segunda-feira, 30 de julho de 2012

História e Poesia

Como costuma dizer o pessoalzinho da balada, eu ando numa "vibe" de II Guerra que tem me feito ler e assistir a tudo quanto encontro sobre o assunto, e nestas buscas me deparei com esta poesia de Drummond, que fala do que restou da cidade após a batalha.

Interessante ver essa união de história e poesia, poesia que eu ainda não conhecia, mas que vai agora para meu acervo sobre a II Guerra.



Carta a Stalingrado

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.

Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.

Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
 
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.

Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.

Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

                                                       - Drummond -


 
E uma dica legal, para quem gosta da história da corajosa garota judia Anne Frank visite este endereço aqui.

Beijos e boa leitura.
Fefa Rodrigues

5 comentários:

Dora Delano disse...

acho que foi um dos primeiros livros que li na vida... até hoje um dos meus favoritos: o diário de Anne Frank.

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Oi Fefa!

O Drummond tem pelo menos mais um poema sobre a IIGM, chama-se A Rosa de Hiroshima, e é bem famoso. mas acho que ele tem mais.

Também adoro Anne Frank, já li umas 3 vezes.

Beijos!

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Oi Fefa!

Também acho que a estrutura do quarto livro, deixando de fora os melhores personagens (hehe) deixa ele um pouco chatinho. Mas ele é super importante, explica muita coisa dos anteriores e do quinto.

Fê, a Bienal tá chegando! A gente precisa combinar um dia pra ir!

Beijos!

Nerito disse...

Ei, Fefa, valeu pelo toque sobre a bolsa de criação literária. Mandei meu projeto ontem! ^_^

E amanhã sai a resenha sobre "Do amor e outros demônios". Espero que goste...

Abraço!

Mundo Potinho disse...

Olá acabei de conhecer seu blog e gostei muito, o comentario do BBB foi ótimo, coitado dos livros hehe

bjos e sucesso

Ah eu não sou muito fã de poemas, mas estou aprendendo a gostar deles

http://oincrivelmundodapotinho.blogspot.com.br/