terça-feira, 8 de julho de 2014

Será que estamos nos curando do Complexo de Vira-latas?

Me lembro de quando eu era criança, nos idos da década de 80. Era impensável usar verde-amarelo, era brega, era “coisa de baiano”. Legal eram os tênis Nike, legal era usar camiseta com a bandeira dos EUA. Eu tinha um estojo trazido do Paraguai com o desenho daquela bandeira.

Na época, nossa vizinha, Dona Ida, com seus oitenta e poucos anos e toda tarde colocava o disco de vinil tocando o hino nacional. A criançada da rua ria ouvindo aquilo e zombava daquela atitude ridícula.

Quando tinha jogo de futebol internacional e os jogadores se perfilavam para cantar o hino (ainda não existia a lei que obriga o hino antes dos jogos no estado de São Paulo), dava para ver claramente que eles não sabiam a letra. Ninguém sabia. Mas se no final de um filme tocava o hino dos EUA a gente se arrepiava, era até capaz de chorar. Tinha até um “Parabéns pra você” na melodia do hino norte-americano que agente cantava nas festinhas de aniversário.

Não sei exatamente quando isso começou a mudar, mas desconfio que foi quando quitamos nossa dívida com o FMI. Acho que isso trouxe uma sensação de estarmos quites, de não sermos devedores. Nosso nome de brasileiro enfim estava limpo.

O mundo já não nos definia mais como terceiro mundo, nos tornamos emergentes.

Então, começamos a perceber como, aqui e ali, vários brasileiros famosos brilhavam, e como muito anônimos eram queridos em outros países, e, apesar da frase “tinha que ser brasileiro” viver se repetindo por ai, na maioria das vezes pela boca dos próprios brasileiros, uma sensação de orgulho nacional começou a nascer.

Então veio o grande teste, a realização da copa do mundo, e muitos juraram que seria o momento de provarmos nossa incompetência para o mundo. Porque nós somos brasileiros, não fazemos nada direito, somos inferiores, misturados, temos cores na pele, nos olhos e nos cabelos, comemos feijão, não temos nenhum prêmio Nobel, somos uma vergonha, não somos mais do que vira-latas.

Então, eis que a Copa está chegando ao fim e, incrivelmente, nenhum turista foi assassinado ou assaltado por um taxista (aliás, um taxista ficou conhecido por devolver ingressos, não foi?), não houve caos no metrô, no trânsito ou nos aeroportos, nenhuma arquibancada caiu, não houve brigas nos estádios que, diga-se, estiveram totalmente lotados em todos os jogos.

É, este é o nosso país, lindo, grande, cheio de gente legal e bonita, que veste verde-amarelo e canta o hino nacional com lágrimas nos olhos, que tem problemas a resolver sim, mas que, agora que se orgulha de si mesmo, sabe que tem competência para resolvê-los.

A seleção pode ganhar ou não a Copa, mas o Brasil – que muita gente adorou ecoar que não se limita a futebol e a seleção – ganhou muito, principalmente respeito próprio.

Beijos;
Fefa Rodrigues

PS: o texto do Nelson Rodrigues “Complexo de Vira-latas” é muito interessante e no youtube tem um vídeo baseado no texto que fala das origens dessa baixa-estima que sempre pairou sobre a Pátria Amada.



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