domingo, 8 de abril de 2018

O Último Prisioneiro



O Último Prisioneiro

Os corredores escuros e vazios de Spandau, assombrados pelos fantasmas silenciosos de centenas de homens que outrora haviam pagado por seus crimes nas celas de pedra fria da fortaleza guardada por muros sólidos e cercas elétricas, tinham agora um único morador.

Quem visse o frágil nonagenário de mãos trêmulas e olhos baços cuidando da pequena horta plantada no jardim da prisão, dificilmente imaginaria que aquele homem fora não só um dos mais notórios membros do partido nazista como também secretário particular de Hitler e segundo na hierarquia do partido.

Rudolf Hess era o último dos condenados em Nuremberg ainda vivo e mantinha-se afastado de todo e qualquer contato com a realidade desde que, após escapar do cadafalso, fechara-se em uma existência letárgica e medíocre à espera da morte.

Naquele dia, como em todos os outros dias desde que fora encarcerado, Hess levantou-se muito cedo e passou a manhã trabalhando em sua horta. À tarde, após um almoço frugal preparado com as hortaliças que ele mesmo plantava, foi para a pequena biblioteca do presídio onde passou o resto da tarde lendo até a hora do jantar e, quando a noite se aproximou, ele se recolheu em sua cela minúscula.

Lavou as mãos e o rosto maquinalmente preparando-se para se deitar em seu catre e só percebeu que tinha companhia quando ouviu a voz suave e melodiosa cantando aquela canção que há muito tempo não era ouvida.

“Nossa bandeira tremula diante de nós, nossa bandeira é uma nova era, nossa bandeira é mais forte que a morte”.

Virou-se instintivamente em direção àquele eco do passado e assustou-se ao se deparar com um homem jovem, elegantemente vestido, de pele branca e olhos azuis, sentado confortavelmente na única cadeira que ocupava um dos cantos escuros da cela.

- Boa noite Sr. Hess – cumprimentou-o de forma gentil.

- Quem é você? O que faz aqui? Eu não recebo visitas... Guardas! – gritou virando-se em direção à porta e pondo-se a chamar pelos guardas através da pequena abertura de comunicação enquanto girava a maçaneta com força até perceber que, estranhamente, estava trancado ali dentro.

A porta não se abriu e não houve qualquer resposta a seus pedidos.

Os guardas nunca falavam com ele, não lhe dirigiam qualquer palavra e, a despeito do que dissesse, apenas o olhavam com desprezo e rancor.

- Sinto dizer Sr. Hess, mas creio que hoje o senhor não tem escolha – explicou com calma puxando os punhos da bela camisa que vestia sob o terno.

Hess voltou-se novamente em direção àquele visitante inoportuno e, um pouco mais pálido do que de costume, perguntou:

- Você é do Mossad, não é? Vai me matar aqui mesmo ou vai me levar para outro circo como o que fizeram com o idiota do Eichmann? Não tenho mais idade para isso, não vê! Já tive minha parcela em Nuremberg e não farei parte desse tipo de coisa outra vez! – declarou tentando manter a voz firme, mas sem conseguir disfarçar um tremor acentuado que denunciava seu medo.

– Sr. Hess, não se preocupe, não estou aqui para te expor, não se trata de circo algum, aliás, não sou um apreciador do grande público – havia algo de tranquilizador naquela voz que pareceu acalmar o prisioneiro.

- Eu não entendo o que vocês ainda querem! Pode-se dizer que, no fim, foram vocês que venceram! Tem até mesmo seu próprio país agora, o que querem de mim, sou apenas um velho derrotado? Não tenho nada a oferecer a você ou ao seu povo! – disse.

- A propósito, soube que logo que vocês chegaram lá tomaram todas as providências para expulsar os palestinos, não é verdade? É importante limpar a nação dos indesejáveis, pelo menos essa lição vocês aprenderam – declarou após um curto silêncio tentando empregar à voz uma mistura de desprezo e sarcasmo.

- Não perca seu tempo tentando me provocar Sr. Hess, não vai conseguir. Aliás, se te agrada saber, não sou do Mossad e não sou judeu.

- Então, o que faz aqui? – o alívio era palpável.

- Apenas gostaria de conversar um pouco. Que tal se o senhor se sentasse, parece cansado e, além disso, eu te garanto que não há o que o senhor possa fazer, esta noite o senhor é meu – o sorriso limpo e branco não desfez o tom de ameaça velada, porém, Hess não estava disposto a se entregar. Não ainda.

