domingo, 22 de abril de 2018

Amélia

O silêncio da manhã foi ferido pelo som abrupto de pancadas na porta despertando Amélia de seu sono tranquilo.

A mulher, após o susto, levantou-se e disse para o marido não se incomodar, pois ela ira verificar quem afinal batia à sua porta àquela hora da manhã e, quando voltasse, prepararia o café da manhã dos dois.

Envolveu-se em seu roupão de seda clara, olhou-se rapidamente no enorme espelho do envolto em madrepérola que ocupava grande parte de uma das paredes do quarto contemplando sua face que, apesar de envelhecida, ainda guardava muito de sua beleza.

Ajeitou os cabelos presos num coque alto e, depois de se certificar de que sua aparência era aceitável, seguiu em direção à porta.

Ao abri-la, deparou-se com dois homens desconhecidos que esperavam para ser atendidos. Os dois estavam vestidos formalmente e tinham rostos sérios e cansados, aparentando terem dormido pouco ou quase nada nos últimos dias.

- Bom dia – comprimentos o homem mais velho e que parecia ser quem comandava a situação - a senhora é Dona Amélia Castelhano Delgado?

- Sim – Amélia respondeu à pergunta sem desejar bom dia. Havia antipatizado com os dois imediatamente.

- A senhora é esposa do Dr. Roberto Delgado?

- Sim – disse mantendo o tom seco e severo.

- Podemos falar com seu marido por um momento?

Amélia ficou em silêncio por alguns instantes e, como num ato reflexo de proteção, fechou melhor o roupão. Seus olhos faiscaram de puro ódio diante da prepotência daqueles dois homens. Seu marido era um advogado respeitado e muito conhecido em toda a cidade de São Paulo, porém tivera que se afastar de suas funções desde que adoecera, porém, a postura daqueles dois homens e a forma como a encaravam parecia dizer que eles desconheciam sua posição e prestígio social.

Não deixaria de apresentar ao síndico do prédio uma reclamação formal contra o porteiro que deixara aquela visita indesejada entrar sem ser anunciada.

Após questionar a alegada identidade daqueles homens e confirmar sua veracidade por meio dos documentos apresentados, abriu passagem para que os dois homens entrassem no apartamento e, com um sorriso gélido, mandou que esperassem na sala de estar.

Os dois homens ficaram ali naquela sala forrada de objetos e móveis elegantes por vários minutos até que ouviram o som do piso de madeira rangendo sob o peso da cadeira de rodas que parecia empurrada com certa dificuldade.

O fedor que já impregnava o ar ali dentro e que justificava as suspeitas levantadas pelos vizinhos tornou-se ainda mais pungente quando Amélia entrou na sala empurrando a cadeira de rodas com corpo de Roberto já adiantado estado de decomposição.

O cheiro de podridão misturado ao aroma da colônia e da loção pós-barba com que Amélia havia besuntado o que restara do rosto do marido era insuportável.

Grandes nacos de pele haviam se descolado por todo o corpo do homem deixando à vista a carne apodrecida que agora tinha uma tonalidade entre verde e marrom. No lugar dos olhos, havia dois buracos de onde pequenas larvas brancas escapavam, a boca descarnada deixava à vista mandíbula de dentes amarelo e o corpo todo exalava o cheiro da morte e expelia líquidos pútridos.    

Amélia havia passado os últimos dias em companhia do marido morto após um ataque cardíaco fulminante e, durante todos aqueles dias, continuou cuidando dele como se sua mente tivesse bloqueado sua percepção da realidade, protegendo-a da dor que a perda do marido causaria.

Quando os policiais que ali estavam tentaram levar Amélia a compreender a situação, ela se desesperou, agarrou-se ao corpo de Roberto dizendo que não permitiria que aquelas pessoas a afastassem e apenas com uma forte sedação foi possível tirá-la.

Amélia passou seus últimos anos em um sanatório e nunca aceitou a morte do marido.

Hoje, os dois estão enterrados lado a lado no Cemitério da Consolação em São Paulo e há quem diga que ainda é possível ouvir, entre as lápides de mármore, as lamentações de Amélia dizendo que Roberto não morreu.

(...)


Nota: Esse conto é baseado numa história real de família e que eu ouvi minha mãe contar muitas vezes. Lá por meados dos anos 70, os vizinhos da irmã de meu avô pediram para que a polícia verificasse o apartamento onde ela vivia com o marido, pois um forte odor de decomposição que parecia vir dali tinha tomado conta do prédio e foi assim que descobriram que ele havia falecido há cerca de uma semana, em decorrência de ataque cardíaco. Ela realmente não aceitou o fato de que ele havia morrido, conviveu com seu cadáver por dias, e acabou internada num manicômio onde ficou até o fim de seus dias. Claro que no conto coloquei toques de ficção, mas a essência da história é triste e real.

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