quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

São os Loucos Anos 20

São os Loucos Anos 20  
Parte I

As gotas da chuva batiam com força na janela embaçada. Ela queria que aquelas gotas estivessem batendo em seu rosto, talvez voltasse a sentir dor. Talvez voltasse a sentir alguma coisa. A porta de madeira estava trancada, arranhões e lascas de tinta eram apenas uma lembrança de sua luta anterior. Agora tinha desistido de lutar. Na verdade tinha desistido de viver, mas naquele quarto escuro não havia meios para que essa questão fosse, enfim, resolvida. Estava ali para ser castigada, castigada por ser diferente, por não querer o que eles queriam para ela, se devia ser castigada, se não devia ser quem era, porque a impediam de colocar um fim em tudo aquilo? Agora até a comida vinha em pratos de alumínio, pratos de criança. Mas ela não comia. Não suportava o cheiro. Apenas água. Era suficiente.
Não sabia quantos dias já haviam se passado, mas pelo comprimento que seu cabelo atingia devia fazer muito tempo. Seu cabelo cor de mel. Foi uma das primeiras a adotar o corte chanel, imitando a famosa estilista. Chegou com os cabelos curtos depois de uma temporada em Paris e por onde andava sentia os olhos observando-a. Não demorou para que outras moças de fino-trato seguissem a moda que acabou por se espalhar por todas as camadas sociais. 
Aliás, adorava lançar moda. Sentia um prazer inexplicável quando elogiavam seus vestidos, sapatos, chapéus, mas seu prazer era ainda maior quando, em vez de receber um elogio, identificava um olhar de inveja, nessas ocasiões, limitava-se a esboçar seu mais doce sorriso sabendo que mesmo aquelas que a invejavam, cedo ou tarde, acabavam se rendendo às suas inovações.
Nunca se esqueceria da noite em que, em meio a uma das freqüentes recepções na mansão da família, acendera uma cigarrete. Todos os olhos em sua direção e depois em direção a seu pai. “São os loucos anos 20”, ele havia dito entre os dentes muito brancos, cerrados em volta de seu charuto cubado, aprovando com seu sorriso sob o bigode negro, lustroso e bem cuidado, a modernidade da filha. Sua mãe, sempre distante, mas não menos orgulhosa, ergueu levemente a taça de champangne em sua direção, brindando a tudo o que ela representava.
Anita, filha do rico Sr. Manoel Garrilha, empresário do ramo têxtil, cercada de luxo e riqueza, desde muito pequena mostrou-se inteligente. Tocava piano, falava francês, espanhol, italiano e inglês. Conhecia as artes, lia os clássicos, sempre que possível em versão original, conversava com desenvoltura tanto com as ricas senhoras da alta sociedade como com os finos senhores industriais. Era a jóia mais brilhante em sua sociedade, a mais valiosa e a mais desejada, mas todos sabiam que a escolha seria dela, apenas dela, e ela tinha uma grande variedade para escolher. Nada era mais certo do que seu futuro confortável e feliz, mas o destino é tudo e a vida escolhe seus próprios caminhos.
Agora aquelas noites quentes, cheias de música e conversas, perfumadas pelas laranjeiras do jardim, pareciam ter acontecido há centenas de anos. Teria sido outra vida, outra pessoa, acima de tudo. A mãe já não ligava a vitrola para ouvir as músicas da moda. O único som que chegava até ali eram os passos do pai acompanhados pelo bater rítmico da muleta que agora era obrigado a usar. Tudo isso devia causar-lhe remorso, mas não era isso que sentia. Já não sentia nada, mas sabia que, se ainda fosse capaz de sentir, não seria remorso, não seria amor por seus pais, nem sequer saudades dos dias felizes, seria apenas aquela obsessão que já não podia existir, afinal, não pode haver obsessão quando o objeto do desejo desapareceu. 
Sentiu um formigamento na coluna, resultado das horas em que passara sentada no beiral da janela olhando o mundo lá fora. Não era para lá que queria fugir, não existia mais nada para ela lá fora. Queria fugir de si mesma, queria deixar a vida, não havia mais razão para existir, mas continuava ali, dia após dia, e em alguns momentos tinha certeza de que iria enlouquecer, mas os deuses não eram misericordiosos, e sua mente continuava perfeita, com todas as lembranças para lhe atormentar.
“Isso só pode ser macumba!” ela ouviu uma das criadas que traziam sua refeição que mais uma vez não seria tocada, “Já vi isso acontecer antes, e só vai passar se uma boa mãe de santo vier quebrar o trabalho, senão ela morre e não come. O bicho é ruim!”. Será que ela era o bicho ruim? 
Com alguma dificuldade levantou-se, os pés no chão gelado, descalços, um arrepio correu por em sua nuca. Pegou o copo de água deixado através da pequena passagem aberta no canto inferior da porta, molhou os lábios que já se partiam e deitou-se no colchão fino, no chão. Sem lençóis, sem fronhas, sem estrado... “Assim ela não vai cometer outra loucura”, foi o que a mãe havia dito enquanto a levavam lá para cima.
Há tanto tempo que não via as pessoas, que já começava a esquecer dos rostos, mesmo daquelas que havia amado. Confundia o rosto da mãe com o da babá, na verdade, a babá tinha sido mais próxima do que a mãe jovem e bela. Lembrava-se vagamente do olhar sério do irmão mais velho e do sorriso meio debochado do mais novo. Do pai, de quem sempre fora muito próxima, só conseguia lembrar do olhar petrificado que a havia encarado no momento do tiro. Olhos incrédulos. Mesmo assim, não sentia nada. Só o rosto dele não esquecia, a pela queimada do sol, o bigode fino, os olhos cinza. Fechou os olhos e tentou dormir, pediu por um sono sem sonhos, a ninguém especificamente, não acreditava em deuses, em santos, mas mesmo assim os sonhos vieram.
(...)
Parte II 