- Conversa. Certo. Vejamos, pior que um judeu só um advogado ou um jornalista. Vou apostar minhas fichas em jornalista. Vocês sempre foram como urubus sobrevoando a carniça, não devem ter mudado. Mas, diga-me, as pessoas ainda se interessam pelo nacional-socialismo? Fico feliz em saber que posso ter esperanças de que um dia o mundo volte ao rumo certo.

O visitante permaneceu impassível. Era imune às palavras do velho que, ao perceber que não tinha chances naquela disputa, deu de ombros e sentou-se vencido.

- Olhe, não há mais nada para contar, tudo já foi dito, nenhum grande segredo a ser revelado, nada que justifique nossos atos. Não há mais nada. E além disso como você deve saber eu perdi a memória.

O visitante sorriu como um adulto indulgente que flagra uma criança mentindo e seus olhos brilharam.

- Claro, o senhor não se lembra de nada. Eu sei. Não se lembra nem mesmo de sua viagem à Escócia? – a pergunta fez uma centelha brilhar nos olhos encovados e sem vida denunciando uma ponta de orgulho.
Após pensar por alguns instantes, Hess começou a falar de forma compassada, como se há muito tempo viesse ensaiando aquela confissão que agora fluía facilmente.

- Eles sempre me trataram como a um idiota, como se eu fosse menos inteligente. Mas, apesar do desprezo, eu era o único que percebia as mentiras que eles contavam. Göring, aquele bufão, e Goebbels em sua bazófia, os dois mentiam, os dois criavam a verdade que o Füher ansiava por ouvir – uma tristeza genuína embaçou seu olhar cansado.

- Entendo – disse o visitante incentivando-o a continuar.

- Nós não podíamos lutar em duas frentes, seria a nossa ruína, eu tinha certeza disso apesar do que todos aqueles relatórios e números absurdos diziam! Era ridículo! Havia só um caminho para vencermos, tínhamos que neutralizar a Inglaterra por meio da paz, mas o Füher não quis me ouvir e acabei sendo taxado como descrente por não confiar em suas habilidades estratégicas. Usaram isso contra mim, principalmente aquele hipócrita do Bormann, ele sempre desejou o meu lugar.

As lembranças dolorosas o calaram por alguns minutos, mas logo voltaram a jorrar de sua mente.

- Eu sabia que às vezes ele se deixava enganar, todos os gênios são assim, não são? Carregam dentro de si um demônio que os cega. Eu o conhecia melhor do ninguém, então podia compreender isso. Eu estive ao seu lado desde quando ele era apenas um orador excêntrico discursando nos fundos de uma cervejaria decadente, nós dois compartilhamos a mesma cela miserável depois do golpe fracassado e, dia após dia, eu não o deixei desistir do nosso sonho. Todos aqueles anos juntos me ensinaram a ver o que ele pensava – a lembrança prazerosa fez seus olhos sorrirem.

- Eu não podia aceitar aquilo, não podia aceitar que as mentiras cegassem o Füher e colocassem o futuro do Reich em perigo, então, se ninguém via ou queria ver, não seria eu quem fecharia os olhos, por isso eu agi, fiz o que ninguém teve coragem de fazer - suspirou buscando forças para continuar.

- Voei até a Escócia só para descobrir que a Inglaterra não queria a paz. Churchill havia envenenado os ouvidos de seu povo contra nós, não consegui sequer uma audiência com o velho buldogue e, para felicidade dos invejosos, meu fracasso acabou estampado em todos os jornais. Eu me arrisquei pelo Reich e acabei sendo acusado de traição, acusado de ser um covarde que buscou abrigo junto aos inimigos – um ressentimento sincero embargou sua voz.

- Você não merecia isso, não é? Afinal, Hitler te devia a própria vida, sou testemunha de que você o salvou quando a bomba explodiu naqueles primeiros dias em Munique.

Hess olhou para o homem que aparentava ser vários anos mais jovem, então balançou a cabeça em um gesto de negação.

- Você pode até conhecer os fatos, mas não minta dizendo que foi uma testemunha, você não estava lá, não tem idade para isso, não tinha sequer nascido quando tudo aconteceu – falou e perdendo-se novamente em seus pensamentos e lembranças.

