodias que falavam de amores que nunca davam certo.

De repente, em meio à multidão, ele reconheceu aquele olhar.

Letícia.

Seu coração pareceu parar por alguns segundos, então ela retribuiu seu sorriso e ele cantou com toda a sua alma.

Terminada a última canção, ele deu sinal para os músicos pedindo que tocassem mais uma, aquela música não estava no repertório da noite, mas eles já haviam ensaiado antes.

Lucas sabia que o tempo já tinha acabado, mas não se importou, ninguém iria censurá-lo naquela noite.

A melodia suave envolveu a plateia que ouviu em êxtase aquela música que falava sobre o amor de um garoto por uma menina de olhos e sorriso lindo. Ele cantou a música toda olhando diretamente para Letícia, estava lhe dizendo tudo que queria ter dito naquele dia há alguns anos.

Encerrado o show, ele se livrou o mais rápido que pôde das fãs que queriam lhe dar um abraço, um beijo ou algo mais, e correu em busca de Letícia.

Procurou-a por toda parte sem encontrá-la.

Será que havia sonhado, ou tinha perdido mais uma vez sua chance?

Desanimado, voltou para o camarim de mau humor e arrumou suas coisas para sair. Todos iriam para uma festa numa das nas muitas Repúblicas que coalhavam o campus, mas ele tinha perdido todo o entusiasmo.

Esperou que todos saíssem dando desculpas esfarrapadas a seus amigos que não entendiam o que havia acontecido até que ficou sozinho.

Guardou seu equipamento e, antes de ir para casa, parou no bar para tomar alguma coisa.

- Hei Lucas, não sei se te interessa, mas uma das suas fãs deixou um bilhete para você e me pediu para eu te entregar – disse o barman enquanto servia a bebida.

Lucas pegou o guardanapo de papel sem muita vontade, então abriu.

Nele, havia um número de telefone anotado e, embaixo, numa letra delicada e firme, a pergunta “E então, garoto?

(Fim)

Nota: Conto inspirado na música Olhar 43 da banda RPM e uma humilde tentativa de deixar o universo sombrio em que costumo habitar e escrever um romance com final feliz!!


- fefa rodrigues -




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