O dia estava quente demais para o inicio da primavera e pela janela ela via as árvores que floresciam e enchiam o ar de perfume. Os cheiros e aromas sempre chamaram sua atenção. Gostava de cheirar tudo antes de comer, especialmente se tivesse canela. A lembrança mais antiga que tinha era de um dia quando, ela ainda muito pequena, andava pela fazenda do pai, os irmãos correndo a sua frente e a babá segurando sua mão. “Veja, aquela é uma árvore de canela!” disse a mulher, então apanhou uma folha verde da pequena árvore e a esmagou nas mãos, o suave perfume encheu o ar. Agora, o perfume de centenas de flores e plantas a deixava feliz, tornava seu mundo perfeito ainda mais bonito. O ar quente e perfumado e o som da locomotiva sobre os trilhos embalavam seus pensamentos de repente interrompidos por uma parada brusca.
Pela vidraça da porta que separava sua cabine de luxo do corredor, viu as pessoas correndo para ver o que havia acontecido. Da janela não conseguia ver a razão pela qual a viagem havia sido interrompida, mas não ia se levantar, a curiosidade não era mais forte do que a falta de gosto pela multidão. Odiava a sensação de estar entre muitas pessoas, odiava gente se acotovelando, odiava que pessoas desconhecidas, e até as conhecidas, a tocassem. Não era orgulho nem maldade, era só algo de que não gostava, assim como não gostava de comer à mesa quando havia muitos convidados, e preferia comer na cozinha, sentada sozinha na mesa de madrepérola branca, enquanto os criados andavam de um lado para o outro. Lá podia sentir o cheiro dos temperos e isso parecia tornar os alimentos mais saborosos, infelizmente, não podia fazer isso com freqüência.
“Senhorita, talvez queira descer, um animal nos trilhos... ah, acredito que vai demorar um pouco para limparmos a sujeira e para que o trem possa seguir viagem, por sorte estamos ao lado de uma estação desativada, se a senhorita quiser, pode pegar uma fresca lá fora enquanto aguarda...”, o moço disse sem erguer os olhos, como se se sentisse envergonhado por falar com alguém como ela. Sem o movimento do trem, o calor dentro da cabine começou a ficar insuportável e ela decidiu descer e respirar um pouco de ar puro.
Sempre teve consciência de que não era exatamente bonita, pelo menos estava certa de que não possuía aquela beleza clássica e perfeita que se via no cinema, por isso, nunca entendeu porque, atraia todos os olhares por onde passava. Não foi diferente quando desceu os pequenos degraus que levavam à plataforma desativada. Sentia os olhos que a acompanhavam a cada passo, mas já estava acostumada. Todos a olhavam, ela não olhava ninguém.
Caminhou pela passarela, o som tão característico de seus passos a cada toque do pequeno salto no chão de madeira, o vestido de seda leve esvoaçante, última moda nas grandes capitais, feito sob medida por sua modista. Observou as pessoas que se aglomeravam pelos cantos buscando um pouco da sombra escassa ao sol do meio dia. A maioria, trabalhadores das fazendas que iam até a cidade resolver seus problemas acompanhados de suas famílias. Crianças sentadas no chão brincando com o que estivesse a disposição para passar o tempo, perto de suas mães que conversavam em algazarra, homens jogando dados e cartas, outros fumando.
Caminhou até o final da passarela de passeio observando as poltronas desgastadas e se lembrando de quantas vezes havia feito aquela viagem entre a fazenda do pai e a cidade, ela, os irmãos, a mãe e a babá. Sempre paravam ali para que mais viajantes entrassem no trem, era um lugar conhecido e que trazia boas recordações.
O ar estava quente e seco. De repente sentiu sede. Resolveu voltar ao vagão, o calor estava sufocante, mais forte do que no interior do trem. Quando se virou, como sempre, muitos olhares estavam em sua direção, mas, pela primeira vez, percebeu, em meio a tantos olhares, aqueles olhos. Eram olhos cinza que a encaravam, sem medo, sem a submissão típica dos inferiores e sem o deslumbramento dos iguais. Olhos que pareciam saber e ver que ela era apenas uma pessoa.
Uma sensação estranha tomou conta dela. Sentiu raiva pela indolência daquele olhar. Quis desviar os olhos para acabar com aquele desconforto, mas manteve-se firme, não abaixaria a cabeça, ele é quem tinha que desviar os olhos, mas ele não o fez, manteve o olhar diretamente em seus olhos, sentiu o rosto esquentar, o calor pareceu aumentar, então, a sensação de ter perdido a batalha encheu-a de raiva que quase transbordou com o leve ar de riso dele. Com passos rápidos voltou ao vagão, pela primeira vez na vida quase perdeu a compostura.
“Devia ter ficado aqui” pensou enquanto sentou-se com raiva na poltrona macia, pegou o exemplar de Ulysses e tentou retomar a leitura, mas aqueles olhos a assombravam e a cada minuto ela se pegava olhando pela janela, sem admitir para si mesma que estava a sua procura. Queria revidar, queria que ele compreendesse qual era seu lugar. O velho trem retomou o movimento, algumas horas se passaram até chegar à cidade, ela não voltou a ver os olhos cinza, também não conseguiu ler ou dormir. 

