segunda-feira, 26 de março de 2018

O último ato




Era 30 de abril de 1945. Hanna ainda não sabia, mas naquela manhã toda a esperança do povo alemão havia acabado no momento em que Hitler explodira sua própria cabeça com um tiro.
Enquanto ela caminhava pelos escombros que agora ocupavam toda a Alexanderplatz, perguntava-se como tudo acabara daquele jeito.
Obseravava toda aquela destruição com melancolia e achava impossível que há apenas oito anos ela houvesse desfilado por aquelas mesmas ruas sob aplausos vibrantes, naquele que tinha sido o melhor dia de sua vida.
Ela se sentia extremamente feliz como nunca havia se sentido antes, afinal, dentre as tantas garotas que faziam parte da juventude hitlerista, ela fora a escolhida para representar Germania naquele evento que comemorava as glórias do nascente Reich de mil anos e, com seus longos cabelos loiros, sua pele branca como leite e seus olhos profudamente azuis, representava o ideal de beleza a ser almejado por todas as jovens arianas.
Do alto do carro alegórico ela podia ver todos aqueles olhos que a reverenciavam quase como se ela fosse a encarnação de uma deusa, enquanto, aos seus pés, a própria blutfahne se estendia.
Estar tão perto daquele objeto mítico e cheio de história era um privilégio reservado a poucos homens e a quase nenhuma mulher e a proximidade daquela que era uma das maiores relíquias do nazismo a deixava extremamente excitada e a fazia sentir-se muito próxima de um extase religioso como experimentavam aquelas mulheres cuja devoção as levava a ter visões de anjos e homens santos.
Temendo ser tomada pelo transe, concentrou-se na multidão ao seu redor e, em meio àquelas dezenas de pessoas, identificou os olhos orgulhosos da mãe que derramavam lágrimas de felicidade ao vê-la passar, seus braços estavam pressos aos braços do pai de Hanna que, apesar da dor que o ferimento sofrido durante a grande guerra lhe causava, se mantinha ali em pé para poder prestigiá-la.
O própio Füher estava lá, em seu camarote, com seu cabelo negro, liso e perfeitamente penteado, vestindo seu impecável uniforme marrom assim como os outros membros de seu séquito exlusivo. Goebbels, Hess, Speer, Höss. Apenas Göring em seu exuberante uniforme branco e Himmler em seu temido uniforme negro se distinguiam daquela orda de iguais.
Ao passar por aqueles homens poderosos, Hanna não se conteve e levantou o braço fazendo a saudação nazista. Os olhos do grande líder brilharam ao ver aquele gesto e ela pode ver naquele olhar profundo e magnético o futuro grandiosos da Alemanha.  
A quebra no protocolo foi perdoada quando a multidão acompanhou seu gesto com gritos de Hi Hitler.
Agora, aquilo era apenas a lembrança distante de um sonho reduzido às ruínas daquela que deveria ter sido a capital do mundo e que havia se transformado em um emaranhado de entulho, concreto e ferragem sob os quais, todas as noites, ela e aqueles berlinenses que insistiam em permanecer vivos, buscavam em vão se proteger da chuva de bombas que os aliados despejavam sobre a cidade.
Todos diziam que Berlim estava prestes a cair, que os aliados se aproximavam pelo oeste, enquanto nada era capaz de impedir a chegada dos russos que vinham do leste, entretanto, por mais absurdo que aquilo pudesse parecer, ela sentia que, enquanto o Füher estivesse vivo e protegido em seu bunker sob o chão de Berlim, ainda havia esperança.   
Afinal, ele havia lhes prometido um Reich de mil anos e ela havia acreditado com todo o seu coração. Não só ela, como seus amigos e familiares, todos eles haviam se dedicado e se entregado de corpo e alma em busca de da realização daquela Alemanha poderosa e de um mundo governado a partir da capital Germania.
Então ela continuaria ali. Não fugiria, não deixaria sua cidade para trás, não abandonaria o Füher, não seria como muitos daqueles outrora bajuladores que agora desertavam covardemente e corriam em direção aos aliados, pedindo clemencia e prontos à trair a confiança de seu líder.
Não!
Ela seria forte como uma mulher alemã deve ser e ficaria ali, até que o Füher mais uma vez realizasse um de seus milagres e, num surpreendente último ato, salvasse a Alemanha de um fim trágico e vergonhoso.

(...)

Nota: espero que ninguém se sinta ofendido pelo fato de eu ter usado uma bandeira nazista como capa da história. Mais uma vez, não tenho qualquer intenção de exaltar ou propagar os ideias do nacional-nacionalismo, trata-se somente de uma história imaginada inspirada nessa fase sombria da humanidade.
Nota Histórica 1: Durante a frustrada tentativa de golpe conhecido como o Putsch da Cervejaria, em que o recém criado partido nacional-socialista tentou tomar o poder na região da Baviera, uma das bandeiras que ostentavam a suástica acabou manchada pelo sangue de alguns dos nazistas mortos na ocasião. Assim nascia a mítica blutfahne, a bandeira com a suástica e manchada com o sangue dos mártires nazistas e que, além de inspirar o uso da cor vermelha em todas as bandeiras do partido desde então, era usada como uma relíquia a ser tocada respeitosamente pelos novos membros da SS no momento de seu “batismo”.
Nota Histórica 2: Germania seria o nome da cidade que Hitler construída e de onde o Reich governaria o mundo. O projeto dessa grande cidade foi desenvolvido por Albert Speer, aquele que, mesmo fazendo parte do grupo mais próximo à Hitler, acabaria ficando conhecido como “o bom nazista”, após convencer por ter conseguido convencer os jurados em Nuremberg de sua inocência diante das atrocidades cometidas pela Alemanha Nazista.


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