domingo, 30 de março de 2014

Tu Carregas Meu Nome – A Herança dos filhos de Nazistas Notórios




"(...) é um grave erro partir do pressuposto de que apenas pessoas más são capazes de fazer maldades."


Sempre que leio sobre a segunda guerra, presto atenção nas referências no final dos textos em busca de outros livros e artigos interessantes, e foi assim que eu descobri esse livro. Pensei que seria difícil de encontrar para comprar, já que antes de vê-lo como referência em uma publicação especial sobre o assunto, nunca tinha ouvido falar sobre ele.

Me lembro de ter lido em algum lugar que, após o fim da guerra, muita gente com o sobrenome Hitler mudou de nome. Então, me pareceu muito interessante saber como pessoas que levavam sobrenomes como Himmler, Hess, Goring, Bormann, von Schirach, Frank seguiram com suas vidas após o fim da guerra.

Pode-se dizer que não foi fácil para nenhum deles. Os filhos desses homens eram crianças quando a guerra acabou e viram seus pais serem condenados em Nuremberg, uns à forca, outros à prisão. Deixaram suas mansões e fortunas e foram levados com suas mães para os campos de prisioneiros destinados às famílias dos nazistas, de onde só saíram após o final dos julgamentos, a grande parte sem ter para onde ir. Outros foram interrogados repetidamente pelos aliados durante os julgamentos de Nuremberg e quando percebeu-se que não tinham com o que contribuir também foram deixados à própria sorte.

Podemos pensar: “eram filhos de nazistas, mereceram”, mas é possível condenar crianças pelos erros de seus pais?

É sobre isso que esse pequeno livro de apenas 196 páginas fala, a partir das entrevistas feitas pelo jornalista alemão Norbert Lebert, a partir de 1959, e finalizadas quarenta anos depois, por seu filho e também jornalista Sthephan Lebert, podemos acompanhar o desenrolar da vida dos filhos dos principais homens da Alemanha nazista e o que aconteceu em suas vidas no decorrer dos anos.

O que mais me interessou no livro foi olhar para aquelas pessoas que nós consideramos monstros a partir do olhar de seus filhos. Ver como Rudolf Hess foi visitado por seu filho até o fim de seus dias em Spandau ou como Gudrun Himmler passou a vida tentando reabilitar a imagem do pai.

De todos os entrevistados apenas Martin Bormann, filho do secretário-geral do partido nazista e segundo na hierarquia depois do Furher, e Niklas Frank, filho do governador geral da Polônia, parecem compreender o tamanho da maldade dos atos de seus pais.

Diferentemente dos demais entrevistados que insistem em ver apenas o lado que conheciam de seus pais na intimidade de de seus lares, Bormann é enfático em afirmar que o pai possui duas faces, uma que ele ama e que representa o bom pai que ele fora, e outra que ele repudia, ou seja, o nazista cruel que ele foi.

Frank, vai mais longe, e só enxerga a maldade do pai, não apontando qualquer lado que possa ser considerado bom, tendo inclusive, chocado a Alemanha ao afirmar que no dia em que o pai foi executado após a sua condenação em Nuremberg, ele se masturbou diate da imagem do pai morto (aí acho que já chega a ser um problema psiquiátrico, não é?).

A leitura desse livro mais uma vez me fez pensar em omo é mais simples apenas olhar para aquelas pessoas e considerá-las como monstros, afastando-os totalmente da nossa realidade, de uma maneira que a certeza de que eles não podemos ser considerados humanos como nós somos nos proteja da possibilidade de nos tornarmos tão maus quanto eles.

Ao torná-los monstros numa categoria inferior ou diferente da nossa, nos enganamos acreditando que atos como os seus são impossíveis de serem repetidos por pessoas como nós.

Essa ideia não persiste quando vemos seres humanos como nós manifestando seu sentimento de amor por aqueles que consideramos “monstros”, crianças que ao se tornarem adultos preferiram manter os nomes de seus pais, mesmo com os problemas que isso lhes causaria (Gudrun por exemplo não recebeu uma bola de estudos sob a justificativa de que “o contribuinte alemão não poderia pagar os estudos de alguém com o nome Himmler), e assim o alerta de Simon Wiesenthal se faz ainda mais importante pois:

só quem compreendeu isso sabe que a maldade habita a maioria das pessoas e pode irromper a qualquer momento. Que ninguém diga que uma ditadura tão terrível é impossível hoje em dia. Pois essa é a verdadeira lição do nacional-socialismo: é preciso combater constantemente o mal para que ele não ecloda.”

O livro é uma ótima aula de história.

Beijos e boa leitura...

Fefa Rodrigues

2 comentários:

Dora Delano disse...

e nada de vir ao Rio?

Ariana Mariela Wolf disse...

Achei muito interessante essa leitura. Realmente são coisas para se pensar.
Não sei exatamente minha opinião, mas é de se perguntar se crianças devem pagar pelos erros dos pais. Talvez, se a guerra não tivesse acabado, essas crianças se tornariam nazista tão cruéis ou mais que os próprios pais. Quem pode saber?!

http://arianaviajante.blogspot.com.br