(...)

Parte III
“Uma noite extraordinária, sem dúvidas!” – seu pai concordou enquanto apertava às mãos de um dos convidados escolhidos a dedo entre a mais nobre elite nacional. Alguns tinham vindo de longe prestigiar o noivado dos filhos de duas das famílias mais ricas e influentes do país. A mansão estava totalmente iluminada. Os melhores talheres e jogos de prato estavam postos à mesa, presente do governador do Estado, tio de sua mãe, quando das bodas de seus pais. Tapeçarias cobriam o chão de mármore, champangne borbulhava nas taças das senhoras e uísque girava nos copos dos senhores. Caviar, lagosta, camarões eram servidos à vontade, bombons finos e tortas de frutas feitas pela melhor confeitaria da cidade. Até os criados vestiam uniformes novos, impecavelmente brancos e azuis desenhados e confeccionados especialmente para aquela ocasião.
Ela havia planejado e escolhido cada detalhe, inclusive o noivo. Uma escolha pensada e analisada dentre os muitos pretendentes. Lucas Giafrani era filho de um importante político, mas, apesar de ter crescido em meio à riqueza, não era como os outros de sua espécie. Leitor voraz, era um intelectual apesar de contar apenas 25 anos. Tinha estudado direito e sociologia, falava diversas línguas e, apesar disso tudo, tinha bom humor. Anita sabia que ela também tinha sido para ele uma escolha pensada. Com seus planos de graduar-se mestre na Universidade de Oxford, queria uma esposa capaz de acompanhá-lo com desenvoltura no meio acadêmico e, dentre a fina-flor da sociedade, ninguém era melhor do que ela. Seria um casamento sem paixão arrebatadora, e por isso mesmo, parecia ter tudo para dar certo. As famílias ficaram em êxtase quando o comunicado foi feito. Nada poderia agradar mais ao pai da moça e nada poderia ser mais interessante ao pai do moço.
O salão de jantar foi reservado apenas para receber os presentes. Caixas e caixas de todo tipo de objetos elegantes e caros, uma pequena fortuna em cristais, louças, tapetes, de tudo que era belo e de bom gosto, já que cada um dos convidados queria ser o mais agradável, dar o melhor presente e nenhum deles mediu esforços para tanto.
A festa de noivado teve a elegância suave que caracterizava os noivos. Ela com um lindo vestido Chanel, de seda azul clara, trazido de Paris para a ocasião, combinava com o colar de pérolas de três voltas e os brincos, presente da mãe em seu último aniversário, ela era um ícone da moda naquele momento. Ele, de terno bem cortado e camisa azul, cabelos oleados, penteados para trás, olhos vivos, negros e inteligentes. Na hora de receber a aliança, até mesmo Anita ficou surpresa com o presente do noivo, um belo e enorme Cartier.
A noite havia sido perfeita e as colunas sociais comentariam o acontecimento por vários dias. Outras noivas copiariam sua festa, seu vestido, sua maquiagem, mas poucas poderiam ter um anel como o que ela agora traria no dedo indicador. Exausta pelas emoções do dia e por todo trabalho que tinha tido para que a festa fosse perfeita, não demorou a pegar no sono, mas, naquela noite, sonhou com aqueles olhos cinza que tinha visto há tantos meses.
(continua) 

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Beijos,
Fefa Rodrigues

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