quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Fome de Palavras

Hoje eu acordei com fome de palavras.
De beleza na forma escrita.
Acordei querendo alimentar a alma.

                                       - fefa rodrigues -


Nessa vontade louca de ler algo belo que falasse com meu espírito, corri para o blog do Ricardo Gondim, e lá, encontrei o alimento que necessitava e que agora compartilho com vocês!!


Inspiração

O poeta sempre busca inspirar-se. Inspiração significa colocar dentro da alma o que pode gerar encanto pela vida a partir das palavras; é inalar o vento que procria e tragar o ar que inebria. Todo o escritor, porém, sente vez por outra o ar rarefeito. Nessas horas falta a matéria prima da poesia. Os pensamentos ficam desconexos. As palavras rodopiam num redemoinho exasperante. As ideias, ensandecidas, criam um turbilhão na cabeça; e o coração, de tanto pensar, nada sente.
Aridez produz no poeta uma sensação de morte provisória; provisória, porque não mata completamente, só o deixa catatônico, estéril. E o primeiro sinal desse estado não é letargia, mas agitação. Irrequieto, belisca vários livros e mal consegue avançar nas páginas. Os olhos nervosos, o coração acelerado, os ouvidos desatentos não permitem a aragem criadora tranquilizar a alma. E sem placidez, como de uma lagoa adormecida entre duas montanhas, nenhum poeta cria qualquer coisa.
Contudo, o desespero de escrever mora no seu peito. Ele não se conforma, precisa fertilizar-se; carece de convencer-se de que a sua esterilidade é passageira. Assim se dá o Big Bang de um texto qualquer. Ele toma a pena e começa a rabiscar. Mas eis que de repente o texto toma as rédeas. E o poeta, outrora senhor do universo, vira refém. As palavras assumem o comando.  Ele, qual gatinho seguro por mãos poderosas, vê-se carregado de um lado para o outro pelas palavras que tenta redigir.
Tal é a vida: os projetos mais audaciosos viram rotina, as experiências mais fantásticas acabam, as emoções mais arrebatadoras fenecem. Euforia, qual menina cheia de graça, “vem e passa”. O tempo fecundo se acaba. A hora esplêndida murcha. Os segundos frenéticos findam. A vida entra em compasso fúnebre. A marcha se arrasta melancólica pela avenida. Nessa hora, a música de Maria Bethânia, Calmaria, ganha força: “Ê calmaria/ Melancolia que devora/ Tempo espicha/ O segundo vira hora/ Ê calmaria/ Traz a mágoa e vai-se embora”.
O que fazer? Resta tomar o caminho do poeta quando se vê diante da página desinspirado e partir para a vida mesmo sem  convicção: engatinhar um passo, ensaiar um xote, trotar uma corrida, desafinar uma cantiga, gaguejar um compromisso, bosquejar um projeto. Na quietação, obedecer ao imperativo de seguir, tímido mesmo. Devagarinho, deixar que a própria vida conduza. Basta não se permitir atolar na lacuna da aridez. A calmaria vai embora. Em mínimos movimentos a vida conduz adiante. Sem pressa. Sem afobação. Esses tempos veem e vão embora. Bethânia de novo: “Meu Deus não me livre disso/ Não me livre disso, não me livre disso/ Desse risco de tristeza/ Desse amor feito corisco/ Desse rasgo de beleza/ Sempre a beira do abismo”. 
Por que? Ora, pois “Quem quer singrar os mares/ Sem passar por tempestades/ É melhor fincar n’areia/ O barco, a vela, a vontade/ Quem teme a escuridão/ Nem carece ver o brilho/ Passeando no arco da amplidão.
Na sequidão, sem muita inspiração, autopromovido poeta, faço coro: “Ê calmaria/ Vento vem e leva embora…”.
Soli Deo Gloria

Quando sentir fome de palavras sugiro que se alimente com os pratos servidos por Ricardo Gondim e Rubem Alves!! 

Beijos, 
Fefa Rodrigues

2 comentários:

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Adorei, Fefa!

Muito bacana!

Beijos!

Dora Delano disse...

to achando um máximo que vc começou a escrever também!