segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Escrito com Sangue - Capítulo 1: "Em letras de Sangue"


Capítulo 1
"Em letras de Sangue"
Ela seguia por aquele labirinto de ruelas cercadas por barracos feitos de tudo aquilo que ninguém queria mais, se não fosse o menino que a guiava e seguia à sua frente ela tinha certeza de nunca encontraria o seu destino e de que jamais sairia daquele lugar novamente.
Sobre sua cabeça, estendia-se um céu negro com traços vermelhos que parecia sangrar enquanto algumas gotas de chuva caiam aqui e ali. O menino de pés descalços, vestido com aquele shorts grande demais e uma blusa de moletom apesar do calor da noite olhava para ela de vez em quando, como para se assegurar de que ela não havia se perdido. Ao longe ela ouviu o choro de uma criança, um latido, uma discussão entre um homem e uma mulher, um copo se quebrando.
Depois de tantos minutos embrenhando-se por meio daqueles caminhos inescrutáveis, o menino parou em frente de um barraco que em nada se diferenciava dos demais, bateu na porta e esperou até que a porta se abriu revelando uma luz fraca que vinha la de dentro.
Antes que ela pudesse entrar, a velha abriu a boca numa fracassada tentativa de sorrir com seu único dente e estendeu as mãos. Ela, então, lhe entregou o envelope com os cinco mil reais. Aquele era o preço exigido e ela ficou imaginando para onde ia todo aquele dinheiro em meio àquela pobreza absoluta.
A velha conferiu o dinheiro e só então permitiu que ela entrasse.
O barraco cheirava à comida rançosa, gordura velha e gente suja. Em um canto, sentada numa poltrona desbotada, uma menina de não mais de 16 anos e peitos murchos amamentava um bebê.
“Você já sabe as regras, certo? Um pedido apenas e depois de escrito não tem mais volta... e você não pode ler os outros pedidos...” Ela concordou com um gesto afirmativo de cabeça. Estava nervosa.
“Fica naquele quarto ali atrás, você vai encontrar tudo que precisa lá.” A velha fez um gesto indicando a única saída que se via naquele cômodo imundo além daquela que dava para a rua. Ela atravessou por entre o pano remendado que servia de porta e entrou no pequeno quarto sem janelas, úmido e que fedia à mofo.
No centro do cômodo, sobre uma mesa de madeira, uma vela grossa era a única fonte de luz ali dentro, ao seu lado havia um pequeno recipiente de pedra, uma navalha afiada, um pedaço de osso pontiagudo e o livro.
O livro era feito de um couro amarelado que diziam ser pele humana e ao tocá-lo ela acreditou que isso era verdade. A capa trazia um aviso escrito em tinta vermelha (ou seria sangue?): “Cuidado com aquilo que desejas, pois há apenas engano no coração dos homens”.  
Aquelas palavras eram um tanto quanto desanimadoras e, por um instante, as consequências daquilo que desejava a fizeram exitar, mas logo percebeu que não lhe importava que ele fosse casado e que tivesse dois filhos pequenos, ela o queria e o teria não improtava o que isso lhe custasse.
Então, pegou a pequena navalha e fez um corte profundo em sua pele clara de onde um filete de sangue escorreu. Arfou com a dor, mas deixou o liquido vermelho escorregar para o recipiente de pedra, abriu o livro evitando olhar os outros pedidos, molhou o pedaço de osso pontiagudo em seu sangue e gravou ali naquelas páginas feitas de pele humana aquilo que seu coração desejava.
Quando saiu do pequeno quarto não havia ninguém esperando por ela. Abriu a porta do barraco e saiu para a noite abafada. A chuva começava a cair com força, mas o menino estava ali para guiá-la para fora daquele mundo de pobreza e mistério.

                                    (CONTINUA)

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