O visitante consultou o relógio de bolso e constatou que ainda tinham algum tempo, então, permitiu ao condenado divagar por suas lembranças e só o interrompeu muito tempo depois.

- Você o amava – afirmou de forma categórica - Você o amava com todo o seu coração. Mais do que isso, você o desejava! – ouvir aquilo dito em voz alta tirou Hess de seu devaneio, porém, ele não teve forças nem ânimo para confrontar a afirmação.

Permaneceu em silêncio, a cabeça baixa, fitando os próprios pés, como se se sentisse envergonhado até que entendeu que não havia mais razões para negar a verdade que o havia consumido durante toda a sua vida e que havia guiado cada um dos passos que o haviam levado até ali.

- Sim, eu o amava. Eu amei Hitler desde a primeira vez que o vi, mesmo sabendo que era um sentimento indigno, impuro. Eu morreria por ele se ele me pedisse – pela primeira vez seus olhos se encheram de lágrimas.

- Ele conhecia seus sentimentos Sr. Hess, sabia do poder que tinha sobre você e que podia usá-lo como desejasse, bastava te olhar daquele jeito que só ele olhava para que você fizesse qualquer coisa por ele. Ele te usou enquanto você se mostrou útil, mas até ele se cansou de sua paranoia – afirmou sem qualquer pudor por ferir ainda mais aquele corpo destroçado, e aquelas palavras feriram Hess como nada antes o tinha ferido.

A dor foi tão intensa e profunda que o fez gritar em meio a lágrimas.

- Não! Isso não é verdade. Você é um mentiroso! Ele conhecia meu valor, sabia que que precisava de mim ao seu lado. Nós tínhamos um objetivo comum, acreditávamos na grandeza da Alemanha e na pureza da raça ariana e era isso que nos unia acima de tudo! Nós acreditávamos no mundo que iríamos construir juntos – a voz era rouca e mercada pela mais plena convicção.

- Vocês fizeram promessas vazias e repetiram tantas vezes suas mentiras até que elas se confundiram com a verdade. Juraram que construiriam um Reich de mil anos, mas a única coisa que sua ideologia estéril foi capaz de construir é a vergonha marcada na alma de cada alemão vivo, de cada alemão que já viveu e de cada alemão que ainda viverá, uma marca mais incisiva e permanente do que aquela gravada nos braços de seus prisioneiros e esta vergonha Sr. Hess é a única coisa vinda de vocês que irá durar mil anos e mais mil anos depois disso!

Aquelas palavras duras ditas com calma abalaram o velho que se encolheu em seu catre como uma criança em posição fetal e começou a chorar.

- Você envergonhou sua nação Hess, manchou a mão de alemães dignos com sangue inocente e maculou seu povo que até hoje é chamado de assassino pelo mundo todo! – as palavras sussurradas o torturavam.

- Não! Não! Não! – gemia tentando tampar os ouvidos com as palmas das mãos para impedir que aquela verdade penetrasse sua alma.

Então, os olhos azuis do visitante se tornaram totalmente negros, deles corriam lágrimas de sangue e de sua boca uma língua de fogo escapava. Com um salto, ele voou sobre o corpo descarnado de Hess e o envolveu com suas pernas tão fortes quanto aço derrubando-o no chão.

- Consegue sentir o frio enrijecendo seus ossos, Hess? – sua voz já não era aveludada e calma e sim era um ganido áspero e violento sussurrado enquanto o prisioneiro sufocava em seu abraço devastador - Foi esse mesmo frio que matou milhares de pessoas nos seus campos da morte e que matou uma geração inteira de alemães que ainda apodrecem no solo congelado da Rússia!

- Está sentindo essa dor dentro de você, Hess? – suas mãos de dedos compridos como garras envolviam o pescoço flácido do velho que o encarava com os olhos arregalados de pavor - É a dor da fome, a pior dor que existe, seu corpo devorando a si mesmo! Você pode contar quantas crianças sentiram essa dor? Sabe dizer quantos bons homens e mulheres morreram sentindo essa dor enquanto você desfrutava de sua loucura?

- E esse cheiro, está sentindo? – um bafo pútrido foi exalado junto ao nariz de Hess que tossia sem parar – Esse é cheiro do Zyklon B, Hess. Sim, este é o cheiro que acompanhou milhões de pessoas em seus últimos segundos de vida. Ouça meu conselho velho, é bom você se acostumar, pois este é o ar fétido que você irá respirar por toda eternidade! - sem qualquer aviso ele se separou do corpo fraco e quase sem vida abandonando-o sobre o chão frio e voltou para o canto escuro da cela, retomando sua aparência anterior.

Os olhos de Hess tinham visto a morte e agora ele sentia o pavor devorando suas entranhas e o medo e desespero tomando sua alma, então, ainda choramingando, arrastou-se buscando em vão por refugio até encontrar as paredes geladas às suas costas onde se aninhou, sentindo-se completamente vazio como se toda esperança o houvesse abandonado.

- Por favor, me deixe em paz, estou aqui há tantos anos, sozinho, esquecido, já paguei por meus crimes, por meus pecados, já paguei por tudo. Me deixe em paz, me deixe morrer em paz – suplicou em meio a um acesso de tosse e choro afogando-se na secreção que brotava em sua garganta e das narinas que ainda queimavam com o aroma da morte.

O visitante riu e seus dentes já não eram brancos e brilhantes, tinham se tornado presas amareladas e malignas sobrepostas umas as outras.

- Te deixar em paz Hess? Você ainda não entendeu, não é mesmo? Sua covardia te garantiu todos esses anos de paz neste buraco sombrio e úmido, mas sua paz está chegando ao fim – sentenciou e seus olhos antes negros tinham se transformado em buracos totalmente brancos e vazios, como olhos cegos que, ainda assim, podiam ver a alma apodrecida de Hess.

Com a voz compassada, como um adulto que explica algo importante a uma criança, tornou a dizer:

- Você sabe o que é o inferno Hess? Você tem alguma ideia de como é o inferno? Não, não tem! O inferno não é como aqueles quadros renascentistas, não há fogo por toda parte e pessoas sendo torturadas. Nenhum destes estereótipos de mau gosto. Não Hess, o inferno não é nada parecido com o que você pensa. O inferno é a eterna repetição – agora a voz saia em um timbre agudo.

Mais uma vez a criatura olhou com desprezo para o velho encurvado no canto choramingando como uma criança assustada, implorando para ser deixado em paz, então ordenou.

- Levante-se Hess, tenha um pouco de dignidade! Seu momento chegou, enfim você irá reencontrar seu amado líder, não é isso que você desejou todos os dias desde que chegou a esta cela de paredes frias? Você quis a morte mais do que qualquer outra coisa, você implorou para que eu viesse te buscar, só não teve a coragem que muitos de seus companheiros nazistas tiveram. Eles estão te esperando Rudolf Hess, estão todos ansiosos para te ver outra vez. Você será o último a chegar, mas não terá perdido nada da festa que irá durar para sempre. Sim, Hess! Há um lugar especial para você e seus companheiros no inferno, um lugar onde tudo o que você acabou de experimentar irá se repetir por toda a eternidade, um lugar que nós chamamos carinhosamente de Auschwitz!

Enquanto dizia isso, de suas costas surgiram duas grandes asas negras, seus olhos se tornaram fogo, uma escuridão intransponível tomou conta da pequena cela e ele se lançou uma última vez sobre o velho medíocre segurando-o com suas garras afiadas.

O Vingador pressionou sua boca com força e violência contra a boca de Hess e, com seu beijo de morte, tudo o que restava daquela vida miserável e infeliz foi sugada até que a alma pútrida foi, enfim, enviada para sua morada eterna.

 (...)

O corpo de Rudolf Hess foi encontrado na manhã do dia 17 de agosto de 1987, no jardim da prisão de Spandau e a causa da morte foi oficialmente determinada como suicídio por enforcamento, porém, sua fragilidade e as estranhas circunstâncias em que aquela morte ocorrera fizeram com que muitos questionassem a veracidade daquela explicação.

Muito se especulou, porém nenhuma das teorias aventadas foi comprovada, então, seu corpo foi enterrado em um lugar secreto e a prisão onde vivera os seus anos de cárcere foi demolida.

Posteriormente, o corpo foi transferido para o jazigo da família e para evitar que o lugar se tornasse um antro de peregrinação neonazista, seus restos mortais acabaram sendo mais uma vez exumados e, por fim, cremados.
Suas cinzas foram jogadas no mar, para que desta forma fosse apagada qualquer lembrança do último prisioneiro de Spandau.


- Fefa Rodrigues